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O Mendonça das Marchas

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joão lima

Com ele as marchantes mostraram a barriga e a Avenida da Liberdade ganhou o brilho das purpurinas. Ao longo de mais de vinte anos, Carlos Mendonça, figurinista, bailarino, ensaiador e homem dos sete ofícios transformou as Marchas de Lisboa. Para melhor, atestam as suas várias vitórias. Aquele que era conhecido como “o Mourinho das marchas” morreu esta terça-feira, aos 77 anos. Como canta o fado, hoje Alfama (e já agora, o Alto do Pina) “cheira a saudade”

Se pudesse escolher, talvez Carlos Mendonça preferisse que a tristeza causada pela sua morte fosse esta terça-feira transformada num abanar de ancas ali para os lados de Alfama e do Alto do Pina. Mesmo sem arcos e sem balões, uma despedida feita ao ritmo de qualquer uma das suas marchas não seria coisa para lhe desagradar. Afinal, diz quem o conheceu, o Carlos era pessoa dada a celebrar a vida.

A sua terminou aos 77 anos, por causa de um cancro que lhe passou uma rasteira e se instalou há mais de cinco anos, mas foi longa o suficiente para lhe garantir um lugar no coração de muita gente. No coração de Lisboa, que é um feito ainda maior. Conhecido como “O Mourinho das Marchas”, pelo muito que lhes deu ao longo de mais de duas décadas, ficará para a História como um inovador, alguém que transformou o que a cidade tinha de mais tradicional e característico num espetáculo com brilho renovado, diferente de tudo o que se fazia até à sua entrada em cena.

Quando foi parar à marcha de Alfama “com muito medo”

Outra coisa não seria de esperar de um criador - a palavra define o que os amigos dizem ser nele quase sinónimo de existir -, mesmo que em 1990 Carlos Mendonça tenha ido parar à marcha de Alfama “com muito medo” de aceitar o convite.

Foi um grande salto para o ex-bailarino clássico, que começou como “uma grande brincadeira” aquilo que acabaria por evidenciar um talento fora do vulgar. Ao serviço das marchas, foi ensaiador, figurinista, cenógrafo, letrista, e tudo o mais que o ofício lhe exigiu. O curriculum atesta que a dedicação valeu a pena: estreou-se a ganhar e repetiu o feito mais 12 vezes, com Alfama, mas também em nome do Alto do Pina, o bairro que o viu nascer. E tinha sempre inspiração para mais.

Carlos Mendonça recordava, com bom humor, as críticas e o ‘escândalo’ causado em 1990 quando as marchantes apareceram “com a barriga à mostra e os fatos cheios de purpurinas”

Não que a ousadia tenha conquistado todos ao mesmo tempo. Romper com o tradicional tem os seus custos e Carlos Mendonça recordava, com bom humor, as críticas e o ‘escândalo’ causado em 1990 quando as marchantes apareceram “com a barriga à mostra e os fatos cheios de purpurinas”.

Nunca foi homem para fugir aos desafios, é consensual. Se há coisa que se pode dizer de José Carlos dos Santos Mendonça é que foi um homem polivalente, que deixa obra em várias áreas.

Nascido a 28 de janeiro de 1939, começou a sua carreira ‘artística’ aos 11 anos, aos microfones da Emissora Nacional, onde fazia teatro infantil. Em miúdo, uma amiga que pintava despertou-lhe o interesse pela arte, mas havia de seguir o rumo da dança clássica depois de uma professora de ballet, de uma outra amiga, o ter incentivado a experimentar, por “ter corpo de bailarino”.

Saiu do seu bairro com cerca de 18 anos, tendo acabado por se fixar no Reino Unido, onde se casou com uma bailarina inglesa, a mãe dos seus filhos. Mas, pelo meio, houve que cumprir o serviço militar. Passou pela Guerra Colonial, em África, de onde voltou com a certeza de que tinha chegado ao fim a sua carreira como bailarino.

Em Inglaterra, já com família constituída, fez um pouco de tudo. Carregou sacas numa fábrica e trabalhou numa companhia aérea, até voltar ao trilho das artes, trabalhando como modelo de pintura em troca de aulas sobre a história do traje, como recordou numa entrevista, em 2011.

O seu talento havia de dar nas vistas, o que o levou a trabalhar como assistente de figurinismo, tendo passado pela BBC, pela Granada Television e por produtoras como a Euston Films e a Paramount Films.

O divórcio ditou o seu regresso a Portugal. “Ouvi os sinos da minha aldeia a chamar por mim”, diria mais tarde, ao explicar que não se imaginava a viver sozinho em Inglaterra, por muito que “recomeçar do zero, aos 40 anos”, não se adivinhasse tarefa muito mais fácil.

Já no seu país, trabalhou como figurinista em programas de televisão, musicais e novelas, tendo escrito também vários espetáculos musicais e desenhado vários cenários e figurinos para teatros, como o ABC, Variedades e Maria Vitória. Foi ainda dono de um restaurante, até que o seu estilo inovador o tornou um homem famoso e de méritos reconhecidos, ao serviço das marchas de Alfama e depois do Alto do Pina. Em 2015, deixou publicado em livro,“para a posteridade”, o registo desse seu trabalho, sob o título “As minhas marchas”.

“Há uma certa ideia de que era uma pessoa difícil e com um bocadinho de mau feitio, mas não é verdade. Era, isso sim, muito exigente, o que se refletia na qualidade dos espetáculos e nas marchas que apresentava”, recorda Luís Miguel Ribeiro, um amigo de longa data, que não hesita em considerar Carlos Mendonça um verdadeiro “pai adotivo”.

Era um homem “divertido, que adorava estar rodeado de amigos, um bom conversador, com uma classe ‘à inglesa’ e que sabia receber como ninguém”, diz o amigo Luís Ribeiro

Nem o diagnóstico da doença lhe alterou a personalidade, garante Luís, que o descreve como um homem “divertido, que adorava estar rodeado de amigos, um bom conversador, com uma classe ‘à inglesa’ e que sabia receber como ninguém”.

A mágoa de perder o companheiro

Em 2013, Carlos Mendonça perdeu o companheiro de há vários anos, e com quem se casara em 2011, vindo a público lamentar o que considerou tratar-se de um caso de discriminação. “Sinto-me ofendido e discriminado”, desabafou Carlos Mendonça, depois de um padre ter recusado rezar a missa de corpo presente a Carlos Salgueiro, por este ser homossexual.

Com a mesma frontalidade, esclareceu na sua página no Facebook, a 9 de julho, a frágil situação clínica: “Fiz vários tipos de quimio para dar cabo do bicho e mais recentemente (há dois meses) foram detectadas fracturas de duas vértebras (...) Neste momento estamos em fase de tratamento radio de mais metastase”.

Luís Ribeiro teve oportunidade de se despedir do amigo, no domingo. Já sente saudades. O próximo Santo António, na Avenida da Liberdade, em Lisboa, não vai ser a mesma coisa. Mas vai ter muito de Carlos Mendonça a desfilar. Haverá bairro que duvide?

Reportagem sobre as marchas populares, da autoria de Carolina Reis e Tiago Miranda, publicada no Expresso Diário em 2014. Carlos Mendonça aparece a partir dos 03m05s