Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

O marquês fez, Siza fez, o Funchal quer fazer

  • 333

Paulo David, com Paulo Cafôfo e Marcelo Rebelo de Sousa na zona de São Pedro, onde as chamas atingiram o centro do Funchal

Gragório cunha

Incêndio de 9 de agosto junta equipa pluridisciplinar para “repensar a cidade toda”. Arquitetos Paulo David e Gonçalo Byrne envolvidos

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Se o susto foi grande, a resposta é ambiciosa: poucos dias depois do incêndio que desceu das serras do Funchal até ao coração da cidade, a 8 e 9 de agosto, o presidente da autarquia, Paulo Cafôfo, criou o Gabinete da Cidade, chefiado pelo premiado arquiteto madeirense Paulo David. O caderno de encargos, que o autarca resume em três palavras — “repensar a cidade toda” —, tem exemplos no passado: Siza Vieira fez o mesmo quando, depois do incêndio do Chiado, reinventou aquela zona, que foi o embrião do renascimento de Lisboa; mais atrás, o marquês de Pombal viu no terramoto de 1755 a possibilidade de pensar tudo de novo.

Foram esses os dois exemplos que Paulo David citou, com grande naturalidade, enquanto passeava com o Presidente da República pelas ruas afetadas pelos incêndios, em São Pedro, no centro do Funchal, durante a visita de Marcelo Rebelo de Sousa à Madeira, no final de agosto. “Isto já está tudo ensaiado. O Siza Vieira fez o mesmo no Gabinete do Chiado, o marquês de Pombal fez depois do terramoto”, dizia o arquiteto, provocando uma interjeição de espanto a Marcelo. A comparação parecia desproporcionada — mas vale sobretudo pelo princípio de olhar para a catástrofe como oportunidade. “O que pedi ao Gabinete da Cidade foi que repensasse a cidade de um ponto de vista global, estrutural, no que diz respeito à reabilitação urbana, a partir dos fogos [de 9 de agosto]”, diz Paulo Cafôfo ao Expresso. “No Chiado, em Lisboa, repensou-se aquela zona a partir de uma catástrofe. A diferença é que aqui estamos a repensar não só a zona afetada, mas toda a cidade, mesmo nos espaços não afetados.”

Os fogos de agosto valem “sobretudo como um pretexto” para um trabalho profundo e de vistas largas, diz Paulo David em conversa com o Expresso. O impacto do fogo no centro da cidade “não tem nada que ver com a dimensão do Chiado em termos de edificado”, reconhece, “mas em termos de complexidade territorial é muito superior à do Chiado”, adverte.

Por essa razão, Paulo David — reconhecido em 2012 com a Medalha Alvar Aalto, um dos mais prestigiados galardões da arquitetura mundial — está a reunir uma equipa multidisciplinar onde junta outros nomes de referência da arquitetura portuguesa, com destaque para a consultoria do multipremiado Gonçalo Byrne. João Favila Menezes, o responsável pelo projeto recém-lançado do funicular que vai ligar a Mouraria à Graça, em Lisboa, será outro dos coordenadores do Gabinete da Cidade do Funchal, que conta ainda com a colaboração de João Gomes da Silva, o arquiteto paisagista que redesenhou a Ribeira das Naus, em Lisboa, e colaborou com Paulo David no aplaudido projeto da Piscina das Salinas, em Câmara de Lobos. E como nem só com arquitetos se pensa uma cidade, o grupo está a “concertar outras colaborações, de design, filosofia, história, geografia, geologia, engenharia e arqueologia”.

O perigo já não vem do mar

O autarca do Funchal já disse o que espera ver no masterplan, que conta receber até ao final do ano: ideias para reconstrução e reabilitação, bem como para novas acessibilidades e espaços públicos. Daí a importância da multidisciplinaridade para “identificar o património, os problemas, oportunidades e soluções; sistematizar uma caracterização da identidade da nossa arquitetura, para que a reabilitação seja feita sem a descaracterizar”, mas também reconhecer erros: “Haverá regras para reconstruir, mas também locais onde não será autorizada a reconstrução”, avisa Cafôfo. Nalguns casos, diz o autarca, o mais importante será não reconstruir, mesmo que isso coloque questões de direito de propriedade. “Temos já, das habitações afetadas pelos fogos, 52 que não poderão ser reconstruídas porque estão em zonas de risco elevado — terão de ser expropriadas e temos de dar condições para que, noutras áreas, as pessoas possam reconstruir a sua vida.” Para isso, Cafôfo frisa a “necessidade de agilizar [legislação], por exemplo, para encurtar os prazos de expropriação”.

Com o tempo a contar para ter um masterplan no final do ano, Paulo David é mais cauteloso do que os responsáveis políticos. Fala na importância de começar por fazer “um Atlas do desalento” — identificar os erros do passado que permitiram ou potenciaram “uma acumulação de catástrofes”, de que as enxurradas de 2010 e os incêndios de 2016 (“o 20 do F e o 9 do 8”) são só os exemplos mais recentes.

Nos anos 70, um trabalho semelhante permitiu repensar o Funchal perante os desafios do turismo, que então começavam a pesar sobre a cidade — e daí resultou o primeiro plano diretor de uma cidade portuguesa. O responsável pelo Gabinete da Cidade quer recuperar essa “compreensão do território” para responder aos desafios, que são sempre novos. Um exemplo? “No século XVII e século XVIII, a Madeira era atacada por corsários, os perigos vinham do mar. Hoje os perigos vêm de cima para baixo, da serra para a cidade, sejam as chuvas ou os fogos. Nessa época cintou-se a cidade com uma muralha que a protegia do mar, agora temos de cintar ao contrário — não estou a falar de construção, mas de cintas metafóricas, ecológicas, que possam estancar, se é que é possível, estes novos perigos.”

Artigo originalmente publicado na edição de 10 de setembro do Expresso.