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“Do outro lado não há mulheres e homens. Só pessoas iguais”

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Frazer Harrison / Getty Images

Nasceu Robert Arquette, o segundo irmão mais novo da família Arquette, e tornou-se ator tal como os irmãos. Ainda era muito novo quando se assumiu homossexual – e duvidou de que apenas isso o tornasse “diferente” do resto das pessoas. Durante a sua vida, que terminou de forma precoce este domingo, foi conhecido por ser ator de pequenos papéis até mudar de sexo e se revelar Alexis, atriz e ativista dos direitos LGBTQ. Alexis morreu calmamente, ao som de David Bowie e rodeada pela família que tanto a admira: “Foi o nosso grande professor. Enquanto fez a transição para se tornar uma mulher, descobrimos o que é a verdadeira coragem e a grande verdade: o amor é tudo”

Alexis Arquette morreu este domingo, aos 47 anos, rodeada por familiares que lhe cantaram a canção “Starman”, de David Bowie, antes de partir. Se lhe dissermos que Alexis era atriz e pisou inúmeras passadeiras vermelhas talvez não se lembre imediatamente de um filme protagonizado por ela, mas a verdade é que a vida de Alexis não se pode resumir simplesmente enumerando as vezes em que apareceu no grande ecrã: ela era conhecida por muito mais do que isso.

Alexis Arquette desafiou as fronteiras do género e da sexualidade – nasceu Robert Arquette, declarou-se gay à família no início da adolescência, mais tarde assumiu-se Alexis Arquette e recentemente expressou dúvidas sobre se teria, realmente, um género – “às vezes sinto-me homem, outras mulher”. Antes de partir, explicou à família que do “outro lado”, para onde sentia que se dirigia, não havia géneros – só “pessoas iguais”, sem nada que as separasse ou rotulasse.

É por isso que importa recordar Alexis por mais do que as participações curtas – mas célebres – em “Pulp Fiction”, em que interpreta uma criminosa mal-sucedida que não consegue disparar contra as personagens de John Travolta e Samuel L. Jackson, ou em “Wedding Singer”, quando veste a pele de uma imitadora de Boy George e entoa “Do you really want to hurt me” para os convidados do casamento. Importa lembrá-la como a ativista e revolucionária que se tornou nos últimos anos da sua vida, atividades que se sobrepuseram à carreira cinematográfica que já era previsível numa família bem conhecida do grande público.

Estou no corpo errado

Robert Arquette nasceu em 1969, em Los Angeles, e nunca sentiu que lhe faltasse liberdade ou abertura para ser quem era e descobrir o que queria. Os pais, a psicóloga Brenda Nowak e o ator Lewis Arquette (filho do também ator Cliff Arquette), seguiam a religião Subud, detalhada pelo próprio Robert em 2000: “Eles basicamente acreditavam em deixar as crianças ser livres. Tudo se concentrava na livre expressão de cada um. Eles não acreditavam em disciplina. Quando éramos pequenos era ótimo. Fazíamos tudo o que queríamos. Fumámos tabaco e erva e depois passámos a outras drogas. Experimentei ácidos. Não havia nada que pudéssemos fazer para chocar os nossos pais”, cita o “The Guardian”.

Kevin Winter / Getty Images

Nessa altura, o plural referia-se aos irmãos, Patricia (vencedora de um Óscar em 2014, por “Boyhood”), David (conhecido pela saga “Scream”), Rosanna e Richmond, todos eles ligados à sétima arte. É também Patricia que recorda, citada pela mesma publicação, o momento em que Robert percebeu, depois de assumir a sua homossexualidade aos pais com apenas 13 anos, que essa não era a explicação para a “diferença” que sentia: “Não é isso que é diferente em mim; não é que eu seja um homem homossexual. É que estou no corpo errado: sou uma mulher”.

Foi precisamente no corpo de um travesti chamado Georgette que interpretou uma das suas primeiras personagens no grande ecrã, no filme de 1989 “Last Exit to Brooklyn”. Mas para além de pequenos papéis em comédias e filmes de terror, a carreira de Robert passou precisamente por assumir papéis de personagens homossexuais ou transexuais, o que frequentemente lhe trouxe dissabores.

Sobre “Threesome”, o filme de 1994 em que interpretou um homem assumidamente homossexual, viria a declarar na imprensa: “O que o filme diz é que se és gay e queres ser respeitado, ficas no armário. Não reveles a ninguém o teu amor e os teus desejos… Mas se assumires vais ter de ser afetado e irritante”. Devido à sua atitude direta e frontal em casos como este, rapidamente passou a ser visto como um “bad boy” do cinema, assumia. “Eu entro e digo: ‘quem é que escreveu esta porcaria?’ Digo mesmo o que penso”.

Foi com outra longa-metragem de um género bem diferente que Robert se mostrou como Alexis ao mundo e se assumiu transexual, chamando a atenção para as necessidades e obstáculos enfrentados pela comunidade transgénero. Em “She’s My Brother”, documentário de 2007 que retrata a sua transição para um corpo e identidade de mulher e que estreou no Tribeca Film Festival desse ano, Alexis declara com a força de sempre: “Ninguém na minha vida vai dizer ou fazer algo que me dissuada de me tornar quem sou”.

Alexis fez questão de cumprir estas palavras, dirigidas à câmara numa cena em que conduzia em direção a uma consulta com a psicóloga que então a ajudava a efetuar a transição. Tornou-se uma ativista reconhecida dos direitos das pessoas transgénero e chegou a participar no reality show “The Surreal Life”, onde chamou a atenção para a sua nova identidade e para os problemas que enfrentava por causa da sua decisão, sobre a qual dizia ser “absolutamente segura”.

Donald Bowers / Getty Images

Um mundo em que é perigoso ser diferente

Foi também pelos anos dedicados à causa que decidiu afastar-se do cinema, esclareceram este domingo os irmãos num comunicado publicado no Facebook. “A sua carreira foi interrompida não pela sua morte mas pela sua decisão de viver a sua verdade e a sua vida enquanto mulher transgénero. Apesar de haver poucos papéis para atores transgénero, ela recusava-se a aceitar papéis que a diminuíssem ou estereotipassem. Estava na vanguarda da luta pelo reconhecimento e aceitação das pessoas trans”.

Este papel de ativista, provavelmente o mais determinante da vida de Alexis, ficou patente nos seus últimos desejos – a família pediu que os fãs doassem não flores ou presentes, mas dinheiro a organizações que apoiem a comunidade LGBTQ. É redutor dizer que defendeu o seu direito a mudar de sexo ou a assumir-se um homem num corpo de mulher – segundo o irmão David, nos últimos anos Alexis terá mesmo começado a duvidar de que existissem, sequer, dois géneros e a “suspeitar” dessa divisão, evitando rotular-se como mulher ou como homem.

A família admirou-a por essa coragem, “num mundo em que é perigoso ser transexual, um mundo largamente impreparado para aceitar as diferenças entre seres humanos, e onde ainda existe violência e hostilidade em relação às pessoas que não compreendemos”, conforme escreveu Patricia Arquette no Facebook. Porque quem gostava dela aceitava-a exatamente como era e como escolhia ser: “Alexis nasceu Robert, nosso irmão. Amámo-lo no momento em que chegou. Mas chegou mais do que como nosso irmão: foi o nosso grande professor. Enquanto fez a transição para se tornar uma mulher, descobrimos o que é a verdadeira coragem e a grande verdade: o amor é tudo”.