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Alunos continuam a gostar da escola. Mas menos

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Marcos Borga

Stresse sentido na realização dos trabalhos pode ser uma das explicações para gostar mais ou menos da escola. Percentagem de alunos que gostam muito da escola caiu desde a década de 90, especialmente ao nível das raparigas com 15 anos

Embora a maioria dos jovens portugueses do 6.º, 8.º e 10.º anos continue a gostar da escola, a percentagem daqueles que garantem gostar muito tem vindo a diminuir. Esta é uma das conclusões divulgadas ao longo das 400 páginas do relatório Estado da Educação 2015, elaborado todos os anos pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) através da compilação de inúmeras estatísticas do sector.

Entender a evolução do sistema educativo passa, segundo o presidente do CNE e antigo ministro da Educação, David Justino, por perceber o perfil e atitude dos alunos perante a escola. “Vendo bem, são os alunos o primeiro pilar do funcionamento das escolas, o objeto único das políticas educativas, a razão principal da educação, a esperança derradeira de um futuro melhor.”

Os números são claros: em função do género e da idade, a percentagem daqueles que diziam gostar muito da escola em 1997/98 variava entre 65% e 23% e em 2013/14 desceu para entre 32% e 11%. Os dados, recolhidos a partir da rede de investigação Health Behaviour in School-aged Children (HBSC) a cada quatro anos, mostram que na década de 90 os alunos portugueses entre os na linha da frente dos países da OCDE que gostavam muito da escola. Cerca de 15 anos depois, Portugal caiu para o grupo dos últimos, lê-se no relatório.

A diminuição deve-se, sobretudo, às raparigas. São estas que gostam mais da escola (18,8% dizem gostar muito) em relação aos rapazes (16,35%) mas, contrariamente aos últimos, a percentagem de raparigas tem vindo a diminuir. Portugal foi, aliás, o país que teve um maior decréscimo, nos últimos 15 anos, da percentagem de raparigas com 15 anos que responderam gostar muito da escola.

O stresse parece ser uma das explicações. Os alunos portugueses que referiram gostar muito da escola são aqueles que sentem menos pressão com os trabalhos da escola (47,1%). Pelo contrário, aqueles que dizem não gostar nada são os que têm percentagens mais elevadas quanto ao facto de não sentirem muita pressão (25%).

Na verdade, o número de alunos que diz sentir muita pressão com os trabalhos da escola aumentou face a 1997/98: 30% dos jovens em 2014 mostrou sentir alguma ou muita pressão com os trabalhos da escola, com maior incidência nos que frequentam o 10º ano - especialmente as raparigas (67%), que representam o quinto valor mais elevado dos países da OCDE.

Mais sucesso ou insucesso escolar?

Embora o programa Mais Sucesso Escolar tenha terminado em 2014/2015, as suas metodologias – Fénix ou TurmaMais – foram implementadas num conjunto de escolas identificadas pela Direção-Geral da Educação como candidatas, por um máximo de dois anos. A esta proposta aderiram 36 escolas, 12 das quais à TurmaMais (espécie de turma giratória, sem alunos fixos, que agrega temporariamente alunos com dificuldades idênticas no mesmo ano escolar) e 24 ao Projeto Fénix (onde são agregados temporariamente alunos que precisam de recuperar aprendizagens).

Mas os resultados do Estado da Educação 2015 mostram que a maioria das escolas não atingiu o sucesso esperado em 2014/15. Na zona norte, onde se situa o maior número de escolas que integram estas metodologias (15), dez não alcançaram sucesso nos anos intervencionados, quatro tiveram sucesso em apenas um dos anos e apenas uma nos dois. Já na zona de Lisboa, onde 14 escolas aderiram a estas metodologias, 11 não obtiveram sucesso e apenas três o conseguiram num dos anos intervencionados.

As disciplinas intervencionadas com o projeto Fénix ou TurmaMais na maioria das escolas foram o Português e a Matemática, ainda que algumas tenham recorrido a estes para as disciplinas de Inglês, Ciências Naturais e Estudo do Meio.

Outras conclusões: estimulantes, nem-nem e evolução da rede pública

  • As crianças portuguesas até aos 14 anos estão a consumir mais medicamentos estimulantes para perturbação de hiperatividade com défice de atenção desde 2003, especialmente o metilfenidato: mais de seis milhões doses diárias são consumidas, especialmente por crianças entre os 10 e 14 anos (quatro milhões de doses diárias);
  • Em dez anos, a taxa dos jovens que nem estudam nem trabalham (geração nem-nem) aumentou 3,3 pontos percentuais, acima de média da União Europeia (0,7), apesar do seu nível de formação dos portugueses não ser muito distante da média europeia. Em Portugal, são mais os jovens nem-nem que seguiram formação profissional (4,6%) do que os que ficaram no ensino regular (2,8%), o que leva à necessidade de refletir sobre as “modalidades de formação profissional oferecidas e sua adequação ao mercado de trabalho”, lê-se no estudo;
  • Na última década, o número de estabelecimentos de ensino público diminuiu em 48,9%. Já no ensino privado houve um ligeiro aumento entre 2005/06 e 2009/10, uma tendência que se inverteu nos últimos anos. Também o número de alunos a frequentar os ensinos público e privado tem vindo a diminuir desde 2008/09.

O relatório Estado da Educação 2015 será apresentado esta segunda-feira na sede do CNE, em Lisboa, pelas 10h, na sessão solene de abertura do ano letivo. O discurso de abertura ficou a cargo do presidente do CNE David Justino, numa sessão que contará com a presença do Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa.