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“Vamos investir €200 milhões na mobilidade”

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José Carlos Carvalho

Antecipando a Semana Europeia da Mobilidade (SEM), que decorre de 16 a 22 de setembro, o Expresso falou com o secretário de Estado que tutela esta área no Ministério do Ambiente. José Mendes quer ver mais gente a andar de bicicleta em Portugal e diz que o Estado está a investir milhões para que as pessoas se desloquem de modo mais sustentável nas cidades

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Este ano, apenas 35 municípios aderiram à SEM. A que se deve esta falta de mobilização?
Uma coisa é o simbolismo de criar eventos como o “Dia Sem Carros”. Outra é o esforço feito todo o ano para termos uma mobilidade mais sustentável.

Portugal faz esse esforço?
Acho que sim. A área dos transportes urbanos e da mobilidade passou para o Ministério do Ambiente, o que significa um olhar mais preocupado com a sustentabilidade. Ao nível dos municípios fecharam-se os contratos dos programas estratégicos de desenvolvimento urbano, dando-lhes instrumentos financeiros para implementarem os planos para a mobilidade urbana sustentável, incluindo a aposta na mobilidade ciclável.

Quanto vão investir?
Só para a mobilidade sustentável poderão ser aplicados cerca de €200 milhões em todo o país. Serão disponibilizados cerca de €60 milhões do POSEUR para a renovação da frota de transportes coletivos com veículos elétricos e a gás. Temos veículos muito envelhecidos e poluentes.

Falam na aposta na mobilidade elétrica, mas reduziram os incentivos à compra de carros elétricos.
O driver da mobilidade elétrica não passa por nós suportarmos o valor de aquisição. É a indústria automóvel que deve incentivar a sua massificação.

Querem atrair a Tesla Motors para investir em Portugal?
A Tesla está no topo da inovação em termos de veículos elétricos e das redes de supercarregamento. Tem uma rede na Europa que chega até Valência e quer estendê-la a Portugal. Ainda não há calendarização, mas a ideia, numa primeira fase, é instalarem três estações de carregamento em Portugal.

Cá, menos de 1% anda de bicicleta. A média europeia são 7%. E somos o terceiro maior produtor de bicicletas.
Estamos a produzir bicicletas para vender para fora. Cá, as pessoas utilizam-nas mais para desporto.

O que pensa da multiplicação de ciclovias?
O debate é intoxicado pelas ciclovias. Mas o game changer em mobilidade ciclável não vai ser a infraestrutura porque não há recursos. O game changer está no comportamento, no ter consciência de que hoje somos ciclistas e amanhã somos automobilistas na mesma estrada; e em formar as pessoas, começando pelos mais jovens.

Refere-se ao U.Bike, dirigido às universidades?
O U.Bike prevê 3234 bicicletas para 15 universidades e um investimento, nesta fase, de 6,1 milhões de euros. Esta verba inclui bicicletas, manutenção e lugares de parqueamento. A 16 de setembro vamos assinar os contratos com as universidades e o IMT. No início de 2017 veremos mais estudantes a circular em bicicletas. É uma semente. Queremos por mais pessoas a andar de bicicleta. Também está a ser desenhado um projeto para o ensino básico que inclui ações de sensibilização e aprendizagem prática para o uso da bicicleta. Queremos que os miúdos percebam que a bicicleta é uma opção para o futuro.

Como atrair mais gente para os transportes públicos?
Queremos alargar o apoio tarifário, havendo disponibilidade orçamental. Queremos manter os passes sociais, o intermodal de Lisboa e o Andante do Porto. Este ano alargámos o Passe Social+ a todo o país. Exige um esforço de mais €7 milhões. Também mantemos o apoio ao passe escolar. Com tudo isto o Estado gastará perto de 150 milhões de euros por ano.

Querem descarbonizar o país?
O objetivo é a descarbonização. É preciso limitar a 2° C o aumento da temperatura média no planeta, como definiu a COP21 de Paris e só se consegue esse objetivo limitando as emissões de CO2. Em Portugal o objetivo é cortar 14% das emissões até 2020, e só no sector dos transportes 20%. Por isso precisamos de novas frotas e de andar mais de bicicleta. Acredito muito na mobilidade elétrica em Portugal.

O ACADÉMICO CICLISTA

O académico que passou a tutelar as áreas da mobilidade urbana, habitação e reabilitação urbana e das políticas de cidades, é também um aficionado ciclista. Aos 54 anos, José Mendes mantém o gosto pela bicicleta de montanha e pela prática de triatlo, mas só ao fim de semana e nas férias. Natural de Braga, ocupou a cátedra de Sistemas Regionais e Urbanos na Universidade do Minho, onde também foi vice-reitor até ser chamado para o Governo. Entre vários estudos e livros conta no currículo com a autoria do livro “O Futuro das Cidades”.