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Caso do curso dos Comandos abre polémica entre Estado-Maior e generais do Exército

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Marcos Borga

Dois generais apontaram o dedo à incapacidade de o Hospital das Forças Armadas receber feridos graves no caso do 127º curso dos Comandos. Estado-Maior das Forças Armadas já reagiu a estas declarações e garante que as urgências deste hospital funcionam a 100%, ao contrário do que foi apontado

O Estado-Maior General das Forças Armadas (EMGFA) reagiu ao final da tarde desta terça-feira às declarações de dois generais do Exército, Carlos Branco e Formeiro Monteiro, garantindo que “o Hospital das Forças Armadas (HFAR) dispõe de um Serviço de Urgência com atendimento e Serviço de Observação” e que “possui ainda uma Unidade de Cuidados Intensivos que funciona, tal como o Serviço de Urgência, em regime de permanência (24/24 horas)”.

Num comunicado enviado aos órgãos de comunicação social, em que não são mencionadas diretamente as críticas dos dois generais nem o caso do curso dos Comandos, o EMGFA refere ainda que “sempre que existam situações clínicas que ultrapassem ou excedam a capacidade residente no HFAR, os utentes são encaminhados para outras unidades de saúde, designadamente para os Hospitais do Serviço Nacional de Saúde ou para outros com os quais existam protocolos de colaboração, como, a título de exemplo, o Hospital da Cruz Vermelha ou a Fundação Champalimaud”.

Esta reação surge depois de dois textos escritos por dois generais, a pretexto do caso do curso 127º dos Comandos, em que ocorreram duas mortes e quatro hospitalizações de formandos.

O major-general Carlos Branco, que passou por teatros de guerra como o do Afeganistão e foi subdiretor do Instituto de Defesa Nacional, levantou uma questão: “É aceitável que um hospital militar que devia funcionar como uma reserva da Nação para servir supletivamente as necessidades do país em casos de emergência ou de catástrofe se tenha de socorrer de hospitais civis, em tempo de paz, para internar quatro pessoas?”.

Este oficial garantiu que a hospitalização das vítimas do curso dos Comandos não foi um processo fácil e imediato. “A médica de serviço ao HFAR recusou-se a receber alguns dos pacientes por não ter condições e, portanto, estes tiveram de ser encaminhados para hospitais civis”, escreveu. “O Hospital das Forças Armadas não tem serviço de urgências. Repito, o hospital militar nacional não tem serviço de urgência, fruto das restruturações da saúde militar levadas a cabo pelo governo anterior, naturalmente com cumplicidades no seio da instituição militar.” E acrescenta: “Na prática criou-se um centro de saúde avantajado em vez de um hospital”.

O militar concluiu que colocar toda a responsabilidade dos acontecimentos em cima do Regimento de Comandos é incorrer num "erro grave". É "fechar os olhos aos erros no processo de criação do HFAR que mais uma vez não se mostrou à altura dos acontecimentos". E isto não acontece "por causa da qualidade dos recursos humanos que ali prestam serviço, mas sim pela forma irresponsável, impensada e amadora como foi feita a restruturação da saúde militar". No apuramento das responsabilidades, "a tutela do HFAR não pode ficar imune".

Tal como Carlos Branco, também o oficial-general que chegou a comandar a logística do Exército Joaquim Formeiro Monteiro não teve dúvidas em apontar o dedo ao anterior Governo PSD-CDS.

“Os inquéritos ordenados pelo ministro da Defesa Nacional para esclarecimento do sucedido são indiscutivelmente necessários, mas outros deveriam ser efetivamente obrigatórios para avaliação das responsabilidades políticas, a montante, que levaram ao estado a que as Forças Armadas chegaram, e ao ponto a que os seus militares se encontram sujeitos”, escreve numa mensagem enviada pela Associação de Oficiais das Forças Armadas (AOFA) para cerca de 6500 oficiais (das Forças Armadas, associações socioprofissionais de sargentos e de praças, bem como de ex-combatentes).

Nesta mensagem remetida como um “grito de alma” na quinta-feira, 8 de setembro, mas que só esta semana foi tornada pública, Formeiro Monteiro, ao ter tomado conhecimento pela comunicação social de que somente dois militares – “aparentemente os casos menos graves” – foram internados no HFAR, lançou uma série de perguntas.

“O HFAR não tinha (não tem) capacidade instalada para responder, por inteiro, à situação ocorrida? Se esta é a resposta do HFAR em tempo de paz, como seria a mesma em tempo de crise ou de guerra? Para que serve o HFAR?”, questionou o oficial-general na reforma que atualmente preside à assembleia-geral da AOFA. “A desconstrução do Serviço de Saúde Militar e dos seus Hospitais de referência, levada diligentemente a cabo pela tutela política do governo anterior, julga-se que poderá dar a competente resposta, com um elevado grau de confiança”, escreveu Formeiro Monteiro, que, contactado pelo Expresso, nada mais quis acrescentar ao seu “grito de alma”.

José Pedro Aguiar-Branco, o anterior ministro da tutela, não quis prestar declarações ao Expresso sobre o caso.

  • Mortes nos Comandos levam generais a acusar anterior Governo

    Os generais do Exército Carlos Branco e Formeiro Monteiro criticam abertamente o anterior Governo por ter “desconstruído” o Hospital das Forças Armadas. E dizem que os graves incidentes no 127.º curso dos Comandos, que resultaram em dois mortos e quatro hospitalizações, demonstram que este hospital não tem hoje capacidade para tratar os feridos graves