Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

98% das cirurgias à próstata são inúteis

  • 333

Agressividade da doença é avaliada com amostra de tecido tumoral

getty

Conhecimento Intervenção só beneficia 2% dos homens. Nas mulheres com tumores iniciais, 46% não teriam de fazer quimioterapia

Avanços na oncologia permitem agora saber que os cancros mais comuns são excessivamente diagnosticados e tratados. Nos tumores da próstata em fase inicial, só 2% dos homens operados morreriam sem a cirurgia; e no caso da mama, quase metade das mulheres com carcinomas de risco intermédio não precisaria de quimioterapia para sobreviver.

Esta descoberta, após o acompanhamento de milhares de casos, está a mudar o princípio de tratar todos os doentes com cancro. Mas tem um problema: os médicos não conseguem saber quem pode dispensar as terapêuticas. Isto é, ser poupado aos efeitos secundários dos tratamentos, como disfunção erétil ou incontinência para os homens operados ou um segundo cancro entre as mulheres alvo de quimioterapia.

Os equipamentos atuais detetam tumores praticamente à ‘nascença’, mas não mostram quais vão crescer sem agressividade. Isto é, que podem ser combatidos com armas ligeiras — vigilância ativa da próstata ou a remoção da lesão na mama sem depois sujeitar a mulher à toma de tóxicos. Os testes para prever a agressividade do cancro estão a chegar ao mercado, mas para já só no privado. Custam três mil euros.

infografia ana serra

“Estamos a detetar tumores que nunca evoluiriam. Este é um caso em que o acesso a cuidados de saúde pode tornar-se uma dificuldade”, ironiza o professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova, Luís Campos Pinheiro. Nuno Miranda, diretor do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas, dá um exemplo: “É preciso rastrear mais de mil homens ao cancro da próstata para diminuir uma morte e pelo meio são diagnosticados dezenas de casos sem sabermos quais têm mesmo de ser tratados.” Na dúvida, clínicos, e sobretudo doentes, optam pelo seguro, tratando.

“Na próstata e na mama há um problema porque estamos a tratar tumores indolentes”, explica o diretor do Serviço de Genética do IPO-Porto, Manuel Teixeira. “Para salvar uma vida com a prostectomia [cirurgia ao tumor da próstata] é preciso operar 47 homens e na mama em quase metade das mulheres [com tumores iniciais] podemos evitar a quimioterapia a seguir à cirurgia.”

Novos testes no mercado

É assim porque faltam métodos validados para atuar de outra forma. “A previsão sobre a evolução dos tumores é feita com aspetos clínicos [idade do doente, tamanho da lesão, por exemplo, mas sem dados genéticos do cancro] e falha-se mais”, precisa Manuel Teixeira. Com um doutoramento sobre as marcas genéticas do cancro da próstata, o presidente do Colégio de Urologia da Ordem dos Médicos confirma que é um caminho por desbravar. “Há biomarcadores promissores mas nenhum que permita identificar os tumores que vão tornar-se agressivos”, garante Avelino Ferreira.

Os testes genómicos de prognóstico, como se chamam as análises laboratoriais para desvendar o risco do tumor, estão a surgir e há já algumas bem-sucedidas para o cancro da mama. A mais recente — desenvolvida sob a coordenação de Fátima Cardoso, diretora da Unidade de Cancro da Mama do Centro Clínico Champalimaud, Lisboa — analisa 70 genes do tumor, num total de 44 mil, dividindo-os em baixo e alto risco.

Foi esta técnica que revelou que 46% dos tumores clinicamente classificados como agressivos estavam sobreavaliados. A avaliação biológica, aos genes, mostrou que a ‘quimio’ só tinha um benefício de 1,5% para a sobrevivência.

No mercado estão ainda outras duas análises preditivas sobre a agressividade dos tumores mamários. “São aplicáveis em cancros na fase inicial em que é questionável a quimioterapia avaliada apenas em fatores clínicos e alguns dados biológicos. Vêm complementar as ferramentas que já usávamos, podendo poupar a quimioterapia adjuvante (pós-cirurgia) nalgumas mulheres”, adianta o vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia, Paulo Cortes.

As três análises “são realizadas em laboratórios internacionais que analisam as amostras de tumores provenientes de todo o mundo e não são ainda comparticipadas pelo Serviço Nacional de Saúde”, explica o especialista. Ainda assim, “a doente pode fazê-lo no contexto privado ou a cargo de algumas instituições de saúde públicas”, salienta.

Para a próstata há um procedimento semelhante, “que mede a agressividade biológica do tumor e pode ajudar a guiar as decisões iniciais de tratamento, no entanto, a evidência científica ainda não está suficientemente validada para uma utilização clínica imediata”, explica Paulo Cortes. Há ainda experiências na área do cancro colorretal, mas apenas em investigação.

Muito mais avançado está o estudo das mutações genéticas nos cancros e nos doentes para dirigir a quimioterapia. Por outras palavras, encontrar o encaixe ideal entre os genes do tumor e do doente e o perfil da molécula. Os hospitais públicos fazem-no para escolher os medicamentos mais recentes, aos quais lesões da mama, cólon, pulmão, tiroide ou melanoma, por exemplo, cedem com menor resistência.

A quimioterapia é cada vez mais específica, e cara, e a seleção tem de ser criteriosa. A investigação de novos medicamentos não para e até farmacêuticas que não se dedicavam à oncologia estão agora na corrida. Na semana passada, a Abbvie anunciou em Oslo, Noruega, que está a investigar 20 moléculas para diferentes tipos de cancro.

Presente na sessão, Gunnar Saeter, diretor do Instituto para a Investigação do Cancro na capital norueguesa e auditor europeu em oncologia, defendeu que “o desenvolvimento de um tratamento para o cancro continuará a ser feito passo a passo, mas como agora se sabe mais sobre a biologia dos tumores os passos serão maiores”. Ainda assim “quanto mais sabemos, mais sabemos que sabemos pouco”.

Centro de oncologia em secundária

Não há outro caso igual no mundo: um cluster, académico e empresarial, dedicado ao cancro instalado numa escola secundária, pública. Existe na capital norueguesa para “acelerar o desenvolvimento de novas formas de diagnóstico e de tratamento”, explica o diretor do Oslo Cancer Cluster, Ketil Widerberg. Desde 2009, cientistas, empresários, doentes e alunos partilham diariamente uma experiência que os dinamizadores acreditam ser essencial para ‘pensar fora da caixa’. A escola centenária Ullern permite aos melhores alunos, dos 15 aos 19 anos, experimentarem o trabalho laboratorial e hospitalar.

“É uma ideia doida mas muito boa que permite uma verdadeira simbiose entre teoria e prática”, afirma a vice-reitora, Esther Eriksen. E o responsável pelo cluster, Ketil Widerberg, quer mais: “Ser um líder na Europa na área da oncologia.” Na prática, “criar um ecossistema inovador para diagnósticos e tratamentos, ser um parceiro preferencial e atrair jovens para a Ciência desde o liceu”. E é perentório: “O preço do petróleo desceu, há pressão política para encontrar alternativas e apostamos na indústria da Saúde.”

A jornalista viajou para Oslo a convite da Abbvie

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 24 de setembro de 2016