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Veneza: Cama, mesa e roupa lavada

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Foto 1

Barbara Zanon/Getty

Quando o real é mágico, mais vale ser modesto nas palavras

Nada substitui a entrada por mar. Do aeroporto, no vaporetto ou num táxi — mais caro, mas só para nós — vamo-nos aproximando lentamente da laguna; os pássaros acompanham-nos sempre. Vão aparecendo pequenas ilhas, até se começar a desenhar o perfil dos primeiros muros, das primeiras fondamente. E quando menos esperamos, começamos a ver aquilo que depois percebemos ser a cidade: uma primeira imagem de São Marcos, ainda pequena e imprecisa, depois as cúpulas, o campanile, as colunas da piazzetta coroadas pelas estátuas do leão alado e de São Teodoro, o palácio ducal: Veneza. Entramos no Bacino di San Marco. Um pouco à esquerda fica a Punta della Dogana, antigos edifícios da alfândega, coroados por dois atalantes que suportam uma esfera dourada, no cimo da qual a estátua da Fortuna indica a direção do vento. Hoje, a Punta della Dogana (foto 1) faz parte de um complexo artístico que inclui o Pallazzo Grassi, não muito longe, e que François Pinault transformou em templo da arte contemporânea, com a preciosa colaboração do arquiteto Tadao Ando.

Para dormir, nada há de melhor do que a Pensione Seguso, nos Zattere — um longo e largo passeio que delimita Veneza a sul, em frente à ilha da Giudecca. Há turistas ocasionais — como eu — e gente que vai para a Pensione todos os anos. O edifício é originalmente do século XVI, e tudo é calmo e discreto. Nos Zattere, mesmo em agosto, o mês a evitar, nunca nos sentimos apanhados na ratoeira do turismo de massas, que fica pela Praça de São Marcos e pelas ruas em volta.

Saindo da pensão, e andando para a direita, mesmo no final dos Zattere, há uma pequena e excelente trattoria, frequentada por locais. Virando de novo à direita estamos na Igreja de São Sebastião, o meu monumento preferido de Veneza. Paolo Caliari, ou seja, Veronese, está lá sepultado. Além disso, pintou os tetos da sacristia e da nave central, partes do coro, o altar-mor e as portas do órgão. A igreja é pequena e modesta de dimensões. É um tesouro.

Foto 2

Foto 2

Marco Secchi/Getty

Em frente da igreja, seguindo pela Avogaria e pela Calle Lunga San Barnaba, chegamos a um dos melhores restaurantes de Veneza, a Osteria ai 4 Feri. Se a Seguso é a ‘cama e roupa lavada’, o 4 Feri é a ‘mesa’. Perto dali fica o campo de Santa Margherita, outro lugar preferido. Aí, a geladaria Il Doge, a Osteria Alla Bifora e o café Margaret Duchamp não me têm dado só de comer e beber, fazem parte da minha família afetiva.

Nas costas da pensão Seguso, andando uns metros, chega-se à Calle Nova Sant’Agnese, e na esquina, o café Da Gino é um poiso obrigatório todas as manhãs, para ver as pessoas da terra e as de fora. À volta há lojas excelentes. Para a esquerda do café fica a Accademia, um dos museus mais maravilhosos do mundo. Cada um aí criará as suas preferências, mas os quadros de Giovanni Bellini (a beleza das caras!) e a misteriosa “Tempestade” de Giorgione têm um lugar cativo nas minhas tabelas. Saindo da Accademia, a tentação de voltar à esquerda e ir à Toletta é sempre muito grande; é uma das melhores livrarias de Veneza, juntamente com a Librairie Française, no Campo Santi Giovanni e Paolo (num bairro mais longe, Castello), onde há ainda a fantástica estátua equestre de Bartolomeo Colleoni e a esplanada e os bolos da pastelaria Rosa Salva; tudo lugares especiais.

Atravessando a ponte da Accademia (foto 2) e entrando no Campo Santo Stefano, temos então, e a partir daí, tudo o que aqui não referi, ou seja, Veneza quase inteira.

Postal

Foto 3

Foto 3

VINCENZO PINTO/AFP/Getty

Cafés na praça

Há duas boas maneiras de ver a Praça de São Marcos mesmo no pico da invasão turística.

Uma é ir ao Museo Correr (foto 3), num dos lados da praça. O museu tem de tudo, incluindo o maravilhoso mapa de Veneza de Jacopo di Barbari, e os seis blocos de madeira, com 500 anos, a partir do qual foi impresso. Mesmo para quem não adore cartografia, é emocionante. E do café do museu tem-se uma vista privilegiada sobre a praça.

Outra maneira é ir à noite, depois do jantar, mas antes da meia-noite, para a esplanada do Cafe Quadri, beber um whisky, por exemplo, e ficar a ouvir a orquestra do café ao despique com a orquestra do Florian, o seu grande rival, em frente. Tudo na praça. Único e emocionante.