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Férias. Era bom mas acabou-se

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Cansaço, tristeza, dores musculares, distúrbios do sono são só alguns dos sintomas que o regresso ao trabalho pode trazer a quem sofre de síndrome pós-férias. Essa adaptação à rotina pode afetar-nos durante duas semanas. Mas há muitas formas de fazer com que o mal-estar seja atenuado

Alexandra Carita

Alexandra Carita

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Jornalista

Ana Serra

Ana Serra

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Getty Images

Quando perguntaram a Sigmund Freud quais eram as coisas mais importantes da vida, ele respondeu: “O amor e o trabalho, o trabalho e o amor.” De facto, o que fazemos e as pessoas com quem nos relacionamos são o que dá significado à vida. Mas, nos dias de hoje, a intensidade do trabalho tornou-se enorme, o que faz com que ora estejamos a trabalhar, ora desfrutemos do convívio com os que mais amamos. Manter o equilíbrio é cada vez mais difícil. No regresso ao trabalho depois de um período de férias, a distância entre os pratos na balança parece um abismo e há cada vez mais quem o sinta física e psicologicamente.

Os especialistas chamam-lhe síndrome pós-férias e dizem que dura cerca de duas semanas. Os sintomas que a caracterizam passam pelo cansaço, sonolência, falta de concentração, taquicardia, dores musculares, distúrbios do sono e do apetite, irritabilidade, tristeza, nervosismo, e ansiedade. Nada de patológico, mas apenas “o nosso organismo a adaptar-se a viver na roda do hamster”, como diz a psicóloga Marta Baptista. Ou, como coloca a questão a psicoterapeuta Cláudia Madeira Pereira, “é o organismo a comunicar-nos que precisamos de nos preparar para a nossa rotina habitual”.

As férias são por norma aquele período do ano em que imperam a descontração e a despreocupação. Estamos desligados das responsabilidades do dia a dia, esquecemos os horários e temos disponibilidade para fazer tudo aquilo de que mais gostamos. É o tempo para o prazer e para o bem-estar. “Uma suspensão da realidade quotidiana”, como descreve Ricardo Vargas, psicólogo social e da área das organizações e CEO da Consulting House, onde “a vida é mais livre, ganha horizontes e outras coisas são possíveis, às vezes mesmo aquelas que adiámos o ano inteiro”. É por isso que, ao regressarmos às limitações diárias, acontece um choque. “Levanta-se o problema de como encaixar de novo a realidade quotidiana”, explica ainda Ricardo Vargas.

A melancolia e a tristeza associam-se à ansiedade de antevermos todas as tarefas que as obrigações laborais nos exigem e chega a apoderar-se de nós a sensação de incompetência — isto independentemente da experiência e do prazer que a nossa profissão nos possa dar. Por outro lado, como sublinha Telmo Baptista, psicoterapeuta e presidente da Associação Portuguesa de Terapias Comportamental e Cognitiva, as férias também nos dão, regra geral, “mais capacidade para dispor do nosso tempo e da nossa autonomia”. “Usamos mais o nosso poder de decisão.” Quando voltamos ao trabalho, “o confronto com as exigências dos outros face a nós próprios provoca uma reação de perda dessa autonomia, o que torna mais difícil o processo de adaptação ao novo ritmo”, adianta o professor, que frisa que não podemos considerar os sintomas sentidos nesse período como “perturbações clínicas”.

O mal-estar que denuncia a síndrome pós-férias ou os “blues das férias”, como também é conhecido, é muito mais comum do que se poderia esperar. Estima-se que quatro em cada dez trabalhadores sofram dos sintomas que lhe estão associados, apesar de a sua intensidade, frequência e duração variarem de pessoa para pessoa, sobretudo se tivermos em conta dois grandes grupos de trabalhadores, como neste domínio, Ricardo Vargas divide a comunidade ativa. De um lado, os profissionais que não se sentem realizados e estão insatisfeitos com a sua vida laboral, pessoas que são afetadas pela síndrome de forma muito acentuada; do outro, os trabalhadores cuja vida profissional os preenche, que vivem com muito menos impacto negativo o regresso ao emprego. Em qualquer dos casos há formas práticas de atenuar os sintomas que atacam ainda em número maior as mulheres, que se veem também sobrecarregadas com um rol mais extenso de tarefas domésticas a cumprir e a braços com uma realidade pessoal mais penalizadora — basta dizer que elas trabalham por dia pelo menos mais uma hora e meia do que os homens.

Dicas para preparar o fim

Planear o regresso ao trabalho é o passo mais importante e o primeiro a ser dado para acionar “a câmara de descompressão” necessária para abrir as portas da rotina depois das férias, explica o psicólogo, e adianta uma série de conselhos.

Reserve entre dois a quatro dias antes de começar a trabalhar para se ajustar ao novo ritmo, regule os horários, vá para a cama mais cedo e levante-se mais perto da sua hora de despertar habitual. Durante esse período aproveite também para visualizar a primeira semana de trabalho. Pense no que seria a semana ideal e no que está ao seu alcance controlar para que seja ideal. Imagine os dois ou três desafios mais importantes nessa semana e idealize a forma como lhes vai responder. Nessa semana não estenda o horário e mantenha algumas atividades ligadas às férias, como estar mais tempo com a família ou manter maior contacto com os amigos, por exemplo. Depois, experimente focar-se mentalmente naquilo que o trabalho lhe pode dar. Não se esqueça que ele lhe permite ganhar a vida, ter conforto, fazer férias, nomeadamente, mas também pagar as contas mensais e manter a sua independência. Dê ainda mais importância às tarefas que o realizam e não dê tanta atenção àquilo de que não gosta. Já no emprego, concentre-se na tarefa que tem em mãos. Sabia que somos mais felizes a trabalhar o mais concentrados possível na tarefa que estamos a fazer no aqui e agora, mesmo que ela não seja prazerosa?

Mas as dicas ou truques para ultrapassar a síndrome pós-férias não se ficam por aqui. Cláudia Madeira Pereira dá como método uma adaptação gradual às tarefas laborais e domésticas, aconselhando a que se comece por fazer trabalhos mais simples, deixando as funções mais complexas para quando os sintomas se dissiparem. Introduzir atividades novas e diferentes, contrariando a monotonia é outra forma de ativar o bem-estar físico e psicológico. Pode ser feito adicionando o lazer a momentos diários e ao fim de semana, indo jantar fora, ou dando passeios a pé, por exemplo. O exercício físico é outra arma para combater o stresse que a síndrome pós-férias faz acumular, ajudando a canalizar a ansiedade e o nervosismo, especialmente práticas de exercício como o ioga ou a meditação.

Por outro lado, ter consciência de que a síndrome é uma realidade que vai melhorar e desaparecer à medida que o tempo passa, diz Marta Baptista, é meio caminho andado para ultrapassar o problema, que também pode ser visto como uma espécie de “versão estendida do mesmo tipo de construção que temos quando o fim de semana nos está a correr tão bem e já é domingo à noite”. A psicóloga adverte que é importante, quando nos sentimos mais em baixo depois das férias, “reviver os momentos e as experiências boas que preencheram os dias de lazer”. Contá-los a alguém ou mandar fazer uma fotografia em papel e pô-la lá em casa, pode ajudar.

Os estudos mais recentes sobre a síndrome pós-férias frisam que são os profissionais mais jovens que a sentem com maior intensidade. Dados que se relacionam diretamente com o amadurecimento do cérebro, como explica Ricardo Vargas. “O amadurecimento do cérebro é progressivo e faz com que vamos controlando melhor as nossas emoções. Sabe-se que essa maturidade estará estável por volta dos 50 anos. Nessa altura, é natural que se lide melhor com as escolhas pessoais que já foram feitas e se tente viver o melhor possível com elas. O que funciona também a nível profissional com a utilização de estratégias já adquiridas. Os mais novos vivem com mais dilemas, tudo está mais em aberto e as urgências nas tomadas de posição são recorrentes.” Para eles fica a máxima de não dramatizar o problema em si, sobretudo no momento em que o estão a enfrentar. Mais importante ainda é não esquecer que “o trabalho é identitário” e que precisamos dele para construir a nossa própria personalidade.

Dois outros fatores determinam ainda o surgimento da síndrome pós-férias e podem fazer com que afete aqueles que chegam aos seus postos de trabalho depois do período de lazer: o número de dias do período de lazer e o grau de exigência e consequente número de horas de cada emprego. Os especialistas são unânimes em considerar mais vulneráveis as pessoas que tiram mais tempo de férias de uma só vez e também aquelas cujos horários de trabalho e nível de responsabilidade se estendem no tempo e na hierarquia. “Um mês de férias, por exemplo, resulta numa mudança de ritmo muito substantiva, que obriga a um processo de adaptação mais complicado e difícil”, diz Telmo Baptista. “O nível de exigência do nosso trabalho é responsável pela acumulação de stresse e antever esse desconforto causa maior angústia no regresso das férias”, explica Marta Baptista.

De qualquer forma, não é caso para se preocupar, “o ser humano tem capacidades de adaptação a todos os ritmos”, e o mal-estar do pós-férias vai desaparecer. No entanto, sublinham os nossos interlocutores, se após 15 dias não se sentir melhor é aconselhável procurar ajuda. A sua síndrome pós-férias pode ser afinal um problema depressivo.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 3 setembro 2016