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#ContentID. Como funciona o polícia dos direitos de autor do YouTube

Robert Kyncl, diretor de negócios do YouTube

d.r.

Cada vez que carrega um vídeo no YouTube, há uma verdadeira operação forense em curso. Neste CSI tecnológico, o polícia de serviço usa impressões áudio e visuais para perceber se há alguma violação dos direitos de autor. Quando isso acontece, o proprietário desses direitos pode optar por uma de quatro ações: retirar a parte (áudio ou vídeo) que viola os direitos de autor; rentabilizá-lo através da apresentação de anúncios; monitorizar as estatísticas de visualizações do vídeo; ou, simplesmente, bloqueá-lo.

Este polícia tem um nome: chama-se “content ID” e foi criado pelo YouTube em 2007 para garantir uma alternativa automática ao sistema manual de reclamação de direitos de autor (notice and takedown). Segundo a empresa, 98% por cento da verificação de direitos de autor já é feita através desta ferramenta, que desde o seu lançamento permitiu pagar mais de 2 mil milhões de dólares (mais de 1,8 mil milhões de euros) aos produtores de conteúdos. A indústria discográfica, por exemplo, opta por monetizar 95% das suas reivindicações de content ID - mais de metade das receitas que o YouTube lhe paga vem daí.

O processo de verificação começa quando o vídeo é carregado no site. O sistema divide-o em milhares de frames e compara-os com 50 milhões de referências (equivalentes a 600 anos de material) existentes numa gigantesca biblioteca digital e que foram cedidas por detentores de direitos de autor, como estúdios de cinema e editoras de música. Usando uma tecnologia semelhante, pode fazer a mesma verificação para ficheiros de áudio, um pouco como o Shazam, e agora também de melodias, ajudando os compositores a encontrar covers não autorizadas.

O sistema, porém, não é infalível. Deixar às máquinas que tomem decisões em matéria tão ambígua como os direitos de autor pode gerar mal-entendidos. “Vai sempre haver erros”, admite Harris Cohen, diretor sénior de produto do content ID. Tem também de enfrentar o engenho dos infratores, que encontram sempre novas formas de fintar os direitos de autor - alguns dos truques mais comuns incluem esticar um vídeo, virá-lo horizontalmente ou abrandar o ritmo de uma música. É um jogo do gato e do rato constante, que obriga a treinar o sistema continuamente para identificar mais distorções e transformações.

Os números do content ID

Os números do content ID

FOTO YOUTUBE

Além disso, como o sistema é baseado em parcerias com alguns produtores de conteúdos selecionados (cerca de 8000), deixa de fora muitos artistas independentes. O sucesso da ferramenta não responde também às recorrentes reivindicações da indústria musical, que recebe apenas o dinheiro resultante da exploração de anúncios e não quaisquer royalties pelas suas obras. “Muitos dos argumentos não fazem justiça às parceiras que o YouTube tem construído com os artistas, as editoras e os fãs que os apoiam”, defende Christopher Muller, diretor das Parceiras Musicais Internacionais do YouTube. “Levamos a gestão dos direitos de autor muito a sério e trabalhamos para que quem os detenha faça dinheiro independentemente de quem carrega o vídeo no site. Nenhuma outra plataforma dá tanto dinheiro aos criadores.”

Muller pega num exemplo: a comparação frequente com o serviço de streaming Spotify. “Este argumento confunde dois serviços diferentes: subscrições que custam 10 dólares por mês com vídeos de música suportados por publicidade. É como comparar o que um taxista ganha com as suas tarifas com o que poderia ganhar exibindo publicidade no seu táxi.” O responsável do YouTube propõe outra comparação “mais justa”, entre a rádio e o serviço na Internet. “Como a rádio, a maior parte das receitas do YouTube vem da publicidade. Mas, ao contrário da rádio, pagamos a maior parte dessas receitas à indústria. A rádio, que representa 25% do consumo de música nos EUA e gera 35 mil milhões de dólares em receitas publicitárias, não paga nada aos artistas e às editoras em países como os EUA. Em países como Inglaterra e França, onde paga royalties, nós pagamos pelo menos duas vezes mais.”

Independentemente dos avanços tecnológicos, este é um diferendo que os engenheiros do YouTube não resolverão com facilidade.