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Governo espanhol prepara-se para prolongar a vida da Central Nuclear de Almaraz

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tiago miranda

O Conselho de Segurança Nuclear espanhol (CSN) aprovou o pedido de construção de um novo depósito de resíduos radioativos em Almaraz. Segundo o Movimento Ibérico Antinuclear esta autorização “dá luz verde ao prolongamento da vida” da central nuclear mais próxima de Portugal. BE perguntou esta sexta-feira ao Governo o que se passa

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Os atuais depósitos provisórios de resíduos dos dois reatores da Central Nuclear de Almaraz têm capacidade de armazenamento até 2022, e a mais velha central nuclear espanhola completa 40 anos por essa altura. Era previsível que encerrasse então. Porém, o Conselho de Segurança Nuclear espanhol (CSN) acaba de dar um parecer favorável condicionado ao pedido de construção de um Armazém Temporário Individualizado (ATI) para guardar os resíduos já produzidos e os por mais tempo, em Almaraz.

O Movimento Ibérico Antinuclear (MIA) alerta para o facto de “esta decisão dar luz verde ao prolongamento da vida da Central de Almaraz”. António Eloy, um dos dirigentes do MIA, sublinha que “tal autorização é insustentável, uma vez que visa permitir que a mais velha central nuclear espanhola, que já conta 35 anos, não chegue apenas aos 40 anos, mas prolongue a sua atividade até aos 60 anos”.

O MIA está em uníssono com os Ecologistas en Acción, que emitiram um comunicado considerando “inaceitável a construção deste ATI antes da paralisação da central”. Para os dois movimentos, só faria sentido construí-lo para acolher os resíduos do desmantelamento dos dois reatores. Os Ecologistas lembram que a autorização de exploração da central expira em junho de 2020 e que “poderia funcionar com as atuais piscinas de armazenamento até 2022 sem necessidade de um novo ATI”. Por isso, entendem que esta autorização visa “facilitar o prolongamento da licença da Central de Almaraz”.

O mesmo receio tem o grupo parlamentar do Bloco de Esquerda que perguntou formalmente ao Governo, esta sexta-feira, que conhecimento tem desta situação. O BE considera que os indícios de prolongamento da vida da Central Nuclear de Almaraz “deverá merecer o protesto veemente do Governo português e a exigência de travagem deste processo, tendo em vista o cumprimento da resolução aprovada por unanimidade na Assembleia da República pelo encerramento da central nuclear”.

Questionado pelo Expresso, o Ministério do Ambiente diz que "a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) não tem, até ao momento, qualquer informação de que o operador da Central Nuclear de Almaraz tenha solicitado ao Governo Espanhol a extensão do período de licença de funcionamento desta central". A delegação portuguesa que acompanha estas questões já expressou junto dos responsáveis espanhóis "a importância de que Portugal seja consultado durante um eventual processo de renovação de licença de operação da Central Nuclear Almaraz", acrescenta fonte oficial do ministério por email.

O pedido de construção do ATI em betão armado com proteção antissísmica, numa área de cerca de 2600 metros quadrados, com capacidade para 20 contentores, é justificado pelos detentores da central pela necessidade de haver um depósito local antes de transferirem os resíduos nucleares para o Armazém Temporário Central que vai ser construído em Villar de Cañas (Cuenca).

O CSN deu um parecer favorável ao ATI mediante o cumprimento de seis condicionantes, entre as quais o estabelecimento de prazos e limites para as fontes radiológicas, medidas de proteção contra incêndios e o cumprimento das normas da Comissão Regulatória Nuclear. Mas falta ainda a autorização do Ministério do Ambiente espanhol.

Paco Castejon, dos Ecologistas En Accion, lembra que “o verdadeiro negócio para o sector elétrico espanhol é manter as centrais nucleares existentes em funcionamento o mais tempo possível, uma vez que as centrais já estão amortizadas e a produção de energia rende aos seus proprietários benefícios de um milhão de euros por dia”.