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Paula Mendes: “Um dia teremos opções eficazes para tratar o cancro”

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A investigadora portuguesa está na linha da frente Da luta contra o cancro da próstata. E apesar de ser uma doença complexa não perde o otimismo

Paulo Anunciação

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Correspondente em Londres

Tiago Miranda

Tiago Miranda

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Fotojornalista

tiago miranda

É licenciada e doutorada em Engenharia Química pela Universidade do Porto e professora da Universidade de Birmingham, na Inglaterra, desde 2013. Ela é igualmente Visiting Professor da Universidade de Washington, em Seattle. Mendes, de 42 anos, lidera uma equipa de investigação (o “Mendes Group”) que nos últimos meses alcançou resultados encorajadores na área da deteção do cancro da próstata, o tipo de cancro mais frequente nos homens. “Uma análise ao sangue, revolucionária, que poderá identificar 90% dos casos de cancro”, escreveu “The Times”.

Trabalhou ou estudou em Portugal, França, Estados Unidos e Inglaterra. Em que país se sentiu mais feliz e realizada?
Em todos eles. Gosto de perseguir novas oportunidades onde sei que vou encontrar desafios e experiências únicas. Mas sinto sempre vontade de visitar Portugal e de estar com a família.

Não há diferenças entre a investigação que realiza nos Estados Unidos e a que faz na Europa?
Não. Existem pessoas espetaculares em todo o lado, mentes brilhantes nos dois lados do Atlântico. A única diferença é, talvez, o dinheiro que existe para investir.

Na América há mais?
Acho que na América ainda há um pouco mais de dinheiro para apoiar aquilo que eles chamam de “blue skies research” — a investigação científica sem uma aplicação óbvia no mundo real, sem um objetivo claro, que poderá ter (ou não ter) impacto daqui a 20 ou 30 anos.

Isso não existe na Europa?
No Reino Unido e noutros países da Europa as agências financeiras querem ter um retorno imediato. Fazem a pergunta: “Qual é o resultado que este trabalho vai ter nos próximos três ou cinco anos?”

Seria possível realizar em Portugal o trabalho de investigação que desenvolve atualmente em Birmingham?
Sim. Portugal tem grande capacidade de desenvolver investigação de ponta a nível mundial. No entanto, o financiamento para investigação [em Portugal] é limitado e talvez isso tenha sido um fator impeditivo para uma progressão mais rápida da minha carreira. A minha investigação é interdisciplinar e isso significa que, no Reino Unido, tenho várias opções de financiamento.

A investigação custa muito dinheiro, não é?
O nosso projeto tem um orçamento de 2,5 milhões de libras [quase três milhões de euros] e é financiado por instituições britânicas e europeias.

O Reino Unido vai abandonar a União Europeia.
Infelizmente. Toda a comunidade científica britânica apoiou a manutenção [na União].

Teve algum momento na sua infância ou adolescência, alguma espécie de clique que definiu o rumo da sua carreira?
Não. Lembro-me de que tirei o curso de Engenharia Química porque gostava de trabalhar na indústria. Mas durante um estágio, numa empresa têxtil, logo descobri que aquilo não era o que queria. Gosto muito da vida académica.

Porquê?
Todos os dias são diferentes, sempre a aprender através da investigação que fazemos. Adoro o facto de poder interagir com os meus alunos de doutoramento e com os pós-doutorandos. O facto de desenvolvermos ideias juntos e de fazermos com que elas se tornem realidade dá-me uma satisfação única.

Tem alunos portugueses?
Tenho finalmente uma aluna de doutoramento que é portuguesa. Mas a maior parte é do Reino Unido.

Que conselho daria a um estudante universitário que esteja nos últimos anos da licenciatura em Portugal?
Aconselharia a não se restringir à área onde vive ou a Portugal. Devemos estar abertos às oportunidades que o mundo nos oferece. Tive um orientador que me disse uma vez: “Eu não sou britânico, eu sou do mundo”. É claro que deixar a área onde se vive, largar a nossa zona de conforto, não é para todos. Acima de tudo temos de ser felizes onde estamos e naturalmente com o que fazemos.

Acha que há discriminação sexista na sua área de trabalho?
Acho que não. Mas precisamos de mais mulheres no mundo académico. As conferências, na minha área, ainda são dominadas por uma grande percentagem — talvez 70 a 80 por cento — de homens. Eu fui a primeira mulher professora na escola de Engenharia Química da universidade onde leciono e trabalho.

Quer tentar explicar o objeto da sua investigação? O método principal de rastreio do cancro da próstata é a medição do nível da proteína PSA no sangue. E este teste falha muitas vezes, não é?
Se um homem tiver níveis muito altos dessa proteína, isso significa que pode ter cancro da próstata. Mas o nível alto de PSA pode ser causado por outras coisas e nada ter que ver com o cancro. É por isso que existem quase 50% de falsos positivos, com consequências nefastas óbvias. Agora sabe-se que entre as dezenas de açúcares ligados a essa proteína, apenas quatro a seis [açúcares] estão relacionados diretamente com o cancro da próstata. Nos últimos anos surgiu muita literatura sobre esta cadeia de açúcares que infelizmente é muito difícil de detetar.

Graças à nova tecnologia desenvolvida por si, será possível detetar mais facilmente essas cadeias de açúcares que estão ligadas ao cancro?
Foi isso que conseguimos fazer. Trabalho em equipa e neste momento temos sete pessoas a trabalhar no projeto. Temos uma patente relacionada com esta tecnologia de deteção de diferentes açúcares.

Essa tecnologia, numa descrição simplista, resume-se a um pedaço de vidro, com uma cobertura de ouro, que receberá a amostra de sangue. A eventual presença de açúcares ligados ao cancro será registada nessa superfície que desenvolveu.
Exato. Quando houver uma resposta muito alta, com o registo dos tais açúcares, significará que há uma forte probabilidade de presença do cancro da próstata.

A utilização de ouro não tornará o teste muito caro?
Não. Estamos a falar de um filme minúsculo de 50 nanómetros. Se tivermos um teste que seja logo muito exato desde o início — que nos diga se alguém tem ou não tem cancro —, isso evitará biopsias desnecessárias e outro tipo de custos.

O teste vai estar disponível já no próximo ano?
Ainda temos trabalho pela frente, mas estamos confiantes de que nos próximos três a cinco anos o teste estará disponível no mercado.

Mas as pessoas estão realmente entusiasmadas.
Quando os jornais publicaram as primeiras notícias, passei a receber imensos e-mails de pessoas que padecem — ou podem padecer — de cancro da próstata. Querem saber quando é que poderão usar o teste. Outros oferecem-se como voluntários para validar o teste. Eu passo estes e-mails para os meus alunos e pós-doutorandos para que eles percebam a necessidade real que existe [para este teste].

Imagino que o seu tempo livre é muito reduzido. O que faz nessas alturas?
Tenho duas meninas, de dois e seis anos, e os tempos livres são passados com elas. São mais inglesas do que portuguesas, mas tento levá-las várias vezes por ano a Portugal para estarem com a família. E todos os fins de semana falam com os avós, via Skype, em português.

Saudades?
Estou sempre com saudades de Portugal, em particular da família. Também sinto muitas saudades do mar. Nasci em Barcelos mas estudei no Porto, portanto sempre próxima do mar. Vivo há dez anos em Birmingham e o mar é uma coisa que não temos.

Onde acha que vai estar daqui a dez anos?
Não sei, mas quero continuar a progredir como cientista. E ser capaz de influenciar de uma forma positiva o mundo em que vivemos e a vida das pessoas.
O tratamento e prevenção do cancro conheceram imensos avanços nas últimas décadas.

Acha que um dia o cancro será totalmente curável?
O cancro é uma doença bastante complexa, o que leva a que neste momento não exista uma cura para todos os tipos de cancro. Mas os avanços na ciência são bem visíveis e acredito que um dia teremos opções bastante eficazes para tratar o cancro. A nossa contribuição consiste na sua deteção precoce, o que obviamente assegura uma maior possibilidade de cura do cancro da próstata.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 10 de setembro de 2016