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Harry Potter está de volta para nos fazer lembrar como foi pertencer àquela geração

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EDIÇÃO PORTUGUESA A versão original foi publicada a 31 de julho e desde então está entre os livros mais vendidos

DANIEL LEAL-OLIVAS/AFP/GETTY IMAGES

Dois meses depois do lançamento mundial, “Harry Potter e a Criança Amaldiçoada” chega em português às livrarias. Segundo a editora já estão encomendados cerca de 25 mil livros. Houve fãs que não quiseram esperar e correram para comprar a versão orginal (que em Portugal ocupa o primeiro lugar no top de vendas). As opiniões dividem-se, mas num ponto estão de acordo: há felicidade e nostalgia ao regressar ao mundo mágico que outrora os fez tão felizes

Escola de Hogwarts de Magia e Feitiçaria
Cara Miss Gonçalves
É nosso prazer informá-la de que tem um lugar à sua espera na Escola de Magia e Feitiçaria de Hogwarts. Junto enviamos uma lista dos livros e equipamentos necessários.
O ano letivo começa a 1 de setembro. Queira enviar-nos a sua coruja até ao dia 31 de julho, sem falta
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Subdiretora”

Durante anos esperei que chegasse uma carta como esta. Nunca chegou (obviamente). E, tal como eu, tantos outros miúdos sonharam um dia vestir a capa negra e pertencer a uma das quatro casas de Hogwarts (Gryffindor, Slytherin, Hufflepuff e Ravenclaw). Mas a culpa de toda esta fantasia pertence inteiramente a uma pessoa: J.K. Rowling. Depois de quase dez anos sem novo livro da saga de Harry Potter, a escritora britânica está de volta. Desta vez, acompanhada pelo argumentista Jack Thorne e o encenador John Tiffany.

“Harry Potter e a Criança Amaldiçoada” chegou às livrarias de todo mundo a dia 31 de julho. Dois meses depois, à meia-noite deste sábado, será lançada a edição portuguesa (Editorial Presença, €17,90). O novo livro não é uma narrativa. Na realidade, trata-se da adaptação do guião da peça que está nos palcos de West End, em Londres.

O manuscrito é baseado numa nova história da autoria de J.K. Rowling, embora tenha sido a Thorne que calhou a responsabilidade de escrever o guião e, por isso mesmo, é ele o autor principal do novo livro. Só nos primeiros três dias, no Reino Unido, venderam-se 680 mil cópias (um recorde) e por cá, apesar de ainda só estar disponível em inglês, ocupa o primeiro lugar do top de vendas dos livros de ficção, segundo os estudos elaborados pela GfK Portugal.

Segundo avançou ao Expresso a Editorial Presença, reponsável pela publicação em português da saga de Potter, já estão encomendados cerca de 25 mil livros. Estima-se que logo no primeiro dia sejam vendidos à volta de 20 mil exemplares.

FILMES Em 1999, Rowling assinou um contrato cinematográfico para os primeiros quatro livros da saga

FILMES Em 1999, Rowling assinou um contrato cinematográfico para os primeiros quatro livros da saga

d.r.

Marta Amorim, Rita Constantino e Daniel Leite já leram. Nenhum dos três quis esperar. As opiniões dividem-se, embora concordem que não é comparável a qualquer um dos sete livros da saga e que há alguma nostalgia em regressar aquele mundo que outrora os fez tão felizes.

“Não me fazia diferença se o livro não existisse, mas senti-me uma criança outra vez. Li-o em dois dias e deu-me muito gozo. Houve surpresas no livro, sim, mas nada marcante. Achei até bastante previsível”, conta Marta Amorim, de 22 anos.

Para a jornalista, a leitura desta vez foi especial, não pelo conteúdo do livro, mas por o ter lido em voz alta cada palavra à prima mais nova de 12 anos. “Vi nos olhos dela aquilo que sentia há uns anos, quando lia os livros de madrugada às escondidas da minha mãe porque no dia seguinte tinha escola”, relembra.

Rita, 22 anos, contou os minutos até ter nas mãos “a oitava história”. O entusiasmo era enorme, embora tenha mantido as expectativas baixas. “Tentei não ser demasiado crítica com o livro e lê-lo pelo que é: uma peça, que não pode ser lida como um dos outros. Claro que houve momentos e coisas de que gostei, mas cheguei ao fim triste”, conta a jovem estudante de medicina. “A reação que se tem ao livro pode ser excelente e trazer imensa felicidade ou ser exatamente o oposto. Eu fiquei no grupo dos desiludidos”, acrescenta.

Opinião muito diferente tem Daniel, que gostou do que leu e defende que o livro não tinha como objetivo acrescentar algo ao que já foi escrito, mas sim “abordar um outro lado da história”. “É um retorno ao passado. É a oportunidade de ter de novo aquele friozinho na barriga. É um sentimento que há muito não se proporcionava e que me deixa bastante feliz! Não acrescentou muito à história da saga, mas também não era esse o objetivo do livro”, justifica.

FÃS. Os lançamentos dos livros são a oportunidade para os potterheads se vestirem como as suas personagens preferidas

FÃS. Os lançamentos dos livros são a oportunidade para os potterheads se vestirem como as suas personagens preferidas

NEIL HALL/ REUTERS

A Geração Potterhead

Em primeiro lugar é preciso esclarecer: o que é um Potterhead? Segundo o “Urban Dicionary”, é “uma pessoa fantasticamente fixe que é obcecada por Harry Potter”. Simplificando, é um verdadeiro fã da saga.

“O Harry Potter acabou por se tornar parte de nós enquanto crescíamos. Ele crescia connosco, nós fazíamos parte da história. Li os livros muitas vezes, foram companhia de muitas horas. Há uma citação ou situação dos livros para quase tudo na vida”, explica Rita, que começou por ouvir a mãe a contar as histórias quando tinha ainda 4 ou 5 anos.

Há várias explicações para o sucesso. O marketing e publicidade por trás da obra ajudam mas não são os únicos responsáveis. Há uma geração que cresceu com Harry, Ron e Hermione. Há uma geração que cresceu a contar os dias para um novo livro ou filme. E agora, há uma geração que já é crescida e quer saber mais daqueles quase companheiros de infância.

“É a geração que se entusiasma ao ouvir alguém a fazer uma referência a Harry Potter e que ainda fala durante horas a fio sobre as aventuras do Rapaz Que Sobreviveu”, refere Daniel. “Para um fã, qualquer informação além da que está dos livros é uma fonte de felicidade. Gostamos de saber mais acerca daquele mundo a que também pertencemos. Daí que ao fim de dez anos fiquemos tão entusiasmados com uma nova história”, acrescenta Rita.

“Recomendo o livro nem que seja para sonhar outra vez. É uma história que entretém, vejo-lhe a publicidade toda, mas não é nada de mais”, justifica Marta, que parece ter passado o gosto pelas aventuras de Potter aos mais novos. “Já é mais que uma geração Potterhead. O meu irmão e os meus primos têm entre 17 e 12 anos e viram todos os filmes comigo”, diz.

“Harry Potter e a Pedra Filosofal”, o primeiro livro, foi lançado em 1997. Apenas 500 cópias circularam na primeira edição, mas logo nesse ano o jovem feiticeiro parecia estar destinado ao sucesso: críticas positivas e a vitória no National Book Award. Dois anos depois, Rowling vendia os direitos cinematográficos dos primeiros quatro livros. Então aí, foi a loucura que já sabemos.

Em dia de lançamento de novos livros, as livrarias começaram a abrir portas à meia-noite. Os fãs esperavam horas na fila só para ter o manuscrito nas mãos. Confesso que eu fiz isso pelo menos três vezes. E a Marta, a Rita também. Já o Daniel, nunca teve essa oportunidade: “preferia esperar que a loucura passasse”.

ESCRITORA. Na nova aventura, JK Rowling junta-se ao argumentista Jack Thorne e ao encenador John Tiffany

ESCRITORA. Na nova aventura, JK Rowling junta-se ao argumentista Jack Thorne e ao encenador John Tiffany

CARLO ALLEGRI/ REUTERS

Se foi Rowling é culpada por criar um mundo mágico na cabeça de milhares de pessoas, então também é dela a culpa de que uns quantos miúdos tenham aprendido a gostar de ler. Aliás, atualmente, quatro volumes da saga fazem parte do Plano Nacional de Leitura: “A Pedra Filosofal”, “O Cálice de Fogo”, “A Ordem da Fénix” e “O Príncipe Misterioso”.

“A saga Harry Potter acompanhou-me desde cedo e ensinou-me a gostar de ler e a ler com gosto. Hoje em dia não me imagino capaz de passar sem ler, não imagino mesmo!”, confessa Daniel.

Só faltava chegar ao teatro

A “oitava história”, assim descreveu J.K. Rowling este novo livro, é um guião provisório da peça de teatro “Harry Potter e a Criança Amaldiçoada”. Só para o ano será publicado o texto definitivo.

A história começa exatamente no momento em que vimos Harry pela última vez: “na Plataforma 9 ¾, a despedir-se dos filhos”, 19 anos após a Batalha de Hogwarts, onde venceu Voldemort.

“Sempre foi difícil ser Harry Potter e agora não será mais fácil quando se é um trabalhador atarefado do Ministério da Magia, marido e pai de três crianças. Enquanto Harry lida com o passado, o filho mais novo, Albus Severus, tem nos seus ombros o peso do legado da família. Enquanto o passado e presente se fundem ameaçadoramente, pai e filho descobrem uma verdade desconfortável: por vezes, a escuridão vem de locais inesperados”, lê-se na descrição.

Marta Amorim garante que já está a planear a viagem até Londres para assistir ao vivo no Palace Theatre ao que leu e imaginou. Rita Constantino, embora não tenha gostado do livro, admite que também quer ir: “uma parte de mim ainda acredita que a peça possa fazer-me alterar um bocado a maneira como vivi a história ao lê-la”.

“Passei o livro todo a perguntar-me como é que poderiam reproduzir tal cena ao vivo e a cores num teatro. Essa dúvida deixa-nos com muito interesse em assistir à peça. Um dia, quem sabe!”, diz Daniel Leite.

Conta quem já viu que são constantes os pedidos de segredo. Pede-se aos espetadores (e também aos leitores) que não revelem nada da história para não estragar a surpresa de quem ainda vai ver (ou ler). Aqui, também respeitamos o pedido e não vamos contar mais nada.