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O segredo dinamarquês

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Ano após ano, o povo do Reino da Dinamarca aparece no lugar cimeiro dos ‘rankings’ de felicidade. Uma das palavras mágicas é ‘hygge’

No Relatório Mundial de Felicidade que classifica os países mais felizes do mundo, a Dinamarca é líder desde 2012. Só o ano passado essa hegemonia foi interrompida, pela Suíça. Do país perito em criar crianças bem-sucedidas, confiantes e felizes surge agora o livro “Pais à Maneira Dinamarquesa” (editora Arena). Assinado por Jessica Joelle Alexander e Iben Dissing Sandahl — duas mães, uma americana casada com um dinamarquês e uma dinamarquesa —, a obra pretende dar a conhecer ao mundo uma forma de educar ‘diferente’.

“Quando tive os meus filhos, soube instintivamente que queria educá-los 100% da ‘maneira dinamarquesa’”, partilha Jessica Joelle Alexander, americana de 40 anos, mãe de Sophia, de 7, e Sebastian, de 4. Casada com um dinamarquês há quase duas décadas, quis partilhar esta forma de educar crianças com melhor autoestima. “Não se tem de viver na Dinamarca para ‘educar à maneira dinamarquesa’.” Explica: “Têm uma visão muito democrática, que põe o enfoque na empatia e no respeito pela integridade da criança. Estas são vistas como iguais aos adultos, necessitando apenas ser guiadas. Não são encaradas como miúdos que requerem disciplina e obediência.”

Para Jessica Alexander, os principais erros cometidos na educação das crianças no restante mundo ocidental são “a aposta excessiva no plano académico e nas medições, e não dar aos miúdos suficiente liberdade, confiança e respeito”. Por outro lado, na Dinamarca, “na escola e em casa, ensina-se ativamente a empatia. Bater nas crianças é proibido desde 1997. A brincadeira livre é considerada aprendizagem, de crucial importância. O hygge (conceito que significa “passar tempo confortável com a família”) é um valor cultural que todos tentam implementar em casa, e que aumenta a felicidade. E a honestidade é levada muito a sério: “Os dinamarqueses são honestos com os filhos sobre todos os temas — sejam sexo, morte, tristeza”, continua Jessica.

Este conceito dinamarquês, o hygge (pronunciado hue-guh), começa agora a ser descoberto pelo mundo. “Hygge é um espaço psicológico seguro, no qual se entra com a família e os entes queridos”, explica a americana. “Deixam-se os problemas, o stresse, a negatividade e as queixas à porta, para se estar no momento. Não quer dizer que os problemas desapareçam — mas aquele tempo é para as pessoas se relacionarem, jogarem jogos, apreciarem a comida, partilharem memórias bonitas ou até cantarem...”

Outra questão central é a ausência do castigo físico. Jessica afirma que “houve alturas em que quis bater nos filhos — porque também levei palmadas, e era normal repeti-lo —, mas consegui resistir sempre. Sou uma mãe muito mais feliz por me controlar. Acho que nenhum pai se sente bem quando bate num filho”.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 24 de setembro de 2016