Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

O desfecho feliz de mais uma conquista do espaço

  • 333

Visão artística da sonda Rosetta pouco antes de pousar sobre a superfície do cometa 67P.

ESA/ATG medialab

Foi uma viagem que demorou 12 anos: acabou a missão da Rosetta, sonda lançada da Terra em 2004 pela Agência Espacial Europeia, organização a que Portugal pertence. Acompanhou a órbita do cometa 67P, o que aconteceu pela primeira vez na história da conquista do espaço

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

Foi com uma efusiva salva de palmas e uma generalizada troca de abraços que o impacto da sonda espacial Rosetta na superfície do cometa 67P foi festejado por dezenas de cientistas no Centro de Operações Espaciais de Darmstadt, na Alemanha. Eram 12h20 de Lisboa quando tudo aconteceu, precisamente a hora prevista pela Agência Espacial Europeia para o momento histórico em que a missão de 12 anos, seis meses e 27 dias devia terminar.

Momento histórico porque Rosetta foi a primeira sonda espacial a acompanhar a órbita de um cometa, durante cerca de 17 meses. Ou mais precisamente, a primeira construída para orbitar e pousar num cometa. Que tem uma designação complicada, devido aos nomes dos astrónomos de Kiev (Ucrânia) que o descobriram: 67P/Churiumov-Gerasimenko. Este cometa, que viaja entre as órbitas da Terra e de Júpiter, foi estudado com o maior detalhe de sempre pela sonda Rosetta, que fez muitas outras coisas ao longo dos 12 anos da sua missão. Assim, orbitou o Sol cinco vezes, sobrevoou os asteroides 2867 Steins e 21 Lutetia, e o planeta Marte.

A sonda não ia sozinha na sua missão, porque transportava um robô, o Philae, que a 12 de novembro de 2014 separou-se da nave e pousou no cometa, depois de sete horas de manobras de aproximação no espaço, tornando-se o primeiro objeto artificial a pousar na superfície de um cometa. Mas esta parte da missão acabou por ser atribulada, porque o robô de 100 kg não conseguiu fixar-se à primeira tentativa no local previsto na superfície do cometa e andou aos saltos até "aterrar" numa ravina. Como este local tinha pouca luz e o Philae era alimentado por painéis solares, apenas recolheu dados científicos enquanto a sua bateria durou. A única vantagem é que este acidente de percurso permitiu descobrir o campo magnético do 67P.

O cometa 67P fotografado pela câmara OSIRIS da sonda Rosetta no dia 29 de setembro

O cometa 67P fotografado pela câmara OSIRIS da sonda Rosetta no dia 29 de setembro

ESA

Estudo mais detalhado de sempre

“A Rosetta entrou mais uma vez para os livros de história”, afirmou Johann-Dietrich Wörner, diretor-geral da ESA. “Hoje celebramos o sucesso de uma missão inédita, que superou todos os nossos sonhos e expectativas, e que continua o legado da ESA de ‘primeiros’ em cometas”. Álvaro Giménez , diretor de Ciência da ESA, acrescentou que “graças a um enorme esforço internacional de longas décadas, conseguimos com a nossa missão levar um laboratório de ciência de classe mundial para um cometa para estudar a sua evolução ao longo do tempo, algo que nenhuma outra missão a um cometa se aventurou a fazer”.

Durante a sua longa missão de observação do 67P, a sonda Rosetta estudou a sua composição, atmosfera, topografia, partículas e gases que liberta quando está mais próximo do Sol. Para investigar a sua origem e a sua relação com material interestelar foram feitas uma série de medições pelos seus 11 instrumentos, que permitiram também conhecer melhor o núcleo do cometa e as suas propriedades dinâmicas.

Estes instrumentos permitiram descobrir que o 67P se formou no início do Sistema Solar, que nasceu há 4,6 mil milhões de anos. A água encontrada é muito diferente da água na Terra, o que significa que, provavelmente, foram os asteroides e não os cometas que bombardearam a Terra nos primeiros tempos da sua existência, contribuindo para a formação dos oceanos.

A Rosetta foi lançada a 2 de março de 2004 da base espacial da ESA em Kourou, na Guiana Francesa, a bordo de um foguetão Ariane 5. Agora, depois de silenciada, há ainda muitos dados que terão de ser analisados pelos cientistas da ESA e que podem levar a novas descobertas sobre os primeiros termpos do Sistema Solar.