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“A palavra escrita é demasiado limitada para nos dar a dimensão de Deus”

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marcos borga

O primeiro de seis volumes da única tradução integral da Bíblia a partir do grego é lançado a 22 pela Quetzal. Uma infinita empreitada que o helenista, professor universitário, escritor, poeta, cronista e gay assumido só dará por terminada em 2020

Não se chega à tradução da Bíblia sem um caminho percorrido. Nem, provavelmente, sem um dom. Frederico Lourenço, que em criança chegou a pensar em ser teólogo, e ao longo da vida adquiriu conhecimento em várias línguas é afinal, e sobretudo, o helenista que, nos últimos anos, mais contribuiu para a uma compreensão alargada das raízes gregas da nossa civilização, ao traduzir e explicar os seus textos fundadores, a “Ilíada” e a “Odisseia”. É também um pianista, cravista que convive bem com o professor universitário (Universidade de Coimbra), o homem das letras escritor, poeta e cronista que, com delicadeza e generosidade, elege sempre a verdade em detrimento de uma confortável ocultação.

Está a traduzir a Bíblia a partir da Septuaginta, traduzida por 72 rabinos...
Os rabinos traduziram [do hebraico para o grego] os cinco primeiros livros, o Pentateuco, no século III a.C. Eu estou a traduzir a Bíblia Grega, que é o Antigo Testamento todo, no qual se inclui essa tradução do Pentateuco, e o Novo Testamento, escrito originalmente em grego. É confuso porque o manuscrito mais antigo da Bíblia Grega é do século IV d.C., logo mais antigo do que o manuscrito do Antigo Testamento em hebraico, que data do século XI d.C. Eu estou a traduzir a Bíblia Grega para publicar em seis volumes. Comecei pelo Novo Testamento, que terá dois volumes. O primeiro é lançado este mês. É preciso trabalhar com muita antecedência.

Quantas horas por dia?
Muitas. Uma média de doze.

Sozinho?
Sim. Normalmente começo às seis e meia da manhã e fico até às oito da noite.

Não sai da sua secretária?
Só para ir dar aulas. Tenho também os fins de semana e as férias. Um professor universitário, apesar de tudo, não tem tantas aulas como um professor do ensino secundário... Tenho tempo, mas é precisa muita disciplina.

Calculo que fique com muito pouco tempo para descansar.
Vou descansar depois de acabar.

E quando acaba?
2020.

Isso quer dizer que se casou (em maio passado) e não foi de lua de mel?
Não fui, não. E também não tirei férias. Não fui um dia à praia nem este ano nem no ano passado.

Como é que o seu marido aceita?
Ele tem muita paciência. Quando eu acabar a Bíblia, pensamos ir a Israel ou a outro sítio.

Era contra o casamento?
Nunca fui contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas nunca pensei que o casamento fosse para mim. Pode ser bom se encontrarmos a pessoa certa. Foi uma decisão madura e está a correr muito bem.

Têm os dois a mesma posição perante a fé?
Temos a mesma posição heterodoxa. Temos o mesmo fascínio pelo judaísmo, pelo cristianismo, mas de um ponto de vista não participativo. Não somos membros de nenhuma Igreja. Preferimos estar de fora e não nos envolvermos nos lados mais negativos da religião. Ficar com o que a religião tem de bom. Acho que sou um homem religioso, e o André [Nassife] também.

Religioso mas não crente, neste momento, numa religião específica.
Acredito em Deus. Não acredito em nenhuma religião que me queira transmitir Deus. Interesso-me pelas religiões, pela sua literatura, cultura e história. Com muito respeito pelo cristianismo e pelo judaísmo, não sinto sinceramente dentro de mim aquela fé ou aquela maneira como Deus nos é dado a entender. Claro que há outras religiões que não conheço e pelas quais nunca tive qualquer interesse....

O Islão, por exemplo...
Sim, nunca me interessei pelo Islão. Mas pelo hinduísmo sim, que será a religião que conheço melhor depois do cristianismo e do judaísmo. Tive alguma curiosidade.

Que começou na adolescência e durou um verão?
Sim. Acho que durou um ano.

O que ficou?
Um grande fascínio pelos textos do hinduísmo: os “Upanishads”, os “Vedas”, o texto maravilhoso que é o “Bhagavad Gita”. Por ser um homem de letras são os textos das religiões que me interessam, com a consciência de que a palavra escrita é demasiado limitada para nos dar a dimensão de Deus. Por isso é que não consigo dizer que sou cristão ou judeu. A sensação que tenho ao acreditar na existência de Deus — seja lá o que for Deus, porque não sei o que é, mas sinto que existe — não é nada daquilo que ali está, e que é muito limitado. Deus é mais do que a soma das partes.

2020. É a data em que Frederico Lourenço prevê acabar a tradução da Bíblia Grega, projeto no qual trabalha diariamente cerca de 12 horas

2020. É a data em que Frederico Lourenço prevê acabar a tradução da Bíblia Grega, projeto no qual trabalha diariamente cerca de 12 horas

marcos borga

Pega no instrumento da razão para abordar a religião. Fá-lo claramente em “O Livro Aberto: Leituras da Bíblia” (Edições Cotovia, 2015). Usar a razão não é uma forma impossível de chegar à fé? A fé não tem de ser um milagre? Um mistério? Algo que acontece fora do campo da razão?
Sim, quando digo que acredito em Deus estou fora do campo da razão. Se me perguntar porque acredito em Deus não saberei responder. É irracional, intuitivo, subjetivo. Agora, no estudo dos textos faço valer a minha formação de homem de letras e também a de alguém que pensa que a melhor maneira de entendê-los passa por não projetar coisas neles; mas por tentar perceber o que é que eles são. A minha intenção em “O Livro Aberto” foi tentar ler algumas passagens da Bíblia de uma forma mais distanciada, não querendo à força que os textos digam aquilo que nós queremos que digam. Ficar aberto a que os textos possam até dizer coisas diferentes, contraditórias também.

Acredita que é possível eliminar de todo a subjetividade? Que é possível afastarmo-nos ao ponto de que só o texto sobreviva?
Podemos fazer esse esforço. Não sei se o conseguimos a cem por cento. Mas é um esforço já de si válido. Mais válido do que partir do pensamento de que a Bíblia é a palavra inspirada, infalível de Deus, que tudo faz sentido e que não há nenhuma contradição nela. Isso é que me parece subjetivo. Na tentativa, porém, de se ser objetivo, o gato pode sempre ficar com o rabo de fora e a subjetividade espreitar.

Mesmo que insista nesse distanciamento acaba sempre por nunca se ausentar. Quando diz, por exemplo, que Cristo nunca fala sobre ou contra a homossexualidade parece que procura no texto bíblico a saída para sua contradição, entre aquilo que é a sua homossexualidade afirmada publicamente e aquilo que as Igrejas costumam aconselhar, ou seja, a castidade ou a ocultação. Aí, diz: “Eu não o faço. Eu quero a verdade”.
A afirmação de que Cristo nunca disse nada contra a homossexualidade não é uma tentativa minha de justificação. Estou apenas a constatar. De facto, nas palavras que são atribuídas a Jesus nos quatro evangelhos não encontramos essa condenação. Mas encontramo-la noutros textos. No Antigo Testamento aparecem dois versículos que condenam a homossexualidade... Não é muito num universo de 53 livros, alguns com mais de 40 mil palavras. Agora no evangelho que mais difundiu o cristianismo, o de Paulo, a condenação não merece contemplação. Os homossexuais são merecedores de morte. Está lá claríssimo, em dois textos fundamentais. Não há como dar a volta. No século VI, quando se começou a fazer um código legal consentâneo com a doutrina cristã e com a Bíblia, apareceu, pela primeira vez, a pena de morte para a homossexualidade, com esse apoio bíblico. Há muitas coisas que são atribuídas a Jesus, muitas que ele terá dito ou não... Só temos aqueles quatro relatos e fico muito feliz por não ouvir da boca de Cristo essa condenação. Claro que Cristo poderá voltar agora à Terra para dizer que o tinha dito e que não registaram todas as suas palavras. Não sei.

Em “O Livro Aberto: Leituras sobre a Bíblia” já fala de algumas questões que a tradução lhe levanta como a questão do pecado ser afinal o erro...
Emprego os dois termos. Erro e pecado. Há passagens em que criaria muita confusão semântica usar erro em vez de pecado.

Como fez em “O Cordeiro de Deus: o que tira todo o pecado do mundo”?
Nessa passagem opto por erro, “todo o erro do mundo”. No primeiro volume escrevo uma introdução em que falo dos critérios. A minha tradução tem muitas notas e comentários, sobretudo linguísticos e históricos.

Faz comparação com outras traduções?
Não. Se o fizesse o volume seria muito grande e pouco interessante para os leitores. É mais interessante explorar a literalidade linguística.

Quando acabou de traduzir a “Ilíada” disse que é um erro pensar que temos o direito de ser felizes, porque a vida é feita de sofrimento..
Essa é a mensagem da “Ilíada”...

Com a qual concorda...
Sim. Basta olhar à nossa volta. O sofrimento faz parte da experiência humana e da vida de todos os seres vivos que connosco partilham o planeta.

Numa das crónicas faz uma correção a uma citação do realizador Woody Allen dizendo que a natureza não é um restaurante, como ele afirma, mas um matadouro.
Sim, sim. É um matadouro. E a realidade humana é em muitos sítios do planeta um autêntico matadouro. Esse é um aspeto muito assustador que o texto sublime que é a “Ilíada” nos dá a ver de uma forma profunda, ao não banalizar a questão do sofrimento e da morte. A “Ilíada” tenta enquadrar isso na realidade humana, deixando espaço para que também nesse contexto as pessoas possam encontrar um sentido para si próprias. Se não a vida não vale a pena. Atiramo-nos todos do oitavo andar. Temos, por isso, de aceitar que o sofrimento faz parte da vida e, ao mesmo tempo, que a vida vale a pena com sofrimento.

Na procura do sentido da vida, e até por gostar e citar tanto Schopenhauer, podia ter optado pela contemplação, em vez de se colocar a traduzir a Bíblia...
Sim, e acho que sou até bastante contemplativo. Ainda assim acho que tenho de fazer coisas. Schopenhauer também era contraditório. Essa ideia de abdicar de tudo, da vontade, do querer, foi algo que ele não pôs em prática. Passou a vida a escrever um livro com mais de mil páginas que teve três edições, cada uma maior do que a anterior [“O Mundo como Vontade e Representação”].

É mais importante para si dizer não ao desejo, uma vez que gera desgosto?
Sim, o desejo e a carência, por definição, geram desgosto e são essas coisas que temos de aprender a aceitar na vida. Essa é a grande vantagem de se ter 53 anos e não 19. Depois vamos vivendo, fazendo das derrotas vitórias. Vamos crescendo. Se ao longo da vida só tivéssemos experiências positivas não crescíamos, não mudávamos nada. Seria tudo maravilhoso. Se somos sempre felizes, vamos mudar para quê? A mudança para melhor ou mesmo para pior — mas vejo mais para melhor — tem origem nessas experiências negativas. Houve sempre um percurso que começou graças a uma derrota, a um desgosto, a um sofrimento. Sou um grande adepto do trabalho interior.

A satisfação é que nos encurta os dias, como escreve. A felicidade faz com que a vida corra rápido.
Sim, a infelicidade faz o tempo passar mais devagar. Quando escrevi sobre o assunto tentei perceber se não existirá um mecanismo de defesa no nosso cérebro para nos obrigar a ser infelizes de vez em quando; para podermos ter a sensação de que estamos a parar os ponteiros do relógio, de modo a não caminharmos tão precipitadamente para o momento final, em que teremos de morrer. Quando somos felizes ficamos mais perto desse momento.

Foi a idade que lhe trouxe esse pensamento; apagando-lhe o tal desiderius mortis de que chegou a ser acusado?
Sim. Ainda tenho isso, embora muito menos. E já não tenho de todo o pensamento: ‘Mais valia morrer!’

Deve ter havido momentos em que a sua fé em Deus foi violentamente abalada, perante, por exemplo, a morte inesperada de pessoas que lhe eram próximas, às vezes muito jovens...
Não. As várias mortes com que já lidei ao longo da minha vida não tiveram esse efeito em mim. O que abala mais a minha fé é pensar na maneira como a vida está estruturada: as aranhas comem as moscas, os leões as gazelas, e na Síria as pessoas morrem por obra e graça da crueldade humana, que é algo tão congénito ao ser vivo. Se Deus existe porque é que o mundo e a vida estão organizados em cima do sofrimento? É isso que a abala a minha fé. Considero normal que as pessoas tenham de morrer.

Mas não têm de morrer aos 20 anos...
Sim, mas isso são exceções. São situações que nos colocam perante o inexplicável. Tenho uma amiga a quem lhe morreram subitamente três filhos no berço. Esses casos colocam-nos tantas perguntas...

De que forma pesa a orfandade?
Tive a experiência de duas maneiras muito diferentes. Uma morte foi muito inesperada, e a outra foi esperada ao longo de nove meses; e essa foi de facto a situação mais difícil da minha vida. Eu tinha 35 anos quando a minha mãe morreu. Foi um acontecimento fulminante, traumático. Mas a morte do meu pai [o professor de Filosofia, poeta e ensaísta M. S. Lourenço], em 2009, foi ainda mais traumática. Vivi sempre em função do meu pai sem que o soubesse. Os meus pais separam-se quando eu tinha onze anos e a partir desse momento nunca mais vivi com ele. Não tinha, por isso, a noção de que o meu pai era uma pessoa tão central na minha vida. E também não o percebi nos primeiros meses após a morte dele... Estava anestesiado. Quando a ficha caiu, tive de recorrer a psicoterapias, tomar antidepressivos. Levei uns dois anos a ultrapassar.

Foi nessa altura que se pôs a questão: ‘Para que serve a minha vida?’
Sim. Para que serve a minha vida se o meu pai não está cá para eu lhe mostrar que faço isto e aquilo? Perdi o meu público. Numa sessão de psicoterapia dei por mim a dizer que, de repente, estava a representar num palco para uma plateia vazia. Antes, tinha o meu pai e era para ele que eu fazia a representação da minha vida. E agora que morreu, para quê fazer um espetáculo para cadeiras vazias?

Tem pena de que ele não o veja agora?
Sim, que ele não me veja como tradutor da Bíblia.

Quando publica os primeiros livros, a que chama “psicográficos” [“Amar Não Acaba”, 2004, “A Máquina do Arcanjo”, 2006,), o seu pai ainda está vivo...
Sim. Ofereci-lhe os livros. Não faço ideia se os leu. Nunca falou comigo sobre eles. Só me disse que não tinha gostado de “Pode Um Desejo Imenso” [romance]. Gostou de “Grécia Revisitada” [ensaio].

Parece que quer ser mais do que ele. Mas não igual a ele.
É um processo inconsciente. Quando era vivo queria que ele me reconhecesse.

E foi reconhecido?
Acho que sim.

marcos borga

No seu livro “A Máquina do Arcanjo” conta a história de como troca a sua carreira de pianista pela de helenista, e é num verso de Sophia de Mello Breyner Andresen que tudo se decide...
Sim, e continuo a ter essa grande paixão pela Sophia. Diz o verso: “Aqui despi meu vestido de exílio/ E sacudi de meus passos a poeira do desencontro”.

Qual foi o desencontro?
Talvez o piano tenha sido o desencontro. Mas ainda tenho muitas saudades de tocar piano.

Aliás, diz que foi nos cinco anos em que não tocou nem piano nem cravo que foi mais infeliz...
Sim, sim, e agora, enquanto não acabar a tradução da Bíblia, não vou poder tocar cravo. Mas é um dos meus planos para 2020. É bom ter algum tempo para tocar todos os dias.

Voltando ao helenista, mais tarde, porém, diz que é por causa do seu pai que muda de vida. Afinal, foi a Sophia ou o seu pai que o fez fechar-se em casa durante meses a estudar grego para poder fazer os exames de admissão?
A Sophia faz parte dessa realidade a que chamo meu pai. A realidade das letras, da poesia, da música... a realidade imaterial de coisas... Foi o meu pai que me deu a conhecer uma coisa chamada grego. E a Sophia era alguém que se interessava muito por essa cultura, que ela própria tinha estudado, penso que durante três anos, no mesmo curso que fiz.

Aliás, conhece-a antes de ir para o curso...
Sim, em abril de 1984, porque tinha feito a tradução de uns poemas dela para inglês, e encontrei-me com ela no Grémio Literário. Depois, ela convidou-me para ir a sua casa, na Travessa das Mónicas. Foi uma tarde inesquecível. Eu tinha por ela uma veneração total. A partir daí nunca mais lhe falei. Uma vez, via-a na rua a apanhar um táxi... mas ela estava longe e tive medo de que já não se lembrasse de mim. Senti vergonha de lhe falar. Foi a única vez que a voltei a ver depois daquele dia em casa dela...

Em que ela lhe diz “espero que não se arrependa”. Arrependeu-se?
De ter estudado grego? Não.

Nos seus textos dá a ideia de que teria gostado de fazer mais coisas com o alemão...
Sim, teria. Resolvi essa questão agora. Não poderia estar a fazer este trabalho se não tivesse facilidade em ler alemão. Para o projeto de traduzir a Bíblia o alemão tem sido fundamental, porque é nesta língua que, no século XIX, são escritos os primeiros textos que fazem uma abordagem mais crítica e objetiva à Bíblia. Atualmente, as bibliotecas digitalizam e disponibilizam esses documentos. Posso baixar livros do século XIX e lê-los em casa, sem sair de Portugal. É legal, gratuito.

Os protestantes foram muito importantes no estudo da Bíblia...
Sim. No final do século XVIII abriu a época, por assim dizer, ao estudo crítico e histórico sobre a Bíblia no meio protestante. Começaram a escrever-se coisas fundamentais sobre os evangelhos, sobre São Paulo, que nos dão uma abordagem histórica que não encontramos na mesma época em ambiente católico, e que só virá a aparecer no século XX, e sobretudo a seguir ao Vaticano II. Porque esse tipo de estudo até aí não estava autorizado nas universidades católicas.

Durante a Idade Média e até depois não se podia ter a Bíblia em casa...
Sim. A partir da introdução da Inquisição em Portugal penso que era permitido tê-la em latim, mas não noutras línguas. E isso aconteceu provavelmente até ao final do reinado D. José I. Embora já no fim, o marquês de Pombal tenha permitido alguma liberdade por embirrar com algumas secções da Igreja. A primeira tradução católica da Bíblia para o português foi feita por um padre católico [António Pereira de Figueiredo] no final do século XVIII, precisamente na transição do reinado de D. José I para o de D. Maria I.

Não existiu um tradutor português anterior, que morreu na Indonésia?
Sim, mas esse teve de sair de Portugal. Foi João Ferreira de Almeida [1628-1691]. Não sei se começou a tradução antes de sair de Portugal. Penso que terá nascido católico, até porque é de Mangualde, e que, ao contactar com outras realidades, se terá convertido ao protestantismo. Fez essa tradução da Bíblia com base na Bíblia protestante. Ou seja, partindo grego e do hebraico. É no século XVIII que esse padre, António Pereira de Figueiredo, irá fazer uma tradução da Bíblia que será lançada como a minha em seis volumes, a partir da vulgata latina que era a Bíblia autorizada aos católicos até 1943. Foi Pio XII que permitiu pela primeira vez que os católicos pudessem ter acesso a traduções feitas por católicos a partir do grego e do hebraico. Essa ideia de que a Bíblia católica pode derivar das linguagens originais é muito recente. Ou seja, acontece apenas 20 anos antes de eu nascer.

Qual foi a maior revelação que teve até agora?
Todos os dias tenho várias, mas até agora não encontrei nada de que não estivesse à espera de encontrar, até porque já conhecia bem o texto.

Com que idade é que começou a ler a Bíblia?
Com oito ou nove anos.

Porque era obrigado?
Não. Porque me interessava. Quis ser teólogo numa fase anterior àquela em que queria ser hindu. E os meus pais, atendendo a essa minha vontade, deram-me vários livros. O exemplar da Bíblia mais antigo que tenho é de 1973 e é em inglês.

É uma Bíblia para crianças?
Não. Cheguei de facto a ter uma Bíblia adaptada para crianças, antes dessa de 1973 que é mais difícil de ler. Na escolaridade inglesa, que fiz [em Oxford], havia uma disciplina de que gostava muito chamada Scriptures, ou seja, Escrituras, na qual se estudavam histórias da Bíblia. Era muito bom aluno, ao contrário do que acontecia noutras disciplinas, como Ciências.

Teve um padrinho católico, João Bénard da Costa. A sua mãe insistiu que tivesse Maria no nome, numa alusão à Virgem, e o seu pai escolheu chamar-lhe Cristiano. Ficou Frederico Maria Cristiano. Os seus pais eram de facto católicos praticantes?
Sim, eram. Quando eu nasci, e a minha irmã dois anos depois, eram ambos católicos praticantes, e continuaram a sê-lo durante o tempo em que vivemos juntos, até eles se separarem definitivamente em 1974. Não sei qual foi o momento da vida deles em que deixaram de ser assim tão católicos.

Tenho ideia de que dizia que a sua mãe era muito alternativa?
Sim, mas é-o mais tarde. Depois da separação começa à procura de uma identidade diferente. Até eu fazer a primeira comunhão era tudo muito normal.

Conta que o primeiro estranhamento da sua mãe em relação ao seu pai acontece no casamento em Luanda, no início da guerra. Quando lá chega encontra um homem alterado...
Sim, se bem que ela terá sentido isso mais profundamente nos anos seguintes, depois da ida para Inglaterra. Ela dizia que a experiência da guerra o tinha tornado, de facto, uma pessoa muito diferente do que era antes. A minha mãe achava que aquela escolha da Lógica e da Matemática em detrimento de outras áreas da Filosofia tinha que ver com a vontade de o meu pai se fechar num mundo muito lógico, abstrato e matemático.

Para se refugiar da emoção?
Sim. Era a maneira de ele lidar com a experiência que tivera. O meu pai nunca nos falou da guerra em Angola. Só sabíamos que tinha lá estado.

Alguma vez o confrontaram?
Não sei. O meu pai sabia como criar uma barreira para não falar sobre o que não queria. Essa era uma das características dele. Ele era o homem sem passado. Nunca falava do passado. Falava apenas do presente, do agora, o que tornava o diálogo com ele um bocadinho irritante.

Achou-o sempre hermético, e tentou sempre ser o contrário dele, derrubando paredes, barreiras. Quando começa a escrever também quer ser o contrário da Agustina, que, no entanto, admira...
O objetivo da minha escrita sempre foi a clareza. Não quero ser incompreensível. Procuro a maneira mais clara, mais nítida de exprimir as minhas ideias, e dá muito trabalho. Os meus modelos anglo-saxónicos e germânicos obedecem ao mesmo objetivo, mesmo na escrita ensaística. Não me interessa nada escrever um livro de ensaios sobre a Bíblia que ninguém entenda. Faço o maior esforço de que sou capaz para tornar a escrita clara, para que não fiquem dúvidas sobre o que estou a tentar dizer. A Agustina, por exemplo, escreve como se tivesse acesso a uma verdade superior a ela, e ela fosse a transmissão dessa verdade. Não escrevo assim. Eu prezo muito o lado do argumentativo, expondo um ponto de vista.

Apesar de ser professor universitário não esconde a vida pessoal. Fala sempre de si. Porque o faz?
Faço-o como estratégia discursiva, para arranjar uma armação em cima da qual posso pôr os meus pensamentos, em vez de optar por os colocar em abstrato. Na universidade ensinamos os alunos a evitar o mais possível o eu, a usar o impessoal e o nós majestático. Aplico essa regra na minha escrita universitária; mas fora dela posso usar todos os recursos e vantagens que me advêm da utilização da primeira pessoa do singular. Parto da minha experiência, das minhas dificuldades, da minha perceção da verdade, individual e subjetiva, que é o mais próximo daquilo que uma pessoa pode chegar. A minha escrita é sobretudo argumentativa, não é sibilina, profética. “O Lugar Supraceleste” é um livro que está cheio de argumentos, mas fá-lo de uma maneira muito mais acessível pelo facto de estes terem esse ponto de vista pessoal.

A escrita não tem um tom arrogante nem pretensioso, mas concentra-se no ego, é egocêntrica...
Mas isso é o que toda gente faz embora disfarce. À face da Terra todas as pessoas são egocêntricas, e também acho que o devem ser. O egocentrismo não significa sobrepor o nosso ego a todos os que estão à nossa volta. É uma maneira de pôr o ego em diálogo com outros egos.

Neste processo de exposição e partilha nunca teve nenhum grande dissabor?
Não. Tenho tido muita sorte. Nunca senti a mínima antipatia nas universidades em que tenho trabalhado, a de Lisboa e a da Coimbra. Há muita gente que me diz: “OK, uma universidade não é um quartel... No quartel seria diferente”. Não sei. Ainda agora algumas funcionárias da universidade de Coimbra com quem não tinha muita proximidade vieram dar-me os parabéns pelo casamento.

Há também a questão da verdade e do valor que lhe dá. Há um lado de ativista em si? A vontade de poder dizer que é homossexual e, se calhar, no futuro, católico?
Não sei. Não tenho esse lado de ativista. Isso seria um elogio. Tenho amigos que convivem bem no papel de católicos homossexuais. Eu ainda não sei se isso é possível, ou se isso não é viver na fantasia. Ainda não sei se é possível ser as duas coisas, gay e católico.

Não pode o Papa Francisco ter-nos aproximado dessa possibilidade?
Não. Este Papa, por premeditação ou por espontaneidade, tem tido o efeito de levar as pessoas a pensar nisso, mas não há nenhum dado ou decisão concreta que nos tenha aproximado dessa situação.

É um comportamento de fachada? De marketing?
Não. Acredito até que este Papa seja sincero e espontâneo. Mas uma coisa é dizer as coisas que ele diz... Outra coisa é fazer alguma coisa de concreto, em que as palavras passam a ser válidas, coerentes, aceites.

Não acredita que as palavras se possam tornar consequentes?
Não. Mas já acho que a Igreja Católica é das menos conservadoras no panorama de todas as Igrejas cristãs evangélicas de inspiração política de direita que pululam às centenas no mundo e vemos no Brasil. A Católica não está no extremo do conservadorismo mas também ainda não deu nenhum passo concreto em relação a nenhum deste temas, divorciados, recasados, gays, e nem acredito que vá dar.

É a palavra que o liberta?
Sim, enquanto verbalização do pensamento. O pensamento é uma gravidez difícil antes de vir a palavra que é necessária ao parto. Não é uma gravidez eterna. Só vejo outra forma de verbalizar o pensamento, a música.

O que é feito do “cismador meditabundo” que produziu as crónicas que publicou no Facebook e que deram lugar ao livro “O Lugar Supraceleste” (Edições Cotovia, 2015)?
Agora só vejo a Bíblia à minha frente, 12 horas por dia. As coisas que queria concretizar estão muito dentro das ideias que vão surgindo a partir do trabalho que estou a fazer. Gostava de escrever um livro sobre Jesus, e outro sobre os primeiros cem anos do cristianismo. Este conhecimento mais direto da Bíblia leva-me a pensar muitas coisas que não têm lugar no comentário à tradução e que gostaria de desenvolver. São coisas também em relação às quais ainda preciso de tempo para pensar. Ainda não acabei a minha reflexão sobre se sou cristão ou não. Neste momento acho que não sou. Ainda preciso de repensar estas coisas todas. O meu debate interior com o cristianismo ainda não acabou.

No encontro com Frei Bento Domingues ele diz-lhe que muitas das questões que coloca foram feitas ao longo de anos. Já foi ver quais as respostas encontradas dentro da própria Igreja...
Muito sistematicamente não. Interessa-me chegar lá por mim, porque penso que não se consegue ser membro de nenhuma religião por intermédio de outrem. Não é por alguém lhe dizer que o judaísmo, o cristianismo ou o hinduísmo são a solução para a sua vida que vai acreditar nisso, pelo menos enquanto as peças não couberem, dentro de si, no sítio certo. Essas coisas têm de ser trabalhadas interiormente. Haverá pessoas que acreditam desde o momento em que foram batizadas, e aos oitenta anos nunca sentiram nem por um segundo uma dúvida.

Inveja-as?
É uma boa pergunta. Acho que não. Duvido até que haja alguém que escolhendo a vida religiosa nunca, em nenhum momento, se tenha interrogado. A própria mensagem do cristianismo coloca-nos muitas perguntas sem respostas.

O que é o deixava feliz além de acabar de traduzir a Bíblia?
Não sei se acabar vai ser um momento feliz. A felicidade está em fazer. Está no caminho. Na viagem. Nesta descoberta. De tudo aquilo que fiz na minha vida, isto é aquilo que me está a dar mais prazer, satisfação, realização. É um privilégio sentir que me foi dada a possibilidade de fazê-lo. Sinto como um dom o facto de ter reunido as condições necessárias para o fazer e de ter conquistado alguma maturidade e serenidade interior.

Disse sempre que a poesia do seu pai lhe é incompreensível pelo seu hermetismo. Mas eu encontrei este poema, em “Nada Brahma” [1991], e achei que lhe assentava bem: “No Céu as Estrelas movem-se/ Uma a uma, até que soam/ De cristal as cadências da noite./ A chuva canta ao meio, lenta & longa. A mim só me resta,/ Numa polifonia que tudo contém,/ Puro, um deus que cresça,/ A aproximar-se, por degraus, da Morte.”
Esse poema é extraordinário.

E não tem tanto de si aqui?
Tem, tem mesmo. Tenho de reler esse livro. É um poema muito bonito e até se entende.