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Faculdade do Porto lança doutoramento pioneiro em cuidados paliativos

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Faculdade de Medicina do Porto anunciou, esta quarta-feira, um programa doutoral que ajudará as equipas médicas a evitar intervenções fúteis no limiar da morte dos pacientes. Será o primeiro do género em países lusófonos

Isabel Paulo

Isabel Paulo

Jornalista

A necessidade de profissionais de saúde com formação avançada em cuidados paliativos face ao aumento da esperança de vida e à evolução da medicina levou a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto a promover, já este ano, um doutoramento em cuidados paliativos, destinado a médicos, enfermeiros, psicólogos e profissionais de ação social.

A decisão surge após um estudo desenvolvido no âmbito do Mestrado em Cuidados Paliativos da FMUP apontar para a dificuldade das equipas médicas reconhecerem a proximidade da morte dos pacientes, “limiar em que morte deve ser encarada como natural e evitar o prolongamento de intervenções médicas consideradas fúteis”, defende Rui Nunes, professor catedrático da FMUP e um dos respnsáveis pelo novo programa doutoral.

Para o especialista em Bioética, esta formação avançada pioneira em Portugal e nos países lusófonos visa promover “um acompanhamento mais digno e competente da profissão paliativa”, numa altura da vida em que a prática médica intrusiva deixa de ter vantagem clínica.

Elisabete Delgado, autora do estudo que impulsionou o recém-criado doutoramento, refere que “é difícil reconhecer quando o doente se encontra numa fase de fim de vida”, sendo, no entanto, fundamental ter essa percepção para que as equipas possam prestar cuidados adequados à situação.

Rui Nunes afirmou ao Expresso que este diagóstico é ainda importante para ajudar a família a lidar com o a proximidade do luto, depois de até final do século XX a medicina ter tido por foco dominante a inovação clínica e não a inevitabilidade da morte.

O trabalho teve por amostra 31 pacientes internados no serviço de medicina Interna de um dos maiores hospitais portugueses, que permitiu concluir que, nas últimas 72 horas de vida, 84% dos doentes tinham antibióticos prescritos, 77% realizaram análises sanguíneas, 61% realizaram gasimetria e 19% foram submetidos à colocação de cateter venoso central, enquanto a adoção de medidas de conforto “só foi tomada num momento muito próximo da morte”.

Rui Nunes sustenta que a sociedade atravessa uma mudança de paradigma no setor da saúde, vindo o novo doutoramento ocupar “uma importante lacuna face à procura neste tipo de formação em todo o país”, que obrigava os estudantes a recorrer a formação a nível de doutoramento apenas em universidades estrangeiras, “sobretudo nos países nórdicos e EUA, os que mais cedo deram prioridade aos cuidos paliativos”.

O novo programa doutoral em cuidados paliativos vai arrancar com núcleo de 10 candidatos, nove portugueses e uma médica do Hospital Central de Maputo, e terá a duração de cerca de três anos, a funcionar em período pós-laboral. Todos os anos, irão abrir vagas para novos formandos, sendo a especialidade promovida em parceria com outras instituições universitárais e de saúde a nível nacional e intermnacional do espaço da lusofonia e também anglo-saxónicas.