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O princípio de Peter

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Stefan Rappo

Peter Lindbergh, o fotógrafo que lançou a era das supermodelos, falou ao Expresso sobre a nova exposição e o novo livro que percorrem uma carreira de exceção

Janeiro de 1988, praia de Santa Mónica, Califórnia. Dez anos depois de ter trocado Dusseldorf por Paris para prosseguir uma carreira de fotógrafo, Peter Lindbergh reúne seis manequins então quase anónimas — Linda Evangelista, Christy Turlington, Tatjana Patitz, Karen Alexander, Rachel Williams e Estelle Lefébure — numa sessão para a “Vogue” americana. À então editora de moda, Carlyne Cerf de Dudzeele, habituada a “Rolex dourados e toda aquela joalharia”, pede que traga apenas camisas brancas. Depois, capta as mulheres de forma despretensiosa, a rirem-se juntas, quase sem maquilhagem, au naturel. Decide fotografá-las a preto e branco, sem retoques na pós-produção, para romper com a exuberância das imagens de moda da época, repletas de modelos glamorosas retratadas em estúdio. Quer mostrar uma mulher diferente, mais autêntica e genuína, revelar a beleza da sua alma, mais do que pernas compridas e cabelos bem arranjados. Quando apresenta o trabalho a Alexander Liberman, o diretor editorial da revista, e a Grace Mirabella, a editora executiva, estes ficam escandalizados. “O que é suposto fazermos com isto?!”, diz-lhe Mirabella. “Atirou as fotos para o caixote do lixo para me mostrar que tínhamos um ponto de vista diferente sobre a forma como uma mulher devia ser representada numa revista de moda. Senti-me frustrado”, recorda o fotógrafo alemão ao Expresso.

Lindbergh oferece as imagens da sessão a Liz Tilberis, editora executiva da “Vogue” britânica, que as publica na edição de outubro. Anos mais tarde, a foto das camisas brancas é eleita no livro “100 Anos de Vogue” como a mais importante dos anos 80. Não é por acaso que tem um lugar de destaque na exposição “Peter Lindbergh – A Different Vision on Fashion Photography” (“Uma Visão Diferente da Fotografia de Moda”), no Kunsthal Museum, projetado por Rem Koolhaas, em Roterdão, a qual coincide com o lançamento de um livro homónimo da Taschen sobre a sua obra — aquela imagem marca para o lendário fotógrafo o “certificado de nascimento das supermodelos”, que dominariam as capas das revistas e as grandes campanhas publicitárias da década de 90, e funciona como rampa de lançamento da sua carreira.

Supermodelos. Lindbergh, em 1990, com Christy Turlington, Tatjana Patitz, Naomi Campbell, Cindy Crawford e Linda Evangelista

Supermodelos. Lindbergh, em 1990, com Christy Turlington, Tatjana Patitz, Naomi Campbell, Cindy Crawford e Linda Evangelista

Peter Lindbergh (cortesia de Peter Lindbergh, Paris/Gagosian Gallery)

A revolução coincide com a chegada de Anna Wintour à direção da “Vogue”. Aquela que é hoje a figura mais poderosa do mundo da moda (serviu de inspiração para o filme “O Diabo Veste Prada”) descobre as fotos de Lindbergh numa gaveta e decide encomendar-lhe a primeira capa do seu reinado, a da edição de novembro de 1988. Nela, a modelo Michaela Bercu veste um casaco Christian Lacroix com uma cruz feita de pérolas, mas a saia não lhe serve e tem de usar os jeans gastos de Carlyne, a editora de moda. Lindbergh envia as fotos a Wintour assumindo que os jeans serão cortados, mas esta decide mantê-los na foto, reforçando a ideia de encontro entre a alta-costura e o mundo real. Quando a revista é enviada para impressão, os responsáveis da gráfica ligam para saber se há algum engano. Não dá para censurá-los, admite Wintour. “Aquela foto não tinha nada a ver com os close-ups elegantes e estudados que eram típicos das capas da ‘Vogue’ na época, cheios de maquilhagem e joias caras. Quebrava todas as regras. A Michaela não estava a olhar para nós e, pior, tinha os olhos quase fechados. O vento soprava-lhe na cara. A foto parecia fácil, casual, um momento captado na rua, que era o objetivo. Olhei para a imagem e senti os ventos da mudança”, explica Wintour no livro da Taschen.

A FOTOGRAFIA DA VERDADE

Ao contrário de Lindbergh, muitos defendem que a era das supermodelos começou pouco mais de um ano após a sessão das camisas brancas, na viragem da década, também pela lente do alemão. Para a capa da “Vogue” de janeiro de 1990, o fotógrafo escolhe não uma mas cinco mulheres com personalidades muito distintas: a Evangelista, Turlington e Patitz, que já tinham estado com ele naquela praia da Califórnia, junta Cindy Crawford e Naomi Campbell. A imagem, registada numa rua de Nova Iorque em julho de 1989, marca uma revolução na forma como a indústria olha para as modelos e define a nova identidade dos anos 90: estas aparecem não como meros objetos mas como mulheres fortes e independentes, com as quais as leitoras se podem identificar. A moda rendia-se à fotografia da verdade, longe da estética opulenta da época.

“Para mim, era muito desinspirada a forma como as manequins eram fotografadas nos anos 80”, afirma Lindbergh. “Estava a tentar captá-las de uma forma diferente, mas ninguém parecia importar-se na altura... Queria afastar-me da mulher formal, quase perfeita, que era muito artificial.” O seu ideal eram as jovens mulheres que encontrou na escola de artes, muito independentes e confiantes. “As supermodelos representam essa mudança. Isso explica porque dominaram o mundo visual durante tantos anos.”

Foi depois de ver a famosa capa da “Vogue” de janeiro que o cantor George Michael decidiu contratar as cinco manequins para o videoclip de ‘Freedom ’90’, dirigido por David Fincher, e que ajudaria a acelerar o movimento das supermodelos. O italiano Gianni Versace foi o primeiro designer a reconhecer o poder delas. “Reservou-as para o final do seu desfile da coleção Outono 1991, todas a percorrer a passarela a cantar a canção de George Michael. Marcou o início da era das modelos celebridade, que redefiniu a imagem da mulher moderna e se tornou parte da cultura popular”, lembra Thierry-Maxime Loriot, o curador da exposição e coordenador do livro.

Kate Moss. fotografada em 1994 para a “Harper’s Bazaar”, numa sessão que inicialmente devia ter sido protagonizada por Madonna

Kate Moss. fotografada em 1994 para a “Harper’s Bazaar”, numa sessão que inicialmente devia ter sido protagonizada por Madonna

Fotografias de Peter Lindbergh (cortesia de Peter Lindbergh, Paris/Gagosian Gallery)

Todas as raparigas da época queriam parecer-se com a canadiana Evangelista ou com a americana Crawford, uma jovem do Illinois que ascendeu ao estrelato no final da década de 80 com o seu sinal por cima do lábio. Para ela, Peter tem um olhar único. “Foi a primeira coisa que reparei nele, provavelmente numa foto da Linda. É uma foto de uma mulher real e não de uma manequim bidimensional. Queremos saber o que ela está a pensar e quase sentimos que o sabemos. Ele realmente vê a beleza de uma mulher que amadurece com a experiência, com a maternidade, com os desgostos, com o amor, com tudo isso.”

Essa autenticidade não significa que ele renuncie a explorar para lá das personalidades únicas das modelos. Pelo contrário, incentiva-as a encarnar diferentes personagens, muitas vezes jogando com a ambiguidade sexual, vestindo as mulheres com roupas de homem e subvertendo as convenções rígidas da indústria da moda. A canadiana Linda Evangelista, por exemplo, ficaria conhecida como “O Camaleão” com a ajuda de outro talentoso fotógrafo, Steven Meisel, mas foi Lindbergh quem a convenceu a cortar o cabelo curto, em 1988. A decisão chocou o mundo da moda e fê-la perder uma dúzia de contratos, mas acabaria por ganhar muitos mais, convertendo-se numa das modelos mais icónicas de todos os tempos. Porém, até conhecer o fotógrafo alemão, era apenas “uma modelo bonita, quase banal, chamada Linda”, recorda Karl Lagerfeld, uma das primeiras pessoas a apoiar o compatriota quando este se mudou para a Cidade Luz. “O Peter transformou-a na Evangelista. As pessoas diziam ‘Evangelista’ como quem dizia ‘Dietricht’ ou ‘Garbo’”, escreveu o designer no prefácio do livro “10 Women” (1996), onde Lindbergh retrata as suas modelos favoritas da época.

Essas imagens com a lendária manequim serviram de inspiração no início da carreira de outra supermodelo dos anos 90, a britânica Kate Moss, que ficaria famosa com os seus anúncios para a Calvin Klein. O fotógrafo germânico fez dela uma das suas musas, chamando-a para a famosa produção “A Star Is Born” (“Nasceu Uma Estrela”), publicada em 1994 na “Harper’s Bazaar”, quando Madonna, que a deveria ter protagonizado, não pôde fazê-lo por motivos de agenda. “Divertimo-nos sempre quando trabalhamos juntos”, diz Moss ao Expresso. “Ele é muito descontraído, faz-me rir muito. Quando trabalho, assumo uma personagem, mas o Peter captura sempre um elemento da minha verdadeira essência.”

Musas. Kate Estelle Lefébure, Karen Alexander, Rachel Williams, Linda Evangelista, Tatjana Patitz e Christy Turlington, todas vestidas apenas com camisas brancas, numa imagem icónica considerada “o certificado de nascimento das supermodelos”

Musas. Kate Estelle Lefébure, Karen Alexander, Rachel Williams, Linda Evangelista, Tatjana Patitz e Christy Turlington, todas vestidas apenas com camisas brancas, numa imagem icónica considerada “o certificado de nascimento das supermodelos”

Peter Lindbergh (cortesia de Peter Lindbergh, Paris/Gagosian Gallery)

Na segunda metade do século XX, as supermodelos, tornadas ‘reféns’ pelas grandes casas de moda e pela indústria cosmética, que as exploraram até à exaustão, acabariam por se afastar do seu encanto original: o de mulheres genuínas, próximas das suas leitoras. O alemão, pelo contrário, manteve-se fiel ao seu princípio: o de captar a beleza natural sem qualquer artifício, mesmo numa era em que tudo é tão retocado que as modelos quase se tornam irreconhecíveis nas páginas das revistas. Muita pós-produção, defende, só é necessária quando não se sabe usar a luz. “É dever dos fotógrafos de hoje libertar as mulheres e toda a gente do terror da juventude e da perfeição. O problema não é o Photoshop, mas o facto de os fotógrafos o usarem de uma forma que é desrespeitosa e destrutiva para as mulheres. Não pode haver beleza sem verdade.”

Para a jornalista britânica Suzy Menkes, responsável pelas edições internacionais da “Vogue” na internet e uma das vozes mais respeitadas da indústria da moda, a imagem de marca de Lindbergh é a sua “honestidade absoluta. Podemos admirar outros fotógrafos pelas suas capacidades de transformação, mas o Peter mostra as coisas como elas são, sem subterfúgios ou alterações. Ele gosta da realidade da imperfeição”. As suas imagens olham para a alma nua e crua de cada pessoa, independentemente de quão familiar ou famosa ela é, “e para lá da máscara da roupa” que traz vestida.

UM FOTÓGRAFO ANTIFASHION

Muitas vezes descrito como o “poeta do glamour”, Lindbergh recusa esse estatuto. As peças de roupa são o que menos lhe interessa e evita assistir a desfiles de moda para não beber as mesmas inspirações dos outros. Prefere apanhar coisas da rua, “como um cão”. Nesse sentido, não é verdadeiramente um fotógrafo de moda (embora não se sinta diminuído pela designação) mas alguém que “usa a moda para falar com as mulheres e sobre as mulheres, o que é muito diferente”, nota a amiga Franca Sozzani, editora executiva da “Vogue” italiana, que nunca deixou de trabalhar com ele desde 1980.

“A moda nunca desempenha o papel principal no seu trabalho”, concorda Lagerfeld, que é também diretor criativo da Chanel e da Fendi e um ávido apaixonado por fotografia. “As mulheres são sempre o tema. A visão dele é ao mesmo tempo atual e intemporal. As suas fotografias nunca serão olhadas com emoção condescendente dentro de 30 ou 40 anos.”

Linda Evangelista. Foi Lindbergh quem a convenceu a cortar o cabelo curto — nascia ali “O Camaleão”

Linda Evangelista. Foi Lindbergh quem a convenceu a cortar o cabelo curto — nascia ali “O Camaleão”

Peter Lindbergh (cortesia de Peter Lindbergh, Paris/Gagosian Gallery)

Não é que Lindbergh não se preocupe com a moda — “tem grande admiração e respeito pelos criadores”, garante Thierry-Maxime Loriot —, mas ela não é o seu foco per se. “Não acho que um fotógrafo de moda tenha de ter um especial interesse pela moda”, defende-se ele. “A fotografia de moda não deve limitar-se a mostrar as roupas, mas deve ter a liberdade de ser muito maior do que isso, muito maior do que a moda em si.” O que procura com as suas imagens é aprofundar a natureza da modelo mais do que os detalhes do que traz vestido. “Quando conheço alguém, há mais probabilidade de me recordar do olhar e dos movimentos do corpo do que das cores da camisola.”

O realizador Wim Wenders, criado em Dusseldorf, a pouco mais de 20 quilómetros de onde o fotógrafo cresceu, define o trabalho do amigo de longa data como algo que “redefine o mundo que retrata” e que não se limita a arranhar a superfície reluzente da indústria da moda. “Estas mulheres que ele fotografa, chamem-lhes ‘modelos’, ‘deusas’ ou ‘rainhas’, por definição quase nunca se revelam. Elas têm de manter a distância em relação a nós para poderem ser quem são. Porém, com as fotografias do Peter Lindbergh, vemos estas mulheres em toda a sua glória, sem disfarces, a saírem de trás da superfície brilhante que estão habituadas a mostrar-nos.”

Nos passos de Van Gogh

O ideal de beleza do fotógrafo foi moldado pelo meio em que cresceu, na maior região industrial da Europa. “Se tivesse nascido em Veneza, seria diferente, mas cresci rodeado de minas de carvão e de fábricas impressionantes. Aquelas paisagens e aquela arquitetura, juntamente com a cultura alemã da primeira metade do século XX, desempenharam um papel importante na minha perceção da beleza.” É, por isso, que as suas imagens “são tão fortes”, afirma Ivan Shaw, que foi responsável de fotografia da “Vogue” durante o período de maior sucesso da revista e hoje é diretor de fotografia do grupo Condé Nast. “Ele cresceu no vale do Ruhr e passava os verões nas praias do Mar do Norte. Quando vemos as suas modelos a posar em praias ou em grandes estruturas industriais, conseguimos sentir a ligação emocional que ele tem com esses lugares.”

Apesar de ter nascido em 1944 (completa 72 anos em novembro) em Leszno, cidade polaca então ocupada pelos nazis, Peter Lindbergh tinha apenas dois meses quando a família se mudou para Duisburgo, centro da indústria de aço da Alemanha. Enquanto o pai lutava na guerra (foi alvejado por um sniper, perdendo alguns dedos), ele, a mãe, a avó, o irmão e a irmã subiram para uma pequena plataforma com duas rodas puxada por um cavalo e percorreram 2500 quilómetros. “Não é incrível? Na guerra!”

Da infância, lembra-se sobretudo de acordar de manhã com traços de poeira de carvão por todo o lado e dos trabalhadores a sair das minas com as caras pintadas de negro. Enquanto o pai vendia doces a mercearias, a mãe ficava em casa a cuidar dos três filhos e cosia as suas próprias roupas com padrões que descobria nas revistas. “Aprendi que não é preciso muito para se ser uma criança feliz. Não tínhamos nada, mas também não tínhamos saudades de nada. Esta é uma importante lição para os adultos.”

Com apenas 14 anos, deixou a escola para trabalhar como vitrinista nos centenário armazéns Karstadt, espécie de El Corte Inglés ou Printemps germânico. “Não há nada como sair de casa e ganhar o próprio dinheiro”, explica. “O trabalho era interessante e desafiante, pelo menos durante uns anos.” Mais tarde, conseguiu escapar ao serviço militar arranjando emprego em Lucerna, na Suíça. Foi quando voltou para a Alemanha e se mudou para Berlim que despertou para as artes. Nunca antes tinha entrado num museu, visitado uma exposição ou aberto sequer um livro de arte. Foi como se o mundo se abrisse aos seus olhos, queria aprender tudo. “Era como uma toalha seca: absorvia tudo.”

Monica Bellucci. No início do novo milénio, o fotógrafo alemão começou a virar-se para projetos mais pessoais, que passaram a incluir também estrelas do cinema

Monica Bellucci. No início do novo milénio, o fotógrafo alemão começou a virar-se para projetos mais pessoais, que passaram a incluir também estrelas do cinema

Peter Lindbergh (cortesia de Peter Lindbergh, Paris/Gagosian Gallery)

Teve aulas na Academia de Belas-Artes, mas fartou-se depressa de ter de desenhar os retratos e as paisagens da praxe. Decidiu então seguir os passos do seu ídolo, o pintor holandês Vincent van Gogh, até ao sul de França. “Fui à boleia até Arles. Tinha 18 anos quando lá cheguei.” De manhã apanhava fruta em quintas; à tarde, tentava vender os seus trabalhos em mercados. Ficou lá oito meses. Depois partiu, de novo à boleia, à descoberta da Europa e do norte de África. Foram dois anos na estrada, “a fumar erva e a dormir na rua”. Fizeram dele “um homem diferente”.

Ao regressar à Alemanha, foi estudar pintura livre na escola de arte de Krefeld. Em 1969, poucas semanas antes de terminar o curso, foi convidado a apresentar o seu trabalho na prestigiada galeria avant-garde Denise René - Hans Mayer. Apresentou-se com o nome Sultan, exibindo uma coleção com elementos móveis a que chamou “Mono-Types”. “Era um artista conceptual”, recorda Loriot. “É muito interessante olhar para o seu trabalho e descobrir essa influência, o minimalismo e o conceptualismo das suas imagens.”

Um alemão em Paris

A descoberta da fotografia aconteceu quase por acidente, aos 26 anos: comprou a primeira câmara porque estava “fascinado” pelos sobrinhos. “Queria fotografá-los com um sentimento que isso pudesse, de alguma forma, preservá-los. Era uma ideia romântica, mas aprendi que as crianças confrontam a câmara sem terem consciência de si próprias. Aprendi isso de forma tão profunda que ainda hoje beneficio dessa experiência.”

Depois de se mudar para Dusseldorf, em 1971, Lindbergh trabalhou durante dois anos como assistente do fotógrafo Hans Lux, antes de abrir o seu primeiro estúdio. Cinco anos mais tarde, foi convidado a juntar-se à equipa da prestigiada revista “Stern”, que incluía fotógrafos como Helmut Newton, Guy Bourdin e Hans Feurer. Mudou-se então para Paris com a mulher, Petra Sedlaczek, sua antiga assistente e também fotógrafa — têm quatro filhos, todos rapazes.

O fascínio pelo retrato surgiu ao descobrir o fotojornalismo dos anos da Grande Depressão — em especial o trabalho de Dorothea Lange e Walker Evans —, quando o Governo americano enviou fotógrafos para documentar realidades como o trabalho infantil, a pobreza ou o crime. Vem também daí a sua preferência pelo preto e branco, que considera refletir uma realidade mais poderosa. “Interessei-me por estas imagens e, desde aí, havia em mim a noção que o preto e branco estava associado à verdade. Preferia-o porque era uma interpretação da realidade, uma ligação mais privilegiada com a verdade do que a cor.”

Julianne Moore. Uma das estrelas que acabou de fotografar para o novo calendário Pirelli

Julianne Moore. Uma das estrelas que acabou de fotografar para o novo calendário Pirelli

Peter Lindbergh (cortesia de Peter Lindbergh, Paris/Gagosian Gallery)

A moda só entrou na sua vida quando, em 1978, a “Stern” lhe pediu para fotografar designers franceses e italianos, incluindo o já consagrado Yves Saint Laurent, um dos primeiros que conheceu no início da carreira, e uma nova geração, com nomes como Giorgio Armani, Thierry Mugler, Kenzo ou Claude Montana. O francês Jean-Paul Gaultier recorda-o como um profissional “muito entusiasta e energético”. “A primeira foto que ele me tirou foi com a Marianne Sagebrecht, uma atriz alemã que depois entrou no filme ‘Bagdad Café’. Já na altura a sua escolha de modelo foi pouco usual e é ainda uma das minhas fotos favoritas”, conta o criador francês ao Expresso. “Somos ambos veteranos da moda, ambos trabalhamos desde os anos 70, mas o que me surpreende é que ele continua com a mesma curiosidade e o mesmo entusiasmo do início da sua carreira. Tem um olhar fresco, uma personalidade vibrante, deixa toda a gente à vontade enquanto lhes olha nas profundezas da alma.”

Para John Galiano, que foi apresentado a Lindbergh em 1987 depois de ganhar o prémio de Designer Britânico do Ano, logo no início da carreira, o alemão “pinta com a luz”. A velha e misteriosa expressão germânica para fotografias (lichtbilder, literalmente “imagens de luz”) não podia, por isso, descrever de forma mais adequada o seu trabalho. “Ele consegue a luz mais bonita, a expressão mais bonita”, concorda Loriot, que trabalhou pela primeira vez com ele há quase 20 anos. “É também essa a forma como lida com as pessoas: é uma pessoa muito humana, com grandes valores, profundamente interessada nos outros, não no seu estatuto social ou hierarquia. Toda a gente recebe o mesmo tratamento, mesmo que tenha ganho cinco Óscares.”

Das mulheres aos ovnis

O novo milénio marcou uma viragem na linguagem visual de Lindbergh, não apenas pelo advento da fotografia digital mas também pela necessidade que sentiu de se distanciar da indústria da moda. Começou a focar-se em projetos pessoais, incluindo a série “Invasions” (“Invasões”), mais tarde transformada em “The Unknown” (“O Desconhecido”), onde explora o seu fascínio pela ficção científica em cenários apocalípticos. A série era mais sobre fotografia do que sobre mulheres, explica. “A Linda, a Cindy, a Naomi e outras desviaram-me de fotografar narrativas no início dos anos 90. Dez anos mais tarde, era tempo de voltar ao storytelling e às coisas pelas quais estava fascinado: ovnis, luzes inexplicáveis que vêm do céu, coisas misteriosas, algo espirituais, mas também engraçadas.”

O alemão começa a abrir-se mais à fotografia a cores, trabalha com atores famosos para interpretar as suas personagens, põe máscaras nas supermodelos para as tornar anónimas, “e para criar novas referências visuais sem oferecer ‘moda’”, explica Loriot. Os seus retratos mergulham também no mundo do cinema e da dança, às vezes fundem-nos: em 2001 gravou um documentário sobre a amiga Pina Bausch. “Com a dança tem tudo a ver com captar o movimento, que é o que mais amo”, explica. Este ano, retratou os bailarinos do New York City Ballet para promover a nova temporada da companhia, tendo-os levado para uma casa no campo, fora da sua zona de conforto.

Amigos. Jean-Paul Gaultier conheceu Lindbergh no início dos anos 80 e recorda-o como um profissional “muito entusiasta e energético”

Amigos. Jean-Paul Gaultier conheceu Lindbergh no início dos anos 80 e recorda-o como um profissional “muito entusiasta e energético”

Peter Lindbergh (cortesia de Jean-Paul Gaultier)

Lindbergh tem ainda explorado o cinema, influenciado grandemente por “Metropolis” (1927), obra-prima de Fritz Lang, com ambientes que lhe eram familiares: as fábricas, a vida dos operários... Realizou vários filmes e documentários aclamados, como “Models, The Film” (1991), sobre a época das supermodelos, “Inner Voices” (2000), que ganhou o prémio de melhor documentário no Festival de Toronto, e “Everywhere at Once”, com narração de Jeanne Moreau, que foi apresentado nos festivais de Cannes e Tribeca.

Recentemente, quando foi convidado pela Pirelli para fotografar o famoso calendário da marca de pneus, que será revelado em novembro, escolheu quase só estrelas da sétima arte, como Nicole Kidman, Penélope Cruz, Helen Mirren, Kate Winslet, Alicia Vikander, Julianne Moore e outras. A média de idades entre as 15 retratadas é de 44 anos, o que reflete uma preferência clara por mulheres mais maduras, algo raro numa indústria obcecada com a beleza e a juventude. “É uma contramensagem a um ideal de beleza falso”, explicou à “Vogue”. É também uma carta de amor a mulheres que ama e admira. “Quis casar com todas as que estão neste calendário a determinada altura da minha vida e não tive tomates para lhes pedir.”

Um dos raros fotógrafos vivos representados pela renomada e muito exclusiva Gagosian Gallery, Peter Lindbergh será o primeiro a realizar por três vezes o calendário Pirelli. Este feito assenta como uma luva numa carreira de exceção, sempre a quebrar as regras.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 24 de setembro de 2016