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Drogas, álcool e tabaco: “Não sendo bons, os dados são melhores em Portugal que nos outros países”

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Na maioria dos países europeus há menos jovens a beber e a fumar. Portugal está abaixo ou na média europeia

Nuno fox

Inquérito a 96 mil jovens europeus entre os 15 e os 16 anos mostra que os consumos em Portugal são moderados quando comparados com a média. O melhor: há menos jovens a fumar e a beber. O pior: só há um país com mais consumo de sedativos e tranquilizantes que Portugal

Tem sido uma das batalhas dos últimos anos em termos de política de saúde, com leis mais restritivas no acesso e consumo de álcool e tabaco por parte dos mais jovens. Sem se saber se há uma relação direta – até porque houve mudanças recentes que ainda não tiveram tempo de provocar qualquer impacto –, os números indicam efetivamente uma descida nos valores. Ainda assim, se o objetivo for chegar a níveis meramente residuais, então o caminho a percorrer é longo, mostra o último grande inquérito aos hábitos de consumo de substâncias psicoativas entre os jovens de 15 e 16 anos.

O último European School Survey Project on Alcohool and Other Drugs (ESPAD), divulgado esta terça-feira, mostra, por exemplo, que 42% dos adolescentes portugueses (foi inquirida uma amostra de 3500 jovens com 16 anos completados em 2015) consumiu bebidas alcoólicas nos 30 dias anteriores ao inquérito. No estudo anterior, de 2011, o número ascendia a 52%. Ou ainda que beberam, em média, em cinco ocasiões no último mês, o que poderá equivaler às saídas à noite no fim de semana.

No que respeita ao tabaco, diminuíram também todo o tipo de consumos, desde a mera experimentação ao consumo regular. Mas mais uma vez, os números não deixam ser ter relevância: 9% fumam todos os dias, 19% fizeram-no nos 30 dias anteriores ao inquérito. E as raparigas fumam tanto ou mais do que os rapazes.

Quanto às drogas ilícitas, a tendência é de estabilização, com 16% dos jovens portugueses a já terem experimentado alguma substância. A canábis é de longe a mais popular.

São muitos os dados e comprovam uma vez mais que há um recurso significativo a tranquilizantes e sedativos com receita aviada pelo médico, mesmo aos 16 anos. Aqui só a Letónia apresenta valores mais altos do que Portugal (16% contra 13%).

De resto, o relatório traz boas notícias, com a diminuição generalizada do consumo de álcool e tabaco, salienta Fernanda Feijão, coordenadora nacional do ESPAD e desde sempre ligada a estes inquéritos desde o seu início (o primeiro realizou-se em 1995). “Claro que há dados preocupantes porque estamos a falar de miúdos de 15 e 16 anos. No caso do álcool, a nova lei aponta para consumo zero até aos 18 anos. Mas não sendo bons, os dados são melhores do que nos outros países. E mostram uma diminuição. Também é preciso considerar que se podem tratar de meras experimentações e não evoluírem para um hábito repetitivo”, comenta Fernanda Feijão.

Fernanda Feijão, coordenadora nacional do ESPAD

Fernanda Feijão, coordenadora nacional do ESPAD

Marcos Borga

Quanto às causas dessa descida, que no caso do álcool e do tabaco é comum à maioria dos 35 países participante no estudo, a coordenadora do estudo diz que é impossível apontar uma causa direta. “Não sabemos o que foi mais eficaz: se o aumento dos preços, as restrições nos locais onde é possível fumar, as campanhas antitabágicas, a própria diminuição do poder de compra associada à crise financeira... Ou se tem que ver com uma alteração nos estilos de vida entre os jovens, mais saudáveis, mais ‘verdes’. A própria socialização entre eles mudou e os contactos estabelecem-se mais em casa, através das redes sociais. Todos estes fatores têm seguramente um impacto. Mas saber o peso específico de cada um é muito difícil”, ressalva.

O que Fernanda Feijão acredita é que os pais podem e devem exercer um certo controlo, sem excessos, mas também sem total permissividade: “Diz-se que os pais estão cheios de stress e falta de tempo. Mas os pais têm de ter tempo para conversar com os filhos e tentar perceber o que é que os miúdos andam a fazer. É necessário dar autonomia, mas também criar limites, para que eles possam orientar as suas escolhas e perceber que as suas ações têm consequências”.

Mas, acima de tudo, não está “pessimista”. Até porque, diz, “os jovens portugueses não são estúpidos”. “Há uns anos tivemos um aumento dos consumos de droga, quando entrou em força em Portugal. As pessoas não sabiam as consequências, mas viram depois e ficaram alertas.”

Uma coisa é certa, acrescenta: “Todas as gerações fazem algo diferente em relação à anterior. Dantes os adolescentes fumavam muito, depois veio a droga, hoje é o álcool que está mais em voga. Provavelmente, num futuro próximo, vamos ter problemas como os jogos na Internet e o ‘gambling’ e as realidades virtuais. Desde que não vivam essas experiências de forma muito intensiva e entram e saiam delas com facilidade e não fiquem agarrados a padrões repetitivos, não será tão problemático”.