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Um cronista invulgar

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36 anos. Exemplo do diário que Thomaz de Mello Breyner manteve entre 1 de janeiro de 1897 e 21 de outubro de 1933

ARQUIVO NACIONAL DA TORRE DO TOMBO

O diário escrito por Thomaz de Mello Breyner, nascido há 150 anos, faz um relato vivo e colorido dos últimos dias da monarquia, da I República e dos começos do Estado Novo

Margarida de Magalhães Ramalho

A 2 de setembro completaram-se 150 anos sobre o nascimento de Thomaz de Mello Breyner, um homem invulgar que, sem o saber, acabou por ser um cronista da vida portuguesa recente. O Arquivo Nacional da Torre do Tombo homenageia-o com uma exposição biográfica intitulada “Um conde entre os lentes e um lente entre os condes”, que se inaugurará no dia 28.

Thomaz de Mello Breyner, 4.º conde de Mafra, por posição social e por profissão conviveu com os ‘maiores’ da sua época mas também com os mais humildes e desgraçados. A sua morte, em 1933, foi profundamente sentida por todos os que privaram de perto com ele, desde a rainha D. Amélia, exilada em França, às meretrizes que tratava com desvelo e dignidade na sua enfermaria do Hospital do Desterro, em Lisboa, passando por artistas como Almada Negreiros ou intelectuais como Reynaldo dos Santos.

Deixou dois volumes de “Memórias”, publicadas na década de 1930, e um diário notável que manteve ao longo de 36 anos consecutivos, entre 1 de janeiro de 1897 e 21 de outubro de 1933. Por ser meticuloso e “um príncipe do espírito”, como o designou Reynaldo dos Santos, os escritos de Thomaz de Mello Breyner são um testemunho fascinante do final da monarquia, I República e advento do Estado Novo.

Entre 1993 e 2002, foram publicados, em edição de autor, pelo seu neto Gustavo de Mello Breyner Andresen, os anos de 1902 a 1913, relativos ao final da monarquia e início da República, com o título “Diário de um Monárquico”. Mas os outros 24 volumes continuam por publicar. Aproveitando a passagem em 2016 de 150 anos da data do seu nascimento, a família depositou-os no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, onde podem ser consultados mediante autorização prévia.

O meu primeiro contacto com estes diários, fez-se em 1995, quando eu comissariava a exposição “D. Carlos de Bragança, a paixão do mar” (Museu de História Natural, 1996), no âmbito da Expo-98. Nessa altura, conheci pessoalmente, na Praia da Granja, o professor Gustavo de Mello Breyner Andresen, neto, como se disse do conde de Mafra. Detentor, por herança, dos diários do avô, foi graças ao seu trabalho de transcrição e anotação que os primeiros volumes puderam ser publicados. Nesse encontro desafiei-o a juntar todas as referências que encontrasse, entre 1898 e 1909, das viagens realizadas por Thomaz de Mello Breyner com o rei D. Carlos a bordo dos vários iates “Amélia”, nos quais o monarca levou a cabo as primeiras campanhas oceanográficas portuguesas. O desafio foi aceite e, no âmbito dessa exposição, esse volume extra foi publicado.

Em 2014, voltei a contactar a família no sentido de poder ter acesso a esse espólio e ver como Thomaz de Mello Breyner encarara a participação portuguesa na I Guerra Mundial. Graças a Teresa Andresen, à sua cunhada Ana Andresen e, sobretudo ao seu sobrinho Xavier Dias Marques Andresen, detentor, entretanto, desses diários, pude ler integralmente os volumes de 1914 a 1918. Alguns excertos foram então publicados no 7º volume da obra “A Primeira Guerra Mundial”, editada e distribuída pelo Expresso. Com os volumes já depositados na Torre do Tombo, voltei a consultá-los para este artigo, dando especial atenção aos anos de 1919 a 1933.

Escritos ao correr da pena, estes diários mostram a atenção de Thomaz de Mello Breyner a tudo o que o rodeava, mesmo os pormenores mais simples, como o estado do tempo. Pela forma como foram escritos, pela quantidade e variedade de informação, pelo meio social e profissional em que Mello Breyner se movimentou e, sobretudo, por constituírem um registo diário de 36 anos, são um dos testemunhos históricos mais importantes da vida portuguesa entre 1897 e 1933.

Se os diários são, de facto, notáveis, o mesmo se pode dizer da vida do 4.º conde de Mafra.

ÁLBUM DE FAMÍLIA. Thomaz de Mello Breyner em 1909

ÁLBUM DE FAMÍLIA. Thomaz de Mello Breyner em 1909

d.r.

Thomaz de Mello Breyner nasceu, há 150 anos, em Lisboa, na Rua da Costa do Castelo nº 42, no dia 2 de setembro de 1866 no seio de velhas famílias aristocráticas apoiantes de D. Pedro IV. Era filho do coronel Francisco de Mello Breyner, comandante do regimento de Caçadores 5 e de Emília Pecquet da Silva. Foi um filho tardio. Poucos anos antes do seu nascimento, o casal, que já tinha quatro filhos, sofreu um rude golpe com a morte, num espaço de dias, das duas filhas mais novas, ambas vítimas de difteria. Como seria de calcular, o nascimento desta criança, depois de tamanha tragédia, veio trazer um novo ânimo à família.

Contudo, três anos depois, o pânico instalou-se de novo quando o jovem Thomaz foi acometido por uma febre cerebral. O pai, desesperado, nunca abandonou a sua cabeceira. Passado o perigo, o progenitor decidiu que a criança, que ficara muito debilitada, precisava “de muito de comer e nenhuma instrução”. Começava então, para o ‘ai-jesus’ da família uma infância de “folgança” que vai durar quase até aos 14 anos.

Apesar dos protestos dos filhos mais velhos, os pais vão levá-lo, a partir dessa altura, para todo o lado, mesmo para festas ou receções onde não era habitual irem crianças. Sobre isso escreveria o próprio Mello Breyner nas suas “Memórias”: “Fui, como mais de uma vez tenho dito, um menino ‘estragado’ e constantemente mimado por uns paes muito parecidos com avós. Levavam-me para toda a parte sem se importarem com os protestos de meus irmãos mais velhos e d’outras pessoas. (…) umas vezes adormecia no sofá (…) outras vezes espertinava e punha-me a dar fé de tudo (…) E como Deus me deu uma razoável memória lembro-me agora de tudo.”

Será por esta razão que, ainda muito novo, Thomaz de Mello Breyner iria conhecer na Corte o rei Afonso XII de Espanha e o príncipe de Gales, futuro Eduardo VII, e em casa do magnata Pedro Duapiás, a atriz francesa Sarah Bernhardt e intelectuais portugueses como Alexandre Herculano, Bulhão Pato e Eça de Queirós.

Apesar desta infância mimada, Thomaz de Mello Breyner tornou-se, em adulto, um homem culto, amável e generoso, conhecido de todos pela sua bondade e sensibilidade. Por essa razão era um opositor à pena de morte, que considerava uma infâmia “seja para quem for” e das touradas de morte. “Quando passei pelo Campo Pequeno estava a Praça de Toiros iluminada. Havia corrida com toiros de morte. Tanta alegria para ver matar! Que selvagens!”

Em 1897, o professor Sousa Martins — a quem hoje muitos atribuem foros de santidade — esteve em Veneza, representando Portugal num congresso internacional sobre a peste bubónica. Escreveu então a outro médico sobre o jovem colega Thomaz de Mello Breyner que o acompanhara: “Particularmente é o melhor dos rapazes. Possue a nobre e santa faculdade de se admirar sinceramente, é d’estes a quem um bello verso, uma figura elevada, uma acção grande fazem humedecer os olhos de ternura. No sentir tem a mais absoluta indiferença pelo pedantismo triunfante, a mais rija indignação só lhe vem deante do egoísmo burguez. É uma espécie de Flaubert educado, tal como o descreveu o grande Eça.”

ÁLBUM DE FAMÍLIA. O médico no jardim de sua casa com o cão

ÁLBUM DE FAMÍLIA. O médico no jardim de sua casa com o cão

Fotografia Arquivo Nacional da Torre do Tombo

Durante a meninice, dada a proximidade entre a sua família e a casa real, seria o grande companheiro de brincadeiras dos príncipes D. Carlos e D. Afonso — de quem se tornou amigo fiel até ao fim da vida. Com eles brincou nos areais do Restelo, subiu aos telhados da Ajuda (o que lhes valeu uma forte reprimenda do rei D. Luís) e andou de patins nos corredores de Mafra. A amizade que sempre o uniu aos príncipes contribuiu, sem sombra de dúvida, para o amor e a dedicação que nutriu pela causa monárquica até ao final da sua vida.

Mas se os príncipes eram verdadeiramente seus amigos o mesmo não acontecia com outros meninos que frequentavam a Corte. Contava Mello Breyner nas suas “Memórias”, que um dia, durante uma festa de Carnaval no Palácio da Ajuda, foi alvo de perseguição, ou bullying como hoje se costuma dizer. Filho de um militar que vivia do seu soldo, apesar da sua ascendência ilustre, Mello Breyner compareceu na festa vestido de Pierrot “com um traje de panno patente feito por costureira modesta”. Algumas crianças presentes, preconceituosas, como só elas sabem ser quando imitam os adultos, apuparam-no e “um deles até me rasgou o casaco e todos me troçavam por eu não cheirar a água-de-colónia”. Valeu-lhe a rainha D. Maria Pia que, ao aperceber-se do que se passava o levou pela mão, enxugou-lhe as lágrimas com o seu lenço e levando-o aos seus aposentos, compôs-lhe o fato e encharcou-o com o seu melhor perfume. Concluía Mello Breyner que nunca poderia esquecer a imagem da cabeleira fulva da rainha e do vestido de veludo roxo que usava nesse dia.

A sua instrução foi, como se referiu, durante algum tempo negligenciada. Assim, só aos 14 anos faria o exame de instrução primária. Isso não o impediu de ser um aluno determinado tendo completado em três anos o curso dos liceus (normalmente de seis anos). Em 1882, já com o curso de medicina terminado, vai para França, onde trabalha, durante um ano em dermatovenerologia, área na qual, posteriormente, se viria a especializar. Entretanto casa-se com Sophia Burnay — filha do 1º conde Burnay, um dos grandes empresários portugueses da época — com quem irá ter nove filhos.

Em 1893, é admitido como clínico dos Hospitais Civis de Lisboa e nomeado médico da casa real, cargo que manteria até ao final da monarquia. Em 1897, quando começa a escrever o diário, é nomeado diretor da consulta das “moléstias vergonhosas” (sífilis e outras doenças venéreas). Em 1906, é transferido do Hospital de São José, onde até aí trabalhava, para o do Desterro, assumindo então a direção da Enfermaria de Santa Maria Madalena, reservada às prostitutas de Lisboa.

A 2 de outubro de 1921, numa reportagem do jornal “O Século” sobre os Hospitais Civis de Lisboa, dava-se conta do estado deplorável em que se encontravam os hospitais lisboetas. “Enfermarias sem condições nenhumas num abandono imperdoável, sujas, com um ambiente doentio, telhados em reparação há anos sem que as obras terminem e dando assim ocasião a que chova lá dentro. (...)”

Para Mello Breyner, que era entrevistado durante a visita do repórter ao Hospital do Desterro, essa situação era inadmissível. Por essa razão lutara para melhorar as condições da enfermaria que dirigia e que acolhia as mais “desventuradas das criaturas”. A diferença é referida pelo articulista. “Vê-se ali a melhor e boa ordem. Até é notável a correcção do pessoal de enfermagem, solicito em acudir à chamada de qualquer doente; os próprios doentes sorriem à chegada do médico que lhes fala carinhosamente, como um amigo. Mostramo-nos admirados com o contraste entre esta enfermaria e as outras.”

A explicação para este pequeno milagre era, segundo Mello Breyner, simples. “Tudo se deve aos meus amigos que me proporcionam os meios de dar às minhas doentinhas algumas comodidades. Esta enfermaria foi mandada pintar, à sua custa por um construtor civil, o sr. Manuel Trigo cujo retrato aqui está. Foi uma prova de gratidão sua para comigo. Num tempo em que ainda as suas posses eram poucas, tratei-o eu neste hospital de uma grave enfermidade. Passados anos voltou, viu o estado deplorável em que a enfermaria se achava e pagou-me o tratamento que lhe dispensara mandado pintar a óleo os tetos e as paredes (...) O meu amigo Grandella ofereceu roupas, talheres pratos e guardanapos e D. Aurora Macedo ofereceu três tinas para banhos [as doentes para se lavarem tinham de ir a um subterrâneo infeto].”

Também o arranjo da casa de banho fora oferecido pelos próprios pedreiros que lá haviam trabalhado. Mas mais importante do que tudo eram as centenas de ampolas 914 de neo–salvarsan, único medicamento então eficaz no tratamento da sífilis, oferecidas pelo farmacêutico Teixeira Lopes. O jornalista de “O Século” explicava: “o médico receita-lhe o neo-salvarsan. A doente é pobre, não pode adquirir a ampola do medicamento que é caro. O hospital não o fornece igualmente porque não tem dinheiro. Mas a beneficência particular acode a estes desventurados”.

ÁLBUM DE FAMÍLIA. Visita do rei D. Manuel a Inglaterra em 1909 (TMB é o 2º a contar da esq. na terceira fila)

ÁLBUM DE FAMÍLIA. Visita do rei D. Manuel a Inglaterra em 1909 (TMB é o 2º a contar da esq. na terceira fila)

Fotografia Arquivo Nacional da Torre do Tombo

Mello Breyner aproveitou a ocasião para chamar a atenção para este grave problema. “Em toda a parte é o Estado que fornece estes remédios — diz-nos o ilustre médico. Os governos belgas, franceses, alemães, italianos, ingleses e espanhóis dão gratuitamente estas ampolas de 914 a todos os clínicos que lhas requisitem. Em Portugal deixam-se morrer os avariados porque os governos não nos dão cinco reis para neo-salvarsan (…) há muita boa vontade, mas nada se pode fazer sem dinheiro. Todos os diretores dos hospitais manifestam sempre a maior boa vontade mas não lhes dão dinheiro. Este hospital está deplorável… Perdão, retiro a frase. A ordem de serviços não me permite dizer mal. … há 29 anos que ando a reclamar e nenhum caso fazem de mim.”

No final do artigo ainda se fica a saber que o Hospital do Desterro, além das precárias condições de higiene, não tinha cirurgião à noite, nem farmácia, nem mesmo eletricidade... e como concluía amargamente Mello Breyner “se tivesse [cirurgião] para que serviria se não há luz, nem electrica, nem de gaz, nem de petróleo, nem de vela, nem de azeite, nem de fósforo?”

O ano de 1921 seria também aquele em que Mello Breyner era aprovado no concurso para professores, passando a reger a cadeira de Sifilologia. A maior parte dos seus alunos serão rapazes, mas o professor também vai ter alunas. A 20 de março de 1926 escreveria: “Às 9 h a.m. em ponto comecei os exames que duraram até ao meio-dia. Aprovei nove rapazes e uma rapariga chamada Alda Pamplona que teve 18 valores”, e ao lado, em jeito de nota escreveu “Muito boa”.

Apesar de ser claro através das páginas do seu diário que tinha uma intensa vida familiar e social, a maior parte do seu dia era dedicado à profissão, utilizando as manhãs para ir ao hospital (onde ia mesmo aos fins de semana e feriados) e/ou à Escola Médica. À tarde ia ao consultório. Esta rotina só era alterada em caso de doença, por estar a viajar ou quando uma revolta mais acesa não lhe permitia sair de casa. Foi o que, por exemplo, aconteceu a 2 de dezembro de 1917 quando Sidónio Paes tomou o poder.

“(...) Há notícias alarmantes sobre desordens no Porto e em Coimbra. (...) às seis e meia, quando vinha perto de Santa Marta, uma descarga. Logo calculei que seria o princípio da anunciada revolta militar e não me enganei. Andei logo para caza. Cheguei às 7 h aqui e pouco depois começou o canhoneio do Parque Eduardo VII. Parece que está artilharia com alunos da Escola de Guerra, Infantaria 16, Cavalaria 7 e Engenharia. Lutam contra a Guarda Republicana. Andam civis armados, mas diz-se que estão contra o Governo. Vá lá saber-se. A Marinha por enquanto não se manifestou. À meia-noite o canhoneiro e as descargas de fuzilaria continuavam com violência. O que virá de tudo isto? Não sei mas suponho que d’esta vez a revolta vae dar que fazer ao Governo. Diz-se que o Sidónio Paes a manobra.”

ÁLBUM DE FAMÍLIA. Ensaio no Palácio das Laranjeiras do bailado “O Jardim da Pierrette”, em 1918, uma criação de Almada Negreiros, que também desenhou o guarda-roupa

ÁLBUM DE FAMÍLIA. Ensaio no Palácio das Laranjeiras do bailado “O Jardim da Pierrette”, em 1918, uma criação de Almada Negreiros, que também desenhou o guarda-roupa

Fotografia Arquivo Nacional da Torre do Tombo

No dia 6, escrevia: “Ninguém dormiu em caza, toda a noite tiroteio. Quando rompeu o dia começaram os assaltos às lojas em toda a cidade. Em que dará tudo isto? Às 3 h dizia-se que tinham desembarcado os marinheiros e que se rendera a Guarda Republicana do Carmo. Ninguém saiu de caza. Ficaram cá o Amaral e o Diniz. Estamos sem notícias do Porto nem de Coimbra. Uma situação desagradável. Durante a tarde continuou o bombardeamento entre terra e mar. Estamos quasi na linha de fogo. Só se vê passar gente pobre com sacos e caixas de coisas roubadas nas lojas assaltadas. À noite serenou um pouco o duelo de artilharia. A soldadesca embebedou-se e disparou tiros para o ar constantemente. Nas ruas não há um candeeiro aceso. Ouve-se passar gente. Aqui estamos à mercê d’uma granada que nos incendeie a casa ou d’uma pilhagem.”

Até à viragem do século, a maior parte dos acontecimentos relatados por Mello Breyner refere-se a eventos sociais e à vida da corte. À medida que a situação política se deteriora, no final da monarquia, as referências políticas aumentam. A 12 de maio de 1907 escrevia: “Agora vae o João Franco trabalhar ao natural, em ditadura com o seu fato de Briche. A nação portugueza ainda não tem categoria para se governar com o parlamento”.

Meses depois, a 14 de dezembro desse mesmo ano, referia: “O João Franco em quem eu e muita gente pôz tantas esperanças, parece que endoideceu. E o pobre Rei a ter que o acompanhar.” Mas será durante a I República que as suas reflexões vão disparar a propósito, não só da política seguida pelos inúmeros governos republicanos, mas também sobre as revoltas monárquicas, a participação portuguesa na I Guerra Mundial e a turbulência social que se vive, principalmente a partir de 1920 e que inevitavelmente irão desaguar no 28 de maio.

Ao ler o que Mello Breyner escreveu, pese embora retratar o que via pelas lentes de um monárquico convicto e conservador, nada entusiasta do novo regime, percebe-se quão enervante deveria ser viver em Lisboa: governos a caírem a toda a hora, a moeda desvalorizar-se quase diariamente, revoltas, bombas e greves constantes, além de atentados sangrentos como os de outubro de 1921 que vitimaram entre outros, Carlos da Maia, Machado dos Santos e António Granjo.

Eis algumas dessas descrições: “Quando ia para o hospital encontrei um pelotão de cavalaria formado no Rato e depois outro no Rossio. Isto não é greve mas sim desordem sindicalista, a resposta às prepotências do governo. Isto poderá calmar ainda com umas espadeiradas mas fica o germe da revolta.” (20 de janeiro de 1914).

“À noite, às 9 e meia, quando o tal cortejo ia a formar-se, cahiu-lhe o povo em cima destroçando tudo. Na rua do Carmo rebentou uma bomba. O que sahirá daqui? Calculo que a queda do governo, mas quem o substituirá?” (26 de janeiro de 1914).

“Por cá continuam a descompor-se as diferentes facções republicanas em paragonas nos jornaes. Rebentam por aí bombas de dinamite.” (13 de janeiro de 1915).

“(… ) fomos ao Colyseu ouvir a Ópera ‘Loreley’ de Catalani (...) No fim do 2º acto vim para a rua a ver o que havia. Mais motins, lutas, bombas, tiros, correrias, feridos. A balburdia do costume.” (29 de janeiro de 1916).

“Houve com efeito grandes tumultos pelas ruas, tiros, bombas, etc. É o povo protestando contra a carestia dos géneros mas nada fará porque a tropa está com o governo.” (30 de janeiro de 1916).

“Continua o paiz sem governo. Ninguém lhe quer pegar. Agora fala-se de um ilustre desconhecido chamado Domingos Pereira. Dizem que foi ministro. Não cheguei a dar por elle!” (20 de janeiro de 1920).

“Já cahiu o ministério Coelho e veio outro presidido por um ilustre desconhecido chamado Maia Pinto. Quanto tempo irá durar? Continuam no Tejo os navios estrangeiros (os de guerra) tanta é a confiança que têm nesta republiqueta.” (7 de novembro de 1921).

“Cada vez são peiores as notícias das finanças portuguesas. Até já se falla em corrida aos bancos e até em novas revoluções de cores variadas.” (19 de agosto de 1923).

“Ouviram-se salvas de morteiros para festejar o advento e mais um ministério democrático. Ao menos estes quando estão estes em cima há mais socego. Estão satisfeitos e portanto calados. Haja saúde!” (14 de dezembro de 1925).

“Durante a noite ouviram-se tiros e pelo telefone dizem-me que os tiros de granada mandados da outra banda atingiram algumas casas na Costa do Castelo.” (2 de fevereiro de 1926).

“Muitas coisas se dizem sobre política do paiz, mas eu não tenho tempo nem paciência para pensar n’ellas.” (21 de março de 1926).

“Às 10 h p.m. um revolucionário civil que me é dedicado e se chama Aguiar (por alcunha o Carqueija) telephonou-me annunciando um movimento revolucionário militar para a meia noite?!.... que sahirá d’isto tudo?” (27 de maio de 1926).

ÁLBUM DE FAMÍLIA. Thomaz e Sophia de Mello Breyner com os filhos, genros, noras e netos em 1920. Ao colo do avô, a futura escritora Sophia de Mello Breyner Andresen

ÁLBUM DE FAMÍLIA. Thomaz e Sophia de Mello Breyner com os filhos, genros, noras e netos em 1920. Ao colo do avô, a futura escritora Sophia de Mello Breyner Andresen

Fotografia Arquivo Nacional da Torre do Tombo

Como resultado do caos político em que se vivia, iniciava-se em Braga a 28 de maio de 1926 um movimento militar chefiado por Gomes da Costa que rapidamente alastraria a todo o país. Para Mello Breyner, que era amigo de Gomes da Costa, o pronunciamento militar apesar de ser um motivo de esperança não dava qualquer garantia que tivesse vindo para durar. “Às 10 horas ainda não havia jornaes, mas por pessoas vindas do norte sabe-se que a revolta militar dirigida pelo general Gomes da Costa alastra triunfante. Toda a gente está contente excepto os democráticos, como é natural. Tenham paciência, Não pode ser sempre (…) depois do jantar em casa fui à Baixa que estava curiosa: todos os cafés fechados e muita gente na rua. O Luiz Dérouet que é insuspeito, disse-me que o Governo está em terra e o Bernardino provavelmente também. E d’ahi não sei pois hade haver aqui em Lx tentativas para empalmar o movimento militar em proveito d’algum partido político. A ver vamos pois…”

O período da ditadura militar vai merecer-lhe algumas referências nomeadamente o ano de 1931, marcado pela revolta da Madeira e dos Açores, a que se seguiu a última grande tentativa do “reviralho” para acabar com a ditadura. Sobre Salazar, pouca coisa. Apenas uma referência lacónica a um bom discurso deste enquanto ministro das Finanças e outra, datada de 5 de março de 1933: “Quiseram fallar-lhe [a Salazar] mas não houve meio pois elle de tal modo se diviniza que ninguém lhe chega. O Salazar é e tem sido um bom ministro das Finanças, mas desde que tomou a presidência do ministério, afogou-se em trabalho e quer elle fazer tudo, esgotando-se, irritando-se e por fim disparatando. Implica com o exercito, com a marinha, com os padres, com os monarchistas!....”

Mas Mello Breyner não se ocupou só das questões políticas. Além de acontecimentos ligados à sua vida familiar e social refere-se muitas vezes a viagens ao estrangeiro, a personalidades que por cá passaram ou que conheceu. Mereceu-lhe também algum destaque a amizade que os seus filhos mantiveram com José de Almada Negreiros, colega, no Colégio de Campolide, do seu filho Gonçalo. A amizade improvável que o pintor futurista vai manter com algumas das suas filhas, que chegam a participar em vários bailados imaginados, organizados, ensaiados e por ele levados à cena no Palácio das Laranjeiras, à Junqueira (pertencente aos seus sogros) no palácio da Rosa a São Lourenço de Castelo Melhor ou no Teatro da Trindade nunca lhe mereceu qualquer reparo de desagrado.

A 6 de março de 1916 escrevia: “Jantei em caza do meu amigo Júlio Mardel d’onde fui para a sumptuosa festa que os marqueses de Castelo Melhor deram no palácio da Rosa a São Lourenço. Houve uma dança grega composta pelo Almada Negreiros com música do Ruy Coelho. Entraram nella as minhas filhas Theresa, Luz, Conceição e Isabel.” E a 21 de junho de 1918: “Fui à noite ao Trindade ver um lindo bailado em que tomam parte a querida Tatão fazendo de Pierrette. É uma composição d’ella, das pequenas Moraes Amado e das (palavra inteligível), tudo ensaiado pelo Almada Negreiros (José) chama-se ‘O Jardim da Pierrette’.”

ÁLBUM DE FAMÍLIA. As meninas Mello Breyner e outros membros da família vestidos para o bailado “A Princesa dos Sapatos de Ferro”, coreografado por Almada Negreiros (à direita, sentado no degrau)

ÁLBUM DE FAMÍLIA. As meninas Mello Breyner e outros membros da família vestidos para o bailado “A Princesa dos Sapatos de Ferro”, coreografado por Almada Negreiros (à direita, sentado no degrau)

Fotografia Arquivo Nacional da Torre do Tombo

Ainda a propósito de Almada, Mello Breyner escreveria: “Este rapaz tem talento e faz-me a maior pena porque é pobre. Que bem elle desenha! Com que graça!” Ou a 17 de dezembro de 1926: “De lá fui a uma vernissage dos quadros de gente nova. Gostei muito da exposição. Há imenso progresso em relação ao anno pasado, o José d’Almada Negreiros expõe uma linda mulher nua (elle diz que é antes de se vestir). É pintado a óleo. Que tallento elle tem, é pena ter pouco juízo.”

Desde o final da década de 1920 que se percebe que Thomaz de Mello Breyner se sente cansado e que a sua saúde, agravada por preocupações familiares, se deteriora. A morte inesperada da sua querida filha Luz, em janeiro de 1932, vítima de escarlatina, deixa-lhe um vazio que não consegue preencher. No ano seguinte, a trasladação dos corpos do rei D. Carlos e do príncipe D. Luís Felipe, dos caixões onde se encontravam para um novo mausoléu, volta a abalá-lo emocionalmente. Dias depois, a 27 de fevereiro de 1933, escreveria “a minha tristeza preocupa-me, advinha o coração qualquer coisa má”. Era a morte que se aproximava.

A 15 de setembro, dia em que a filha Luz faria 32 anos se fosse viva, Mello Breyner esconde-se durante a missa no coro da igreja e chora “lágrimas amargas”. Dias depois volta a ser chamado ao panteão dos Braganças para assistir à abertura dos caixões de outros membros da família real que iriam também ser trasladados.

A última entrada do seu diário escrita pelo seu punho será a 16 de outubro. Refere que, como de costume, foi de manhã ao hospital e à tarde ao consultório e que pelo telefone esteve a tratar da reorganização médica do seu serviço. No dia seguinte sente-se mal, mas para não deixar de escrever o diário pediu à mulher que escrevesse por ele algumas notas sobre o que lhe estava a acontecer.

No dia 22 de outubro tem uma hemorragia cerebral. Os filhos e os netos são chamados à pressa. Às duas da tarde ainda dá acordo de si. Ao ver a família reunida à sua volta diz “Ah, então sempre é isto!” Pede para abrirem as janelas do quarto para poder ver bem os que ali estavam. Depois, despede-se da mulher que tanto amou, pedindo-lhe que seja ela a fechar-lhe os olhos. Em seguida, despede-se individualmente dos filhos e netos tendo sempre uma palavra boa para cada um. Por fim, pede para chamarem os criados, despedindo-se de todos com amizade e gratidão. Morreria, em paz, no dia 24 de outubro de 1933.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 3 setembro de 2016