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A Apple acabou com a entrada de auscultadores. E depois?

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A Steve Jobs são atribuídas centenas de afirmações. Uma das mais batidas é que nós, utilizadores, “não sabem o que querem”. Não sabemos, claro, até que a Apple nos ilumina o caminho e mostra para onde devemos ir. A Jobs, este mandamento correu bem… e menos bem. Foi-lhe favorável quando criou o Mac e o iPhone em sistemas proprietários. Voltou-se contra ele quando na Next decidiu criar um computador caro que não funcionava para quase nada. Deixou-lhe um sabor amargo na boca, por certo, quando quis fechar o Mac ao Office da Microsoft e, anos mais tarde, Bill Gates lhe deu a mão injetando milhões de dólares numa Apple afogada em dívidas que foi forçada a deixar entrar o Office pela porta grande. Sim, Jobs era um visionário em muitas coisas, mas no aspeto financeiro não conseguiu levar a empresa ao patamar em que ela se encontra hoje pela mão do sucessor que escolheu: Tim Cook.

A Cook falta-lhe surpreender. Afinal, o iPhone 5 ainda teve mão de Jobs e foi o último smartphone da Apple onde se viu algum rasgo de inovação. O que se seguiu foram telefones “mais do mesmo”. Exceto no iPhone 6 Plus, onde Tim Cook passou uma borracha no que Jobs tinha dito sobre nunca fazer telefones de grande dimensão. Uma decisão empresarial, correta, que deixou de lado os imperativos de usabilidade tão defendidos pelo fundador da Apple.

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Esta conversa sobre as diferenças entre os dois homens do leme da Apple vem a propósito do lançamento do iPhone 7 e do tão badalado fim da entrada para auscultadores. Não percebo o porquê da surpresa. Fazer portas proprietárias em sistemas proprietários é parte do ADN da Apple. Sempre foi assim. Quem tem um iPhone sabe que não pode usar qualquer outro carregador sem ser o que tem a ligação lightning. Do lado do Android, a porta microUSB permite muito mais liberdade.

Agora, acontece o mesmo com os auscultadores. A entrada de jack de 3,5 mm é, provavelmente, uma das mais universais do mundo. Quase todos os dispositivos que têm uma saída de áudio utilizam esta interface. E o que quer a Apple com esta decisão? Dizer que devíamos estar a ouvir músicas sem ligar fios. Ponto. Compreendo. Mas há algumas condicionantes.

Uso auscultadores sem fios (com a tecnologia Bluetooth) com alguma frequência e a qualidade da experiência não é a mesma quando opto por utilizar uns phones com fio. Existem variações no som (quebras de ligação) e não sou particularmente fã de ter mais uma ligação sem fios tão perto da cabeça e durante longos períodos de tempo – mesmo que a maioria dos estudos científicos diga que a tecnologia Bluetooth não é nefasta para a saúde humana. Claro que há quem não concorde (ler AQUI).

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É óbvio que será possível continuar a utilizar os auscultadores que custaram aos utilizadores algumas dezenas (centenas em alguns casos) de euros. Para isso, só tem de se ligar o adaptador fornecido pela Apple. Mais um acessório que será necessário guardar com a vida para que não se perca e, com ele, a possibilidade de ouvir música ou interagir com as chamadas.

A Apple foi a primeira a fazer isto? Não, não foi. A Sony Ericsson (que hoje é só Sony), a Nokia e até a Samsung já lançaram dispositivos com entradas proprietárias para auscultadores. E correu bem? Não, não correu. Tanto não correu que essas abordagens foram descontinuadas. Recentemente, a Motorola também enveredou por este caminho e retirou a porta de auscultadores. Vamos ver o que acontece.

No caso da Apple iremos assistir ao padrão normal. Muito barulho e pouca ação. Quer isto dizer que nem o acordo feito na Irlanda para pagar poucos impostos ou o facto de o iPhone 7 não ser particularmente inovador (duas câmaras traseiras? à prova de água?... novidades requentadas já mostradas em telefones Android) vão afastar os compradores deste terminal. Porque o iPhone não é só um smartphone, é uma experiência. Isso é que continua a fazer a diferença e a jogar a favor da Apple. É, em última análise, a maior herança da determinação de Steve Jobs em desenvolver um ecossistema proprietário. Ecossistema esse que, na semana passada, ganhou mais uma característica: não ter uma entrada áudio de 3,5 mm.

E isto só é tema para os analistas. Para os utilizadores, o novo iPhone 7 até pode ser igual ao anterior. Ora, veja.

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