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Vem um coração a caminho. Está um coração nas mãos da médica. Está um coração dentro de mim

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josé carlos carvalho

João Assis acordou uma noite e pensou que era a última. O coração tinha falhado. Uma e outra vez. Estava no fim e só um transplante o podia salvar. O repórter fotográfico José Carlos Carvalho acompanhou-o durante meses na luta de uma vida. Contra a morte

TEXTO João Assis (depoimento recolhido e escrito por Ricardo Marques) FOTOS José Carlos Carvalho

O bombo soa como o coração. Já toquei acordeão, saxofone. O bombo bate como o coração. Às vezes mais rápido - repara como a minha mão toca na mesa – às vezes mais lento, mais pausado. Repara na minha mão e como bate na mesa. Chamo-me João Assis. Tenho 48 anos.

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Eram quatro horas e meia até Urra, Portalegre, onde nasci e onde vivi, miúdo, muito poucos anos. Íamos num Ford Cortina. O meu pai a conduzir. Eu no banco de trás. Depois viemos morar para aqui, para perto de Cascais. Mas voltávamos lá às vezes. A Urra. No Cortina.

Eram quatro horas e vinte quando acordei e custava-me respirar. Tinha os braços dormentes e não conseguia levantar-me. Pensei, por instantes, que se me virasse para o lado passava. Não passou. Não me virei. Rebolei da cama para o chão e fiquei de joelhos. Tentei pôr-me de pé e disse ao meu pai que talvez fosse melhor irmos ao hospital. Estava acordado.

Na véspera tinha sido um dia normal. Trabalho. Autocarro. Estrada. Dois maços de tabaco, PalMal vermelho. Agora que penso nisso tinha ficado decidida nesse dia a data da consulta da medicina do trabalho. Já tinha feito os exames. A véspera foi uma terça-feira, 13 de novembro de 2012.

Foram vinte minutos até chegar ao hospital de Cascais. Lembro-me de ver as horas no relógio do carro. Não estava a sentir-me bem. Caí para o lado. Foi a primeira paragem cardíaca que tive nessa noite. Era quarta-feira. Hoje sei que tive sorte. Quem me atendeu percebeu que a situação era grave. Podia ter sido diferente. E se tivesse sido diferente?

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Passaram mais 40 minutos e dou entrada no Hospital de Santa Cruz. Acordei na ambulância. O meu coração parou outra vez e entrei em coma. Estar em coma é como dormir, dormir um sono tranquilo. É morrer. Não vês nada, não ouves nada. É escuro. Não há luzinhas. Esquece isso. É escuro. Foram seis dias, mas pareceram-me horas. Sei que acordei agitado ao quinto dia e que falei com uma auxiliar. “Quando acordares, eu vou estar aqui”, disse-me ela. Estava demasiado agitado. Induziram o coma artificialmente.

O meu corpo foi parando. Os rins, fígado e os pulmões pararam. Quando acordei, tinha um coração nas mãos. Chamam-lhe Berlin Heart e é uma máquina que posso empurrar. É um coração que está ao meu lado, quando me deito, e que empurro quando caminho. O que me impressionou mais foi o som, aquele barulho da máquina: tac-tac-tac-tac. O teu coração cá fora a bater. Como um bombo.

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Aprendi tarde a tocar bombo. Ia levar o meu filho às aulas de músicas e ficava ali à espera, sem fazer nada. Aprendi a tocar bombo nos intervalos da música. O meu bombo marca o ritmo das músicas, não é tão exigente como o que tocam o meu filho e o professor dele, que um dia nos convidou para tocar num festival. Era longe, mas não pagávamos nada. Fui. Lá fui, com os miúdos, tocar num palco. Tum – tum – tum. O bombo. O coração. Os ponteiros do relógio. Tudo é tão parecido. Está a chover lá fora. Está frio e eu tenho tosse.

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Fui o primeiro doente a passear nos corredores da unidade de cuidados intensivos com o Berlin Heart. Foi uma vitória. Antes tinha conseguido levantar-me para ir ao lavatório lavar os dentes. Foi uma vitória. Antes tinha conseguido levantar-me para ir até ao cadeirão fazer as refeições. Foi uma vitória. Quando cheguei estava deitado. Isolado. Para não ser derrotado. Para sobreviver.

Passou o natal, acabou o ano, começou o ano. O relógio marcava cinco da tarde. Dia 3 de janeiro, cinco da tarde. A médica, Maria José, abeira-se da cama e diz-me que vou ser transplantado. Cinco da tarde. Três horas depois estou no bloco. Estou deitado. Depois já não estou lá. O meu corpo está deitado e os médicos estão ali. Vem um coração a caminho. Está um coração nas mãos da médica. Está um coração dentro de mim. São duas da manhã. Dia 4 de janeiro, duas da manhã. Estou de volta ao meu quarto. A recuperação começa agora. A vida recomeça.

Não sei a história do meu coração. Não devo saber.

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Estou em casa hoje. Cheguei a casa a 2 de fevereiro de 2013. Tenho duas caixas com medicamentos. Foi bom voltar a casa, mas custa muito. É preciso reaprender a viver. No primeiro mês é proibido fazer tudo. Cuidado. Com o que comes, com o que bebes, com o que respiras, com o que vestes. A vida mudou. Fiz o transplante há dois anos. Já depois da operação conheci um homem de 73 anos que vivia com um coração novo há trinta anos. Ele fazia algumas asneiras. As asneiras devolvem-te à condição de pessoa normal. Conheço um outro que joga ténis. Eles aprenderam. Eu ainda estou à aprender. Mas também tento ajudar os outros, os que foram transplantados depois de mim. É importante.

Deixei de trabalhar. Não posso conduzir o autocarro. Não posso estar fechado com tantas pessoas. Não posso correr riscos. Não posso deixar que os outros corram riscos. Deixei de trabalhar.

Há um ano, a médica deixou-me tocar bombo outra vez. Foi mais do que isso. Deixou-me andar na rua a tocar bombo. Pela primeira vez. Foi uma arruada numa terra chamada Almalaguês. Há lá uma capela que começou a ser construída em 1634. A capela de Nossa Senhora da Alegria. Foi isso que senti. Alegria. Andar na rua a tocar, visitar as adegas, conviver. Tocar bombo. Tum-tum-tum. O coração a bater. O bombo é pesado, o ar é puro. E eu carrego o bombo pelas ruas da terra e isso faz trabalhar esta linda e forte máquina que me implantaram.

Chamo-me João Assis. Fui transplantado há três anos.

Texto publicado originalmente na edição de 3 de setembro da revista E