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Estudo sobre imuno-oncologia contestado

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Documento elaborado por 30 peritos nacionais e apoiado pela Universidade Católica que visa influenciar política governativa para o cancro foi duramente criticado durante apresentação pública

O estudo “Consenso Estratégico Sobre o Valor da Imuno-Oncologia em Portugal”, elaborado pelo Instituto de Saúde Pública da Universidade Católica Portuguesa (UCP), apresentava-se, como refere o próprio texto, como um documento capaz de “encontrar respostas para os novos desafios que a imuno-oncologia impõe”, mas foi recebido de forma crítica nesta terça-feira, durante a apresentação pública em Lisboa.

Resultado do trabalho de 30 peritos, com percursos na área da ciência, alguns dos principais especialistas portuguesas em Oncologia, da prática clínica, da gestão da saúde e representantes de doentes, como o presidente da Liga Portuguesa Contra o Cancro, o documento visa influenciar a política governativa para o combate ao cancro. Entre os alertas apontados pelo documento estão o “sub-financiamento da Oncologia em Portugal e a iniquidade no tratamento dos doentes de acordo com a área de residência”.

As críticas caíram como uma bomba e vieram do diretor do Centro de Estudos de Medicina Baseada na Evidência, António Vaz Carneiro. Sublinhando a ausência de referências aos ensaios clínicos na área ou à presença de documentação comprovativa dos efeitos a longo prazo da imuno-oncologia nos doentes, o especialista, participante num painel realizado na UCP para apresentar o documento, recusou-se sequer a comentá-lo. “Procurei e como não encontrei, não li”, afirmou Vaz Carneiro. Para concluir, de forma dura: “Este é um documento que pretende influenciar as decisões políticas, mas precisamos de mais e melhores dados.”

A coordenadora do estudo, Carla Sousa Pontes, da UCP, questionada pelo Expresso sobre as críticas, respondeu que estas “revelaram um profundo desconhecimento da questão da imuno-oncologia”, sublinhando que nem Vaz Carneiro, nem o instituto por ele representado faziam parte do grupo de peritos ouvido para a elaboração do documento. Disse ainda que os peritos sabiam que “a iniciativa iria levantar questões”, mas adiantou não estar “preocupada com críticas de alguém que não leu o documento”.

“Este trabalho pretende abrir o diálogo, porque Portugal ainda é um dos países da OCDE que menos gasta em medicamentos oncológicos e com péssimo desempenho nos indicadores de morte por cancro”, disse ao Expresso Carla Sousa Pontes, para adiantar ainda que o texto será apresentado ao Ministério da Saúde.

A imuno-oncologia utiliza o próprio sistema imunitário dos doentes para tentar combater o cancro e o documento da Católica advoga que “contribui para o aumento dos anos de vida”, acompanhado por uma maior qualidade de vida, devido à menor toxicidade dos medicamentos.