Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

#ContentID. Como funciona o polícia dos direitos de autor do YouTube

  • 333

Robert Kyncl, diretor de negócios do YouTube

d.r.

Cada vez que carrega um vídeo no YouTube, há uma verdadeira operação forense em curso. Neste CSI tecnológico, o polícia de serviço usa impressões áudio e visuais para perceber se há alguma violação dos direitos de autor. Quando isso acontece, o proprietário desses direitos pode optar por uma de quatro ações: retirar a parte (áudio ou vídeo) que viola os direitos de autor; rentabilizá-lo através da apresentação de anúncios; monitorizar as estatísticas de visualizações do vídeo; ou, simplesmente, bloqueá-lo.

Este polícia tem um nome: chama-se “content ID” e foi criado pelo YouTube em 2007 para garantir uma alternativa automática ao sistema manual de reclamação de direitos de autor (notice and takedown). Segundo a empresa, 98% por cento da verificação de direitos de autor já é feita através desta ferramenta, que desde o seu lançamento permitiu pagar mais de 2 mil milhões de dólares (mais de 1,8 mil milhões de euros) aos produtores de conteúdos. A indústria discográfica, por exemplo, opta por monetizar 95% das suas reivindicações de content ID - mais de metade das receitas que o YouTube lhe paga vem daí.

O processo de verificação começa quando o vídeo é carregado no site. O sistema divide-o em milhares de frames e compara-os com 50 milhões de referências (equivalentes a 600 anos de material) existentes numa gigantesca biblioteca digital e que foram cedidas por detentores de direitos de autor, como estúdios de cinema e editoras de música. Usando uma tecnologia semelhante, pode fazer a mesma verificação para ficheiros de áudio, um pouco como o Shazam, e agora também de melodias, ajudando os compositores a encontrar covers não autorizadas.

O sistema, porém, não é infalível. Deixar às máquinas que tomem decisões em matéria tão ambígua como os direitos de autor pode gerar mal-entendidos. “Vai sempre haver erros”, admite Harris Cohen, diretor sénior de produto do content ID. Tem também de enfrentar o engenho dos infratores, que encontram sempre novas formas de fintar os direitos de autor - alguns dos truques mais comuns incluem esticar um vídeo, virá-lo horizontalmente ou abrandar o ritmo de uma música. É um jogo do gato e do rato constante, que obriga a treinar o sistema continuamente para identificar mais distorções e transformações.

Os números do content ID

Os números do content ID

FOTO YOUTUBE

Além disso, como o sistema é baseado em parcerias com alguns produtores de conteúdos selecionados (cerca de 8000), deixa de fora muitos artistas independentes. O sucesso da ferramenta não responde também às recorrentes reivindicações da indústria musical, que recebe apenas o dinheiro resultante da exploração de anúncios e não quaisquer royalties pelas suas obras. “Muitos dos argumentos não fazem justiça às parceiras que o YouTube tem construído com os artistas, as editoras e os fãs que os apoiam”, defende Christopher Muller, diretor das Parceiras Musicais Internacionais do YouTube. “Levamos a gestão dos direitos de autor muito a sério e trabalhamos para que quem os detenha faça dinheiro independentemente de quem carrega o vídeo no site. Nenhuma outra plataforma dá tanto dinheiro aos criadores.”

Muller pega num exemplo: a comparação frequente com o serviço de streaming Spotify. “Este argumento confunde dois serviços diferentes: subscrições que custam 10 dólares por mês com vídeos de música suportados por publicidade. É como comparar o que um taxista ganha com as suas tarifas com o que poderia ganhar exibindo publicidade no seu táxi.” O responsável do YouTube propõe outra comparação “mais justa”, entre a rádio e o serviço na Internet. “Como a rádio, a maior parte das receitas do YouTube vem da publicidade. Mas, ao contrário da rádio, pagamos a maior parte dessas receitas à indústria. A rádio, que representa 25% do consumo de música nos EUA e gera 35 mil milhões de dólares em receitas publicitárias, não paga nada aos artistas e às editoras em países como os EUA. Em países como Inglaterra e França, onde paga royalties, nós pagamos pelo menos duas vezes mais.”

Independentemente dos avanços tecnológicos, este é um diferendo que os engenheiros do YouTube não resolverão com facilidade.