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Caçadores de famosos

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EXEMPLO. Duarte Roriz mostrando como tirar um “flagrante” numa esplanada

tiago miranda

Ficam noites a fio no aeroporto para conseguirem fotografar famosos em partida para férias. Têm informadores espalhados pelo País, entre idosos nas aldeias, vendedores ambulantes e empregados de restaurante. Uma imagem de José Sócrates a beijar a namorada pode valer largos milhares de euros — uma reportagem publicada originalmente no Expresso/Revista Única de 8 de julho de 2006

Bernardo Mendonça

Bernardo Mendonça

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Jornalista

Tiago Miranda

Tiago Miranda

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Fotojornalista

Chama-lhe “campo de treinos”. Ou “zona de estágio” até ao seu próximo flagrante. Há dois dias que “Guilherme” — nome fictício, pois não quer ser identificado —, conhecido nos meandros da imprensa cor-de-rosa nacional como o paparazzo “Talibã”, está acampado no Parque Natural do Vale Guadiana, na zona de Pulo do Lobo, a poucos quilómetros da vila de Serpa, Alentejo.

O acesso é acidentado e a zona quase deserta. Talvez por isso tenha feito do local um dos seus retiros secretos, perfeito para quando não está à caça da intimidade dos famosos da nossa praça. No correr das horas, e das longas tardes de sol, o obturador da sua máquina fotográfica semiprofissional Cannon 20D dispara para os voos altos da pequena andorinha das rochas, uma espécie muito característica entre a fauna da região. “Estas aves são ótimas para exercitar a fotografia nos corpos em movimento”, explica.

A máquina que aponta para o céu, de custo médio (a rondar os 1.000 euros), desmistifica a imagem do paparazzo artilhado com um aparelho topo de gama e de volumosas lentes de longo alcance. “Não preciso de melhor. Para quê? Já cheguei a ter de deixar máquinas para trás, para escapar à segurança de determinadas festas. Nessas ocasiões, saí porta fora unicamente com o rolo escondido no bolso.”

“GUILHERME” ou “Talibã” em acção

“GUILHERME” ou “Talibã” em acção

TIAGO MIRANDA

“Talibã” não está no Alentejo para fotografar pássaros. A todo o momento aguarda que um dos seus informadores lhe ligue para o telemóvel a confirmar quando e onde decorrerá a próxima ação a fotografar — o casamento da apresentadora de televisão Raquel Prates com o pintor João Murillo. “Conseguir furar a segurança montada e obter fotos exclusivas do matrimónio de figuras ilustres da nossa praça é o mais valioso e importante nesta área”, diz. A prová-lo estão os instantes que sacou durante o copo-d'àgua do casal Nicolau Breyner/Mafalda Amorim Bessa, que foram capa na revista “Flash” da semana passada. Isto apesar dos protagonistas da história terem sido unicamente apanhados de costas. O fotógrafo não quer revelar quanto amealhou pelas imagens, e é por meias palavras que assume a autoria da foto. “Mas são fotografias que valeram umas boas centenas de euros. O amor é sempre bonito de se ver...”, declara.

Moreno e magro, “Guilherme”, de 33 anos, tornou-se paparazzo há cerca de dois. Primeiro tentou a sorte como fotógrafo das festas do social, armado apenas com um curso incompleto de fotografia Escola de Artes de Lisboa (ARCO). Mas não demorou muito a sentir-se esmagado pela crise na imprensa que atingiu a maioria dos fotógrafos free-lancers, como é o seu caso. Decidiu, então, apostar numa área em séria ascensão: o mercado das fotos tiradas às escondidas a celebridades. Um fenómeno que não é novidade no resto da Europa, com os 'apanhados' dos famosos a encherem as páginas das publicações especializadas desde a década de 60, mas que em Portugal só explodiu durante os últimos anos.

Desde que “Guilherme” escolheu “esta forma de vida”, como ele próprio a caracteriza, passou a ser representado pela Agência Dias da Silva (ADS) — e nunca lhe faltou trabalho nem passou por grandes dificuldades monetárias. Para chegar às suas “vítimas” age 24 horas por dia, como se fosse um detetive ou um polícia a seguir alguém. “Faço jornalismo de investigação”, chega a dizer. “Os meus melhores informadores são as pessoas mais simples, os idosos que passam na rua e que estão nos cafés”, acrescenta. Afirma que a sua atividade não se compadece com férias, descanso ou namoros. “O mais parecido com férias acontece-me quando apanho o avião para fotografar a lua-de-mel de alguém num qualquer destino paradisíaco”, afirma.

“Guilherme” conta que está em estado permanente de alerta, por vezes de maneira quase doentia. “No fundo tenho uma personalidade de meio-louco que se adequa à função. E sou muito criativo no que faço”, declara. “Não interessa fotografar a Catarina Furtado a sair da clínica após o parto, porque estará lá toda a gente. O que interessa é apanhá-la na rua com a criança. Porque são imagens únicas”, afirma, para exemplificar o que entende por criatividade. Para conseguir determinadas fotografias já se disfarçou de homem das obras, já se escondeu em arbustos e já fez de turista. A bagageira do seu carro — um comercial de dois lugares — é uma das “bases” usada para vigiar os visados. Escrúpulos, pudor ou peso na consciência é coisa que não mostra sentir por ganhar dinheiro a devassar a intimidade de cada um. “Eu só fotografo verdades. Nem mais, nem menos. Mesmo assim, algumas vezes acabo por ser um leão com coração mole e, se me pedem carinhosamente para não publicar, eu acedo”, justifica.

“Guilherme” garante que as imagens que obtém são sempre tiradas em locais públicos, para evitar processos-crime e respeitar a Lei de Imprensa, que no seu artigo 3 (limites à liberdade de imprensa) estabelece que “os únicos limites são os que decorrem da Constituição e da lei, de forma a salvaguardar o rigor e a objetividade da informação, a garantir os direitos ao bom nome, à reserva da intimidade da vida privada, à imagem e à palavra dos cidadãos e a defender o interesse público e a ordem democrática”. O fotógrafo afirma que só não fotografa “cenas com droga e em propriedades privadas”. “Talibã” é uma espécie de galinha das fotos de ouro para a diretora da agência ADS. Teresa Mayer, 57 anos, diz que o seu agenciado “é, sem dúvida, o paparazzo de top a nível nacional”. E acrescenta: “É inteligente, rigoroso, ardiloso e bom fotógrafo. Não tem medo de apanhar uma tareia e sabe fazer a máquina disparar sem precisar de olhar para o visor.”

OBSESSIVO. “Guilherme” faz tudo para conseguir uma fotografia

OBSESSIVO. “Guilherme” faz tudo para conseguir uma fotografia

tiago miranda

“Guilherme” diz que é “inofensivo”, mas gaba-se de ser obsessivo na forma como persegue os seus objetivos, de fazer “qualquer coisa” para conseguir uma fotografia. “Se for preciso vou até ao limite, até onde mais ninguém vai. Nunca desisto — e raramente falho. E, quando isso acontece, fico afectado”, confessa. A prová-lo estão dezenas de episódios mirabolantes, como aquele em que passou noites a fio no aeroporto de Lisboa para fotografar a chegada de Cristiano Ronaldo e Merche Romero de umas férias na ilha da Sardenha; ou a madrugada passada na copa de uma árvore para tentar captar imagens do casamento de Fernanda Serrano e de Pedro Miguel Ramos. Porém, dessa vez, foi ele mesmo que foi apanhado em flagrante por um segurança, na Quinta dos Ramos, perto da aldeia do Meco. “Quando as coisas correm mal, obrigo-me a evoluir”, comenta.

Duarte Roriz, de 30 anos, é outro paparazzo português. Um dos pontos altos da sua carreira foi conseguido à custa de uma fotografia não autorizada tirada no Verão de 2001 em Fez (Marrocos) ao então primeiro-ministro António Guterres, durante a lua-de-mel com Catarina Vaz Pinto. Apesar de mal enquadrada e tirada à distância, a fotografia, exclusiva, teve honras de capa na revista “Lux” e rendeu ao autor cerca de mil euros. Era a confirmação do novo amor do primeiro-ministro. “Foi uma foto que deu muito brado”, conta. Na época, Duarte fazia parte da redação da revista, cujo diretor o desafiou a “apanhar” o político em “flagrante” amoroso. Apesar da segurança em torno de Guterres, o fotógrafo disfarçou-se de turista — de chapéu, óculos escuros e chinelos — e, com uma máquina vulgar ao pescoço, colocou-se estrategicamente no átrio do hotel, de câmara apontada para a zona de saída, à espera que o casal surgisse. Na altura certa disparou umas quantas fotos, sempre com o rosto virado na direção oposta. “Na altura da publicação inventou-se uma desculpa de que a foto tinha sido tirada por um turista e vendida, posteriormente, à revista”, recorda. Apesar de fazer dezenas de “fotos-paparazzi” por ano, Duarte assume-se essencialmente como fotógrafo do “social”.

DUARTE RORIZ. A fotografia de Guterres com Catarina Vaz Pinto durante a lua-de-mel em Marrocos

DUARTE RORIZ. A fotografia de Guterres com Catarina Vaz Pinto durante a lua-de-mel em Marrocos

Atualmente a trabalhar como colaborador para o jornal “24horas” e para a agência de fotografia BrainPix, assentou arraiais desde o final de junho em Vilamoura, Algarve. “Convém-me chegar um bocado mais cedo, para fazer contactos e preparar o terreno de trabalho.” A partir de meados de julho, conta fazer muitos “bonecos” — termo que usa para os instantâneos — a futebolistas e figuras da televisão na zona das praias, da marina e na rota das discotecas. “Estamos na época do verão e as revistas querem mostrar os casais ilustres em fato de banho, na praia, a apanhar sol. Será o que eu vou dar a mostrar.”

PASSAR DESPERCEBIDO “José Carlos” no Algarve

PASSAR DESPERCEBIDO “José Carlos” no Algarve

tiago miranda

“José Carlos” — chamemos-lhe assim, pois também não quer ser identificado —, com a figura de um dandy, é outro fotógrafo que se movimenta nos mesmos meios. Veste roupas de marca, usa óculos Prada e relógio Porshe e desloca-se num BMW topo de gama. Mal acaba de se sentar na esplanada da praia de Santa Eulália, em Albufeira, e já está a fotografar “à socapa” Moreira, guarda-redes do Benfica, enquanto ele toma o pequeno-almoço com a família, a poucas mesas de distância. Apesar de se ter rendido à atividade de paparazzo, “José Carlos” afirma que vive em permanente conflito com o que faz. “Eu sou um fotógrafo de raiz, com dez anos de carreira. Não tenho nada a ver com este meio, estou nele só por dinheiro, não por gosto”, demarca-se. Uma atividade que passou a desempenhar há mais de dois anos, quando os seus rendimentos baixaram para metade do habitual devido ao agravamento da crise na imprensa. Graças às fotografias de famosos, apanhados em cenas do quotidiano, conseguiu mesmo superar o estilo de vida anterior. “Agora chego a ganhar 3.000 euros por mês”, confessa.

“JOSÉ CARLOS” As fotos de Victoria Beckham e de Ronaldo com Merche Romero

“JOSÉ CARLOS” As fotos de Victoria Beckham e de Ronaldo com Merche Romero

Nos meios da especialidade consta que durante o Euro 2004 vendeu ao jornal britânico “Daily Mirror” um lote de imagens de Victoria Beckham por cerca de 15 mil euros. Algumas dessas imagens foram publicadas na mesma altura na revista “Caras”, o que lhe terá rendido mais umas centenas de euros. “José Carlos” não confirma nem desmente, limitando-se a dizer que é “um bom negociador”, que daria tudo para obter uma imagem do primeiro-ministro José Sócrates a beijar a namorada, ou de Merche Romero em cenas sensuais com Cristiano Ronaldo.

E se os visados não gostam?

O termo italiano paparazzo — singular de paparazzi — surgiu pela primeira vez no filme de Federico Fellini “La Dolce Vita” (1960), com Marcelo Mastroiani como protagonista, no papel de Paparazzo, um fotógrafo de rua que tinha por hábito apanhar celebridade desprevenidas, vendendo depois as fotografias. Em italiano, paparazzo significa moscardo, um animal irritante que está sempre a perturbar o sossego das pessoas.

Em Portugal, o fenómeno ganhou maior dimensão há poucos anos, com o aparecimento de programas como o “Big Brother”, que passaram a incitar o telespectador a espreitar para a intimidade de famosos. As revistas foram atrás. “Os leitores já não se contentam com o que as pessoas lhes dizem e mostram nas entrevistas. Porque sabem que parte daquilo é mentira, fabricado. Preferem contar com as fotos dos paparazzi, porque isso lhes cria uma sensação mais aproximada do que é a vida real. As pessoas querem ver o que é proibido”, explica Fernanda Dias, diretora editorial da revista “Caras”. No topo dos assuntos mais procurados pelos nossos paparazzi estão os casamentos entre figuras nacionais. “A união de Figo com a modelo Helen Svedin, assim como a de Fernanda Serrano a Pedro Miguel Ramos são exemplos das tentativas desesperadas, e goradas, dos paparazzi para registar momentos da cerimónia a mando de várias agências e revistas do coração.”

Mas nem sempre as coisas acabam bem. Algumas das figuras públicas 'apanhadas' acabam por processar judicialmente as publicações que divulgam as imagens tiradas sem autorização. Luís Figo acaba de ganhar um processo contra a revista “Lux” por esta ter publicado fotografias da sua casa de Madrid sem o seu consentimento. No caso de Catarina Furtado, esta só desistiu de processar a revista “Caras” (por ter publicado fotografias suas com o filho ao colo, na via pública) depois de “conversações” com a revista. “Foi preciso almoçar com ela para a convencer a desistir da ideia. Mas ainda estou de castigo”, disse ao Expresso a diretora da “Caras”, Luísa Jardim.

  • Mr. Papparazzi

    Dirige um exército de 800 “paparazzi” espalhados por todo o mundo e a maior decisão da sua vida foi não publicar as últimas imagens da princesa Diana em Paris. Darryn Lyons, o Mr. Paparazzi, deu uma entrevista ao Expresso que publicámos na revista de 27 de setembro de 2008 e que agora republicamos