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Luke Harding: “Edward Snowden é um herói”

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Roberto Ricciuti/ Getty

O novo filme de Oliver Stone sobre o ex-espião que revelou ao mundo como a NSA passou a vigiar toda a gente baseia-se num livro de Luke Harding, jornalista do “Guardian”

Não é a primeira vez que um livro de Luke Harding, um dos repórteres mais conhecidos do jornal inglês “Guardian”, serve de enredo para uma película. Tinha acontecido antes com o WikiLeaks. O relato que escreveu a meias com David Leigh, o antigo chefe de investigação do jornal, sobre Julian Assange e o caso ‘Cablegate’ deram origem a “O Quinto Poder”, em 2013. Agora, “Os Ficheiros de Snowden” (editado pela Porto Editora) ajudaram o realizador de “Platoon” e “JFK” a ficcionar para o cinema a história real de Edward Snowden, o homem detrás da fuga de informação que mostrou como a National Security Agency (NSA) tem acesso ao que qualquer pessoa diz ou escreve no computador ou no telemóvel. Uma conversa na semana em que o filme se estreia em Portugal.

Porque decidiu escrever um livro sobre Edward Snowden?
O meu diretor, Alan Rusbridger, queria muito que eu contasse esta história. Eu fiz parte de uma equipa muito pequena no “Guardian” que examinou os ficheiros secretos de Snowden numa espécie de sala clandestina que montámos no jornal. Passámos semanas a tentar decifrar aqueles documentos. Além disso, andei a correr o mundo para falar com pessoas que conheciam Snowden. Fui à casa onde cresceu, fui às escolas onde andou, falei com pessoas em Washington, estive com Glenn Greenwald no Rio [de Janeiro], conheci Laura Poitras em Londres e Berlim. E, mais do que tudo, trabalhei de forma estreita com o meu colega Ewen Macaskill, que foi ter com Snowden a Hong Kong juntamente com Glenn Greenwald e Laura Poitras. Ewen colaborou no livro e ajudou-me a entender que tipo de pessoa é Snowden e porque é que ele fez o que fez.

Acredita que ele é um herói que não merece ser perseguido pelos EUA?
Acho que é um tipo incrivelmente corajoso. É o maior whistleblower do século XXI e é alguém que fez um favor ao mundo. Fez um favor à [Angela] Merkel. E a Portugal. E ao Reino Unido. Graças a Snowden sabemos o que se andou a passar nos últimos 10 ou 15 anos. A maior agência de espionagem do mundo, a NSA, e os seus aliados, incluindo o GCHQ no Reino Unido, começaram a espiar toda a gente, e-mails, mensagens, tudo. Acredito que ele é realmente um herói.

Trabalhou com Oliver Stone para o filme?
Oliver Stone veio ao “Guardian” em 2014. Ele tinha tomado notas em quase todas as páginas do meu livro. Uma boa parte do filme segue o meu livro. Mas o enredo sobre a relação de amor entre Snowden e a sua namorada, Lindsay Mills, acho que foi em grande parte inventado por Stone. Vi o filme pela primeira vez no início do ano e a versão final há uns cinco meses.

E gostou?
É um grande filme. É um thriller político cativante, com uma história muito bem contada. A história é sensacional. Um whistleblower de 29 anos a viver no Havai que foge para Hong Kong com uma mala cheia de segredos. Acho que é uma espécie de “Os Homens do Presidente” [filme de 1976 com Robert Redford e Dustin Hoffman sobre o caso ‘Watergate’] da era digital.

O que o impressionou mais na personalidade de Snowden?
A sua autenticidade e uma visão ideológica absolutamente coerente. Snowden sentiu que o que aconteceu nos Estados Unidos depois do 11 de Setembro foi longe demais, que a privacidade das pessoas estava a desaparecer e que não estaria mais ao alcance dos nossos filhos e dos nossos netos. É preciso ver o famoso vídeo filmado por Laura Poitras em Hong Kong em que ele fala como não quer viver num mundo onde tudo o que diz e tudo o que faz — incluindo todas as expressões de amor — é gravado. Aquele vídeo é um manifesto para os nosso tempos.

Três anos depois da fuga de informação sobre a NSA, o que é que mudou? A nossa privacidade está mais protegida?
Não. O que mudou foi o nosso conhecimento sobre o assunto. Sabemos o que se passa. Que o iPhone que estou a usar neste momento para falarmos é um instrumento de escuta. Estas agências podem transformar um iPhone num microfone à distância.

Não confia no WhatsApp? Eles garantem que as conversas são cifradas desde o ponto de origem até ao ponto de destino.
Não confio em coisa nenhuma, para ser honesto. Eu uso PGP [Pretty Good Privacy, um software para cifrar e-mails]. Os jornalistas mudaram de hábitos e acredito que aconteceu o mesmo com os advogados, médicos, políticos e outros profissionais que precisam de ter conversas privadas. Ainda na semana passada tive um encontro grande com outros colegas e todos nós pusemos os iPhones noutra sala. Já não fazemos reuniões na presença de telemóveis. Há cinco anos não era assim. O que Edward Snowden fez foi dar-nos conhecimento sobre o sistema para que pessoas possam fazer escolhas informadas.

De todos os lugares no mundo, Snowden acabou na Rússia. Acha que Vladimir Putin pode tirar alguma vantagem disso?
Putin pode aproveitar-se da situação, embora Snowden não seja um espião russo. Não há nenhum indício disso. Ele não pretendia ficar na Rússia. Acabou por ficar retido lá em 2013 quando tentava ir para a América Latina. Mas o facto de estar em Moscovo — um local bem escuro do ponto de vista político — afeta a sua credibilidade nos Estados Unidos. A Rússia é um sítio onde jornalistas, ativistas de direitos humanos e whistleblowers são assassinados em circunstâncias obscuras e onde existe um poder agressivo que está a causar problemas no mundo inteiro, quer seja no Médio Oriente ou na Ucrânia. Mas o interessante é que Snowden tem sido muito crítico do governo russo e de Vladimir Putin. Há pessoas no mundo ocidental que acham que Putin é um tipo bom, mas Snowden não é uma delas.

Quais são as hipóteses de ele ir parar a outro país?
Acho que as hipóteses são zero. O meu livro e o filme do Oliver Stone ajudam a levantar essa questão na opinião pública. Nas últimas semanas tem havido muita gente a dizer que ele devia ser perdoado. Mas Obama não vai perdoá-lo. Nem Hillary Clinton vai perdoá-lo. E Trump, se for eleito, o mais provável é que tente matá-lo [risos].