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Uma viagem guiada por latas de spray

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ARTE URBANA. Matosinhos convidou artistas de rua, nacionais e estrangeiros, a pintarem paredes da cidade. Na foto, painel de Katre

LUCÍLIA MONTEIRO

A cidade pretende atrair visitantes e dar a conhecer a sua riqueza histórica através da arte urbana

A cidade de Matosinhos é reconhecida pela sua ligação ao mar, à pesca, à navegação, bem como pela arquitetura, restauração, indústria conserveira, entre outros elementos. Numa tentativa arrojada de dar a conhecer a riqueza histórica, o município disponibiliza o que diz ser o primeiro roteiro turístico de arte urbana em Portugal, inserido nas atividades do programa da Capital da Cultura do Eixo Atlântico. Integra sete obras de conceituados street artists nacionais e internacionais. O Expresso partiu à descoberta das obras pelas ruas matosinhenses, falou com alguns dos artistas e acompanhou os derradeiros preparativos.

Entre os autores selecionados encontram-se os writers portugueses Mr. Dheo, a dupla ARM Collective, Hazul e Pariz One. De Espanha chega Felipe Pantone, enquanto o francês Katre traz o seu estilo caótico e industrial.

Três obras foram concebidas ainda durante o mês de julho. A intervenção de Katre, no Bairro de Carcavelos, junto à estação de metro Câmara de Matosinhos, representou em spray o cenário de uma antiga fábrica conserveira em ruínas.

No mesmo mês, bem perto da Escola Secundária Augusto Gomes, um par de street artists concebeu outras duas intervenções. A ligação ao mar fica bem patente na obra de Hazul, dono de um estilo bastante expressivo, ao passo que no graffiti de Pariz One deparamo-nos com formas geométricas onde a variação cromática assume papel preponderante.

Trabalho de Pariz One

Trabalho de Pariz One

lucília monteiro

Um pouco mais distanciado do centro de Matosinhos, em frente ao Mercado da Lionesa, em Leça do Balio, foi inaugurado em abril de 2014 um mural com 1400 metros quadrados. A intervenção coletiva ficou a cargo de oito artistas nacionais e dois internacionais. Essa primeira obra que integra também este roteiro turístico foi o pontapé de saída para um projeto agora mais extenso.

“Em Belas Artes não aprendi absolutamente nada”

Agora, em setembro, às quatro obras já existentes, foram reunidas mais três. Os últimos artistas a entrarem em cena foram Mr. Dheo, a dupla ARM Collective e o hispano-argentino Felipe Pantone.

Também no Centro Empresarial Lionesa, dinamizador deste projeto em parceria com a Câmara Municipal de Matosinhos, fomos encontrar o espanhol Felipe Pantone. À conversa com o Expresso, o artista que se iniciou no graffiti com 12 anos e já pintou murais em todo o mundo, explicou que o seu estilo é influenciado pela arte ótica dos anos 60, mas acrescenta que as criações da sua autoria vão de encontro a este “tempo de dinamismo e conexões”.

“O que me interessa é um pouco a velocidade com que os tempos correm”, afirmou Pantone, que aos 18 anos se iniciou em Belas Artes, curso onde diz não ter aprendido “absolutamente nada” e que por “inércia” não chegou a concluir. Ainda assim, confessa que essa experiência permitiu alterar a sua linguagem plástica e descobrir o que é a arte. Possui um estilo no qual se entrecruzam elementos do design gráfico, cores vivas ilusões óticas.

Parede com quase 1km na fábrica da Lionesa

Parede com quase 1km na fábrica da Lionesa

lucília monteiro

Sobre a vastidão do seu trabalho, conta que vai de encontro à globalidade e garante não haver diferença entre uma intervenção que realize em Marrocos ou em Nova Iorque. “O contexto social não me interessa. Eu quero comunicar com um grupo de pessoas que apreendem esse novo mundo e essa nova sociedade moderna”, acrescentou o hispano-argentino de 30 anos, que já pintou alguns murais em Lisboa.

Uma arte que interage com o local e com as pessoas

A viagem pela rota da arte urbana prosseguiu e no Bairro da Biquinha fomos encontrar os portugueses ARM Collective, que davam os últimos retoques numa obra de largas proporções. A acompanhar atentamente os trabalhos, encontrava-se um dos moradores, Arlindo Monteiro Maia. “Acho interessante e é uma coisa alegre. Serve para animar as vistas e é uma coisa bonita”, disse ao Expresso o residente de 48 anos. “Isto é realmente uma forma de arte, que não tem nada a ver com esses riscos que fazem nas paredes”, acrescentou Arlindo.

É caso para dizer que qualquer diferença entre a arte urbana e esses “riscos”, de que nos falava o morador do Bairro da Biquinha não é mera coincidência. No caso do ARM Collective (composto por MAR e RAM) é um trabalho artístico e colaborativo com mais de 10 anos.

“É uma viagem pelo trabalho do RAM e pelas minhas formas figurativas. O trabalho dos ARM, enquanto dupla, é mesmo isso: juntar os dois universos e fazer com que a pessoa olhe e pareça que foi só um artista”, explicou Gonçalo, mais conhecido por MAR.

Quando se iniciaram a trabalhar neste género de arte, “este tipo de intervenções, na altura, eram impensáveis. Os tempos mudaram e o espaço é encarado de outra maneira”, destacou Miguel Caeiro, que assina como RAM.

Pintura de Hazul

Pintura de Hazul

lucília monteiro

A intervenção da dupla lisboeta intitula-se “Instante” e, como explicou Gonçalo “MAR”, “o mural vai ter um peixe a passar pela mão e – se conseguíssemos parar o tempo – esse era o segundo, o instante que ficava”.

Por sua vez, RAM, explica que os dois artistas tinham duas visões da mesma peça, algo que “acontece na maioria das vezes”. Para o street artist, “estes bairros sentem mais o graffiti” e, neste caso em concreto, o principal desafio foi fazer com que os habitantes se possam identificar com a obra. “Há uma interação com as pessoas. Elas dão-nos ideias que nós, por vezes, acabamos por aproveitar”, explicou RAM acerca do processo criativo.

Pintar para pessoas dos 8 aos 80 anos, ricas e pobres

A finalizar a nossa viagem pela cidade, encontramos Mr. Dheo, curador deste projeto, a pintar a uma altura de cerca de 40 metros na empena do Hotel Amadeos. Já foi convidado para realizar intervenções artísticas em países como a China, Brasil, África do Sul, Israel, Dubai ou República Checa. Sobre a intervenção, com sensivelmente 30 metros, não quis revelar muito. “Gosto da interpretação que as pessoas possam ter e agrada-me que existam diferentes interpretações”, começou por dizer Dheo.

Sobre a sua linguagem plástica define-a como “crítica e satírica” e explica que o seu processo de criação tem sempre 50% de preparação e outros 50% são definidos no local. “Se trouxer a lição toda estudada, a parte do improviso não entra e acho que o prazer não é o mesmo”, explicou o artista.

Criação do AMR COLLECTIVE

Criação do AMR COLLECTIVE

lucília monteiro

O desenho acompanha-o desde criança. Os pais potenciaram esse gosto, mas aos 14 anos trocou as folhas de papel e os lápis de cor pelos muros e as latas de spray. “Nunca me identifiquei muito com os estilos de pintura tradicional”, confessou Dheo.

Rejeição do academismo

A rejeição pelo academismo e pelos cânones levou-o a descobrir nas ruas a sua linguagem plástica. “O graffiti era o oposto de tudo aquilo que eu conhecia. Um estilo completamente livre. Pinta-se para pessoas dos 8 aos 80 anos, quer sejam ricas ou pobres. Não há regras nem uma escola de graffiti”, destacou Dheo, que consegue viver exclusivamente da arte urbana.

“Tracei objetivos e um deles era vir a fazer dinheiro com o graffiti, algo que há 16 anos fazia com que as pessoas se rissem na minha cara. Hoje vivo disto e posso dizer que vivo bem. No país em que estamos, não me posso queixar”, garantiu o artista.

Sobre esta expressão artística destaca a componente de colaboração que nela existe e a “força” da comunidade. “É quase impossível ver uma tela a óleo pintada por dois artistas. Quem começa na arte urbana vai levado por um amigo, podem partilhar o mesmo muro e isso está sempre presente”, concluiu.

A iniciativa é dinamizada pelo Centro Empresarial Lionesa e pela autarquia local. A diretora-geral de Lionesa, Eduarda Pinto, acredita que “faz sentido que as pessoas venham conhecer melhor a cidade através destas intervenções artísticas”. Na sua opinião, “o turista fica a conhecer o artista, o estilo, algo mais sobre a intervenção e também sobre o próprio concelho”.

AMR COLLECTIVE

AMR COLLECTIVE

lucília monteiro

A responsável explicou ainda que o objetivo é que “qualquer operador que faça as outras rotas [turísticas], também faça esta, desde que haja um guia que perceba daquilo que está a transmitir, porque estamos a falar de um público muito específico”.
O roteiro ainda não tem um preço definido, mas estará brevemente disponível online. Inicialmente arranca com sete obras, mas outras intervenções podem vir a surgir noutros locais, adiantou Eduarda Pinto.