Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

“Há uma enorme tolerância sobre o consumo da canábis”

  • 333

Marcos Borga

Entrevista a João Goulão, diretor do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências

Mais de 95 mil alunos de 35 países responderam ao inquérito sobre os hábitos de consumo de tabaco, álcool e drogas ilícitas. Os jovens portugueses que completaram 16 anos em 2015 — é esse o universo do European School Survey Project on Alcohol and other Drugs (ESPAD) — bebem e fumam menos do que a maioria dos colegas europeus. Mas o consumo da canábis mantém-se. Os resultados foram conhecidos esta semana. João Goulão, responsável pelo Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e Dependências (SICAD), analisa os números.

Quais são as boas notícias trazidas por este relatório?
A constatação de que a evolução é globalmente positiva, tanto no consumo de substâncias lícitas, como o tabaco e o álcool; como de substâncias ilícitas. O uso de outras drogas que não a canábis apresenta valores muito residuais.

Porque é que o decréscimo não se fez sentir na canábis? Em Portugal, 15% já experimentaram aos 15 ou 16 anos.
Tivemos uma situação mais ou menos calamitosa com o consumo da heroína. Grande parte do dispositivo que foi montado foi eficaz no enfrentar desse fenómeno, mas relativizou a importância dos produtos derivados da canábis. Nunca tivemos um discurso que incidisse sobre os efeitos desta droga.

E os efeitos também podem ser severos.
Temos tendência para falar do álcool como sendo a nossa droga cultural. E é, de certa forma. Somos um país de bebedores, em muitos casos excessivos. Mas o facto é que a canábis está presente na nossa sociedade e cultura há muitos anos. O consumo é transgeracional — temos pessoas de 60 anos que começaram a fumar aos 20 — e até dentro das próprias famílias, com pais e filhos a consumir. Há uma enorme tolerância social, que contraria o discurso que se possa ter sobre os malefícios da canábis. E a verdade é que tem havido um aumento brutal da potência do princípio ativo principal, o THC, que faz com que tenha uma ação psicoativa muito mais violenta e que ocasiona com relativa frequência episódios como surtos psicóticos e ataques de pânico. A maioria dos pedidos de ajuda nos serviços clínicos já estão relacionados com o consumo da canábis, mais do que heroína.

A queda nos consumos de tabaco e álcool resulta das políticas ou de uma maior consciencialização dos jovens?
Essa é a pergunta de um milhão de dólares. As causas que conduzem aos consumos são multifatoriais e as que conduzem à sua redução também. Foram tomadas várias medidas no sentido da redução da oferta, como o aumento da idade legal para os 18 anos no caso do álcool e as restrições nos locais onde se pode fumar. Também não sabemos em que medida a crise financeira e a diminuição do poder de compra afetou. Depois há modas e tendências que nos ultrapassam. Neste mundo muito globalizado, há consumos que sobem e descem no contexto europeu e nós andamos ali na média. Também queremos crer que o trabalho preventivo junto dos jovens tem resultado.

Mas quando vemos centenas de menores, concentrados à porta de restaurantes e bares a beber isso não nos diz que a nova lei (de 2015) está a falhar?
Apesar das dificuldades na fiscalização, entendo que esta lei é importante. Ao nível simbólico e do reforço da autoridade parental. É diferente quando uma mãe ou um pai, além de explicarem que os consumos precoces são prejudiciais, acrescentam a ideia de que isso é proibido por lei.

O ESPAD diz-nos que, até aos 13 anos, 41% dos adolescentes portugueses já beberam e 5% apanharam uma bebedeira. São números preocupantes?
Sem dúvida. Mas também me lembro que quando tinha 12 anos, muitos dos meus colegas de turma já fumavam. Há uma tendência de diminuição e um retardamento na idade de início da experimentação que nos dizem que estamos no bom caminho.

E temos o segundo valor mais alto da Europa de consumo de sedativos e tranquilizantes com receita médica (13% dos adolescentes). Esta questão mereceria uma atenção especial?
Acho que sim e já foi criado na coordenação nacional do SICAD um grupo de trabalho para, primeiro, perceber melhor o que se passa e, numa fase seguinte, propor medidas.

Da droga ao jogo

João Goulão, 62 anos, médico e diretor-geral do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências é o rosto da política de descriminalização do consumo da droga em Portugal, que passou a privilegiar a prevenção, tratamento e reinserção dos utilizadores. Hoje, a orientação é pacífica e a intervenção do SICAD, antigo Instituto da Droga e Toxicodependência, foi alargada às chamadas dependências sem substância, como o jogo online e a dinheiro. “O que subjaz a todos estes comportamentos são mecanismos de recompensa, dados por respostas neuroquímicas ou por autoestimulação dos centros de prazer”, justifica.