Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

O arrufo entre marido e mulher que quase estragou o desembarque da Normandia

  • 333

Juan “Garbo” Pujol viveu uma vida incrível e ficou para a História como “o melhor agente duplo da Segunda Guerra Mundial”. Sozinho, o jovem espanhol convenceu os alemães de que era um fanático nazi e mereceria espiar para eles – apenas para depois inventar uma rede de 27 espiões imaginária e começar a trabalhar para os britânicos. Com o objetivo de “contribuir para o bem da Humanidade”, conseguiu enganar Hitler e despistar os nazis em relação ao desembarque dos aliados no dia D – mas a sua esposa chegou a pôr o plano em perigo, ameaçando revelar a sua identidade se não pudesse voltar a Espanha (até porque estava farta de comer macarrão, muitas batatas e pouco peixe em terras de Sua Majestade). A história só agora foi conhecida

Não há quem não conheça a história daquele 6 de junho de 1944, o dia em que os Aliados desembarcaram nas praias da Normandia e estabeleceram o rumo que o segundo conflito mundial iria seguir. Mas a história poderia ter sido bem diferente, como revelam documentos dos serviços secretos britânicos revelados esta semana, não tivesse um agente duplo espanhol conseguido acalmar a esposa e convencê-la a não estragar o seu disfarce – tudo porque ela tinha saudades de casa (e da dieta mediterrânica).

É uma história esquisita e com valor cómico agora que sabemos que os Aliados acabaram por conseguir desembarcar em segurança naquelas praias e tornar o Dia D um dia histórico, mas o arrufo de casal podia ter acabado em tragédia. Araceli, uma jovem espanhola de 23 anos, nunca tinha saído da Península Ibérica até ser obrigada a instalar-se em Londres devido ao trabalho do marido, Juan Pujol, hoje conhecido pelos serviços britânicos como “o melhor agente duplo da Segunda Guerra Mundial”.

Um dos grandes feitos de Pujol - e sem dúvida o que lhe confere tal fama junto dos serviços secretos de que fez parte naquela época – foi a sua manobra de convencimento junto dos nazis em 1944, relativamente à operação OVERLORD, que acabaria por resultar nos famosos desembarques. É que Pujol conseguiu convencer os alemães de que os aliados preparavam, na verdade, uma outra operação – a imaginária FORTITUDE – com 11 divisões do exército americano, também imaginárias, sob o comando de um dos mais conhecidos generais daquele conflito, o general George S. Patton.

Insistindo ter informações em sua posse sobre a tal operação FORTITUDE em mais de 500 mensagens de rádio trocadas com os alemães entre janeiro e junho daquele ano, Pujol explicou aos altos comandos dos serviços secretos nazis, que estavam a par dos planos para uma invasão aliada a grande escala na Europa, que tal aconteceria na zona de Pas de Calais e não na Normandia. Para mais, Pujol conseguiu ainda convencer os alemães, mesmo após o desembarque na Normandia, de que aquele não passava de uma distração, estando a verdadeira invasão a ser preparada em segredo para acontecer realmente em Pas de Calais posteriormente.

Foi assim que o espião espanhol a trabalhar ao serviço dos britânicos conseguiu persuadir os alemães a concentrarem-se num suposto ataque a Pas de Calais em vez de apostarem tudo na defesa da zona da Normandia, num golpe que lhe trouxe uma fama indiscutivelmente merecida. No entanto, Pujol poderia nem sequer ter chegado a conversar com os alemães caso a esposa, Araceli, tivesse concretizado os seus próprios planos.

Ultimato por causa das saudades de casa

Jovem, com saudades de casa e da mãe e farta da comida britânica – “demasiado macarrão, batatas e pouco peixe”, queixava-se a jovem, de acordo com o “The Independent” -, Araceli estava frustrada com a vida que vivia em Londres, para mais tendo de lidar com as constantes ausências do marido em trabalho. Por isso, em junho de 1943, um ano antes do Dia D, ela fez um ultimato: ou era autorizada a voltar para Espanha (em Londres a jovem e os filhos nem sequer podiam deixar a casa em que viviam, na zona de Harrow, para não serem reconhecidos) ou estragaria o disfarce do marido junto da embaixada espanhola no Reino Unido.

“Não quero viver nem mais cinco minutos em Inglaterra com o meu marido. Vou à embaixada espanhola, mesmo que me matem”, ameaçou Araceli numa “explosão de histerismo” em que confrontou o superior de Juan Pujol, o agente Tommy Harris, dos serviços do MI5. Após a fúria de Araceli e temendo que a ameaça se concretizasse, Harris planeou dizer-lhe que despedira Pujol – mas o agente duplo teve uma ideia melhor, lembrando que nesse caso não haveria problema se Araceli voltasse para Espanha.

Assim, graças à imaginação de Pujol, os serviços secretos britânicos encenaram a prisão do espião, comunicando a Araceli que graças à sua ameaça o marido fora detido. Araceli chegou inclusivamente a ser levada, de olhos vendados, a uma prisão onde visitou o supostamente detido Juan, ficando convencida a apoiar o seu trabalho enquanto espião quando o conselheiro legal do MI5 Edward Cussen lhe disse que iria libertar Pujol para que ele continuasse a missão: “Ele lembrou-lhe que não tinha tempo a perder com pessoas cansativas e que se voltasse a ouvir o nome dela mandaria prendê-la”, explicam os registos agora revelados.

Pelo bem da Humanidade

A história parece saída de um filme de espiões, mas a verdade é que Pujol foi rejeitado por duas vezes pelos próprios serviços britânicos antes de se conseguir tornar um espião, como ambicionava. Nascido em 1912 no seio de uma família modesta de ideias liberais, em Barcelona, Juan Pujol García definiu as suas posições políticas – particularmente o desprezo por regimes totalitaristas e pelo nazismo em particular – durante a Guerra Civil espanhola.
Neste conflito, numa decisão que parece algo premonitória, o jovem conseguiu combater pelos dois lados e não disparar um único tiro por nenhum deles, conforme relata o website do MI5. Terminada a guerra, em 1939, e decidido a rejeitar regimes totalitários, Juan viu na ascensão dos fascismos na Europa a sua oportunidade para cumprir o seu novo objetivo: “Contribuir para o bem da Humanidade”.

“Em 1941, quando os alemães tinham todo o poder em Espanha, a embaixada britânica em Madrid estava a ser apedrejada, França tinha colapsado e a invasão alemã estava prestes a acontecer, mal os alemães sabiam que o delicado jovem espanhol que se aproximou deles para ir a Londres espiar ao seu serviço era, na verdade, um espião britânico”, relatam os registos assinados por Tommy Harris em 1946.

Mais espantoso é saber que Juan Pujol, conhecido durante a Segunda Guerra Mundial com o nome de código “Garbo”, não era sequer nesta altura um espião britânico – os seus contactos, feitos a partir de Lisboa e de Madrid, tinham sido por três vezes rejeitados. Pelo contrário, os alemães aceitaram rapidamente os seus serviços quando afirmou ser um agente do Governo espanhol, fanático e pró-nazi, que estaria prestes a ser colocado em Londres em trabalho e queria espiar a partir de lá. Ironicamente, foi mesmo com os alemães que recebeu um curso de espionagem e foi supostamente colocado em Londres, com o objetivo de criar uma rede de espiões na capital britânica.

O trabalho de Pujol foi feito com tanto esmero que o espião conseguiu mudar-se para Lisboa em vez disso e, com recurso a guias e livros de referência sobre Londres, escrever relatórios para os nazis como se se encontrasse de facto na capital britânica. Quando em abril de 1942 finalmente conseguiu ser aceite pelos serviços secretos britânicos, Pujol (juntamente com Araceli e os filhos) foi então levado para Londres pelos Aliados e posto em contacto com o seu superior Tommy Harris, que falava espanhol.

Foi graças a este par – definido pela História Oficial dos Serviços Secretos Britânicos na Segunda Guerra Mundial como “uma rara parceria entre dois homens excecionais com espíritos de génio que se inspiravam e complementavam” – que os nazis ficaram convencidos sobre uma suposta rede de 27 espiões (com histórias de vida completas e credíveis) que Pujol estaria a comandar a partir de Londres.

Juntos, Tommy e Juan escreveram 315 cartas para os serviços alemães em que falavam fanaticamente sobre a “nova ordem mundial” de Hitler, explicando o mesmo relato histórico que os alemães estabelecidos em Espanha terão tido tanta informação sobre as supostas atividades de Londres que não tentaram infiltrar-se de nenhuma outra forma na capital britânica – e assim se conseguiu evitar que impedissem um dos grandes dias da história mundial e uma das grandes vitórias dos Aliados sobre o nazismo.

Juan “Garbo” Pujol García acabaria por ser distinguido pelo diretor-geral dos serviços secretos, David Petrie, em reconhecimento dos seus serviços, mudando-se depois para Venezuela. Antes da sua morte em 1988 conseguiu ainda partilhar a sua incrível história com o mundo, assinando a autobiografia “Operação Garbo” em 1985 com o seu verdadeiro nome e revelando assim a sua excecional ligação à história dos serviços secretos Aliados.