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O feitiço infetou o feiticeiro

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Criados para os soldados resistirem no campo de batalha, os antibióticos são uma arma terapêutica usada em excesso e que está a perder eficácia. Trava-se uma nova guerra e o inimigo é feroz: bactérias resistentes que ameaçam vencer a medicina moderna

Vera Lúcia Arreigoso

Vera Lúcia Arreigoso

(texto)

Jornalista

Carlos Esteves

Carlos Esteves

(infografia)

Infografico

Não é por excesso de zelo que se diz que tudo o que é exagerado faz mal. Há 50 anos, os antibióticos permitiram à medicina conquistar o território das doenças infecciosas, salvando milhares de vidas, mas o excesso de confiança veio revelar-se fatal. Os antibióticos tornaram-se uma ‘bala mágica’ para os grandes e para os pequenos inimigos e o agressor adaptou-se. Com o tempo, as bactérias aprenderam a resistir usando o fármaco como ‘alimento’ e ‘ensinando’ a descendência a fazer o mesmo. Ganharam terreno e, se a Ciência não reunir reforços e mudar de armas, dez milhões de pessoas no mundo, 390 mil só na Europa, vão morrer a cada ano já a partir de 2050, estima a Organização Mundial da Saúde.

A utilização intensiva de antibióticos em humanos e animais, a maior mobilidade dos indivíduos e a evolução e adaptação dos microrganismos, alguns já capazes de sobreviver a todos os antibióticos no mercado, têm vindo a fazer recuar a ciência médica. “A manter-se esta tendência, será posta em causa a medicina avançada que se pratica. Por exemplo, cirurgias mais ou menos radicais ou terapêutica oncológica poderão deixar de ser possíveis por se tornarem intratáveis as infeções decorrentes”, alertam os peritos da Direção-Geral da Saúde (DGS) no relatório sobre a resistência aos antimicrobianos apresentado em março.

O alarme soa cada vez mais alto entre a comunidade científica mundial, que tenta traçar uma nova estratégia para o campo de batalha. “O problema das resistências é muito vasto, com muitos reservatórios (de bactérias resistentes). Nos animais, incluindo os de companhia, no solo, nas águas...”, explica Manuela Caniça, responsável do Laboratório Nacional de Referência da Resistência aos Antibióticos do Instituto Ricardo Jorge (INSA).

Na prática, o microrganismo resistente reproduz-se e permanece no meio ambiente e no próprio organismo humano. “Nem os vegetarianos deixam de ter o intestino colonizado por bactérias resistentes — estes microrganismos também foram identificados em vegetais, em culturas semelhantes às detetadas na carne — e podem ou não ficar doentes, mas são portadores”, explica a investigadora.

O consumo elevado de antibióticos eleva assim o risco de resistências. É na comunidade, fora do hospital, que quase todos estes medicamentos são prescritos (mais de 90% do consumo nacional), no entanto, não é aqui que o inimigo é mais perigoso. A maior ameaça está no interior das unidades hospitalares, onde os doentes são mais graves, é necessário combater infeções mais letais e, por isso, recorrer a ‘balas’ de última geração. O problema é que o ‘tiro’ nem sempre é certeiro e algumas bactérias sobrevivem, ou seja, resistem.

Os médicos falham porque há lacunas nos meios, desde logo para identificar rapidamente se o doente está infetado por uma bactéria ou por outro agente (caso dos vírus e que não são tratados com antibiótico), qual é o microrganismo e a que antibacterianos é sensível. Os testes generalizados demoram alguns dias a produzir resultados e à cautela é dado um antibiótico. Não raras vezes, não era necessário ou até era, mas outro que não o que foi administrado.

“Uma das coisas importantes que temos de combater ao nível do tratamento, além da automedicação, é a prescrição empírica. A colheita da bactéria deve ser feita antes do início do tratamento e devem existir métodos de teste rápidos, à cabeceira do doente. É nisto que todo o mundo está a apostar”, afirma Manuela Caniça.

“Já começam a surgir técnicas de biologia molecular que permitem resultados rápidos, embora ainda sejam muito dispendiosas, com diferenças dez a 20 vezes superiores”, explica Paulo André Fernandes, diretor do Programa de Prevenção e Controlo de Infeções e de Resistência aos Antimicrobianos. Por exemplo, uma análise convencional (zaragatoa nasal para a bactéria MRSA) demora dois ou três dias e custa 9 euros e um teste rápido (PCR) tem um resultado em seis horas, por 40 euros.

O internista e intensivista, desde abril à frente do programa criado em 2013 pela DGS para combater as resistências, afirma que o objetivo está definido: “Mais recursos e autoridade.” Meios para ter testes rápidos, por exemplo, e autoridade para que os responsáveis pela área do antibiótico em praticamente todas as unidades do Serviço Nacional de Saúde atuem. “Muitos não têm capacidade de intervenção, por exemplo para isolar um doente ou fazer rastreios aos contactos do doente, porque as administrações não lhes reconhecem essa capacidade”, critica.

Igualmente por cumprir está a certificação de alguns métodos de análise utilizados, por exemplo. Portugal tem uma rede com mais de 100 laboratórios que reportam o aparecimento de microrganismos perigosos ao INSA, mas vários hospitais não utilizam métodos de colheita, que enviarão para análise, certificados por este laboratório de referência. E por cá são muito necessários.

Os dados disponíveis, de 2012, indicam que Portugal tem uma taxa de prevalência de infeções associadas aos cuidados de saúde hospitalares de 10,5%, isto é, o dobro da média europeia. O cenário, sobreponível aos cuidados continuados — onde estão muito idosos — pode ter mudado entretanto, mas só no final do próximo ano haverá um relatório atualizado. Segundo a DGS, em 2013 as infeções hospitalares por bactérias resistentes mataram mais de 12 pessoas por dia

Seis mortes em Portugal

Em todo o mundo a bactéria mais temida é a klebsiella pneumoniae. Além de ser capaz de resistir aos antibióticos mais poderosos (carbapenemos, de uso exclusivo hospitalar), é rápida na propagação. Por cá, já foi responsável por três surtos: em 2015 no Hospital de Gaia, em fevereiro deste ano nos hospitais de Coimbra e em abril no São João, Porto. Morreram seis pessoas. E o prognóstico não é bom.

“No ano passado tínhamos uma taxa de 2,1% de klebsiella pneumoniae resistente e com resistência moderada e este ano vai registar-se um aumento. Isto embora sem estarmos pior do que o resto da Europa”, revela Paulo André Fernandes. A tendência foi identificada nos dados, ainda por trabalhar, enviados anualmente para o Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças, que monitoriza o problema a nível europeu.

O especialista sublinha, ainda assim, que os casos de resistência a todos os antibióticos são muito raros e que quando surgem não são um atestado de óbito. “Esta informação é laboratorial, porque para o doente há a hipótese de tratamento, combinando diferentes antibióticos e doses.” Uns doentes sobrevivem, outros não.

Os números enviados aos especialistas europeus mostram ainda que o combate contra outra bactéria temível — staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA), muito associada a doenças respiratórias ou complicações após cirurgias — não está a ser ganho. “Tínhamos 47% de resistência, pior do que o norte e o centro da Europa, e vai manter-se.”

Portugueses tomam menos antibióticos

A exceção está, para já, só ao nível da escherichia coli (do trato urinário), pois “as resistências parecem ter diminuído à generalidade dos antibióticos”. O resultado pode estar associado a uma redução no consumo de antibacterianos, outro dos dados positivos apurados. “Em termos globais, há uma redução de 8% no ambulatório e de 3% em meio hospitalar no primeiro quadrimestre de 2016 face a 2015”, adianta o responsável da DGS.

Nos hospitais verificou-se uma redução de 5% na prescrição dos antibióticos mais poderosos e mais associados a resistências (carbapenemos). “Sem ser espetacular, é uma sustentação do bom caminho que já se começava a notar.”

Igualmente positivo é o aumento do consumo de antibióticos recomendados à comunidade: 14% na fosfomicina e 3,5% na nitrofurantoína. Alguns medicamentos por serem antigos estavam a ser substituídos por outros modernos e com espectro maior (menos específico), logo, com maior risco de resistência pelos microrganismos. “A antiga injeção de penicilina estava a deixar de ser feita e agora aumentou 400%”, salienta o médico.

O diretor da estratégia nacional contra as bactérias resistentes atribui as melhoras, poucas, aos médicos, sobretudo dos cuidados de ambulatório. “Os portugueses continuam com o mesmo nível de iliteracia sobre o tratamento das infeções e a ir ao hospital visitar vários doentes, sentar-se nas camas, mexer nos objetos ou não desinfetar as mãos”, afirma Paulo André Fernandes.

A batalha não está ganha mas a guerra também ainda não está perdida. Os especialistas estão certos que os médicos vão continuar a dispor de tratamentos eficazes. “Não vai existir uma medicina sem antibióticos”, garante Manuela Caniça. “O pipeline dos antibióticos já não está seco. A indústria voltou a apostar nesta área e estão no horizonte alguns medicamentos novos que vão ajudar-nos nestas situações de resistência”, explica Paulo André Fernandes. Mas há uma lição que tem de ser aprendida: “Vamos ter de usar os novos antibióticos com extrema racionalidade para não voltarmos à mesma situação.”