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Um templo sobre religiões onde os ateus são tratados por igual

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O Templo Ecuménico Universalista situa-se no Parque Biológico da Serra da Lousã, distrito de Coimbra

Fundação ADFP

Tem forma de pirâmide para homenagear o Antigo Egito, nas fachadas tem incrustados símbolos das religiões monoteístas e nos espaços interior e exterior simbologia alusiva a 15 religiões. O Templo Ecuménico Universalista, inaugurado no domingo, apela à tolerância religiosa e à desconstrução de preconceitos

Margarida Mota

Jornalista

É inaugurado este domingo, em Miranda do Corvo, o Templo Ecuménico Universalista, dedicado à tolerância e ao respeito pela diferença. A coincidência da data com as celebrações de mais um aniversário dos atentados de 11 de Setembro de 2001, nos Estados Unidos, não é inocente. Já a primeira pedra do projeto tinha sido lançada a 11 de setembro de 2015.

O Templo pretende ser um monumento de homenagem às vítimas do fundamentalismo, especificamente às que morreram em Washington e Nova Iorque, mas de uma forma geral a todas as pessoas que ao longo de séculos e milénios morreram devido ao fundamentalismo e às ortodoxias religiosas”, explicou ao Expresso Jaime Ramos, da Fundação para a Assistência e Desenvolvimento e Formação Profissional (ADFP), a instituição de solidariedade social laica com sede em Miranda do Corvo que idealizou e financiou o projeto. (Foi a primeira instituição fora de Lisboa a acolher refugiados, que neste momento ascendem a 49).

Com forma piramidal, numa homenagem arquitetónica ao Antigo Egito, e com 13,4 metros de altura, como o Templo de Salomão, construído no século IX a.C. em Jerusalém, o Templo situa-se no topo do Parque Biológico da Serra da Lousã, no distrito de Coimbra.

No seu interior, abriga um Observatório de Religiões que trata, em pé de igualdade, Cristianismo, Islamismo, Judaísmo, Hinduísmo, Xintoísmo, Jainismo, Budismo, Confucionismo, Taoismo, Sikhismo, Zoroastrismo, Fé Bahaí e a religião dos Orixás. “Este projeto não tem uma visão sincrética”, diz Jaime Ramos. “Não queremos misturar as religiões todas. O Templo valoriza as religiões separadamente, cada uma por si.”

Um rasgo no Templo permite que, diariamente, ao meio-dia, o Sol indique o centro, numa referência aos antigos adoradores do Sol, provavelmente uma das mais primitivas formas de religiosidade

Um rasgo no Templo permite que, diariamente, ao meio-dia, o Sol indique o centro, numa referência aos antigos adoradores do Sol, provavelmente uma das mais primitivas formas de religiosidade

Fundação ADFP

Os conteúdos informativos disponibilizados pelo Observatório são elaborados pelo departamento de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, dirigido por Paulo Mendes Pinto, para quem este é “um projeto completamente único e ímpar em todo o mundo. A ênfase é colocada na cultura da paz, por oposição ao uso das religiões por parte de ideologias e para guerras e morte”.

“Queremos que pessoas de todas as religiões visitem o Templo, percebam aquilo que todas têm de bom e também o fundamentalismo, a ortodoxia, as guerras religiosas, as barbáries, para além do terrorismo atual que é gerado, muitas vezes, por conceitos e fundamentos religiosos”, diz o fundador da ADFP. “Por isso, este projeto apresenta aquilo que de bom têm as religiões, mas também aquilo que de mau foi feito ao longo de séculos e milénios com base religiosa.”

Um “pátio dos gentios”, como sugeriu Bento XVI

Com o mesmo destaque que é dado a cada uma das religiões, o Templo tem também um espaço dedicado ao Ateísmo. “Tratamos a visão do ateu numa posição de igualdade em relação àqueles que creem, com idêntico respeito”, refere Jaime Ramos. “Os ateus não só são bem vindos como são convidados a participar neste diálogo que é importante para todos.”

No exterior do Templo, um espaço retangular com pavimento em xadrez, e que remete para o típico chão dos templos maçónicos, constitui uma espécie de “pátio dos gentios”, numa resposta às palavras do Papa Bento XVI — que apelou ao diálogo interreligioso aberto a ateus e agnósticos — e “numa lógica de respeito absoluto tanto pela liberdade de querer como pela liberdade de não querer”, explica Jaime Ramos.

Coluna de pedra junto ao pavimento em xadrez que constitui uma espécie de “pátio dos gentios”

Coluna de pedra junto ao pavimento em xadrez que constitui uma espécie de “pátio dos gentios”

Fundação ADFP

Ainda no espaço exterior, um cubo em pedra com uma bola também de pedra a girar sobre água remete para o positivismo científico de Galileu Galilei, julgado e condenado pela Inquisição há precisamente 400 anos, por defender que a Terra se movia em redor do sol. No cubo, pode ler-se a célebre frase que Galileu terá proferido à saída do tribunal do Santo Ofício: “Contudo ela move-se”.

“É uma referência que achamos por bem incluir no sentido de que não há nenhuma verdade que seja absoluta”, realça Jaime Ramos. “Todas as verdades podem ser desmentidas e evoluir.”

Simbolicamente, recorda também que nenhuma crença pode silenciar ou travar a ciência na sua permanente busca da verdade.

Uma cruz templária simboliza a necessidade de abrir passagens nos muros que separam homens ou fronteiras

Uma cruz templária simboliza a necessidade de abrir passagens nos muros que separam homens ou fronteiras

Fundação ADFP

Ao Templo Ecuménico pode chegar-se de carro ou a pé, a partir da entrada do Parque Biológico. (Numa primeira fase, as visitas são só para grupos, mediante contacto prévio para o Parque Biológico da Serra da Lousã.) Para quem optar pela via pedonal, o caminho é pontuado por bancos onde o visitante pode descansar e meditar nas frases de filósofos e pensadores com que se vai cruzando e que convidam à introspeção.

Ao longo do percurso, sucedem-se símbolos tauistas, a imagem de Buda, um altar hindu, a Mesa da Igualdade dos shiks (que também pode ser a mesa da Última Ceia cristã ou a Távola Redonda da tradição bretã), referências ao mundo politeista e aos fenómenos indígenas no seu confronto com as religiões hegemónicas.

Nas fachadas do Templo, estão impressos símbolos dos monoteísmos abraâmicos: na face orientada para sudeste o “crescente” do Islão e uma pedra negra que lembra a Caaba e define a direção de Meca; para sudoeste, a estrela de David, símbolo judaico; e na parede voltada para noroeste a cruz cristã.

Junto ao Templo, a bandeira portuguesa está hasteada a 15,24 metros de altura, a altura da Caaba muçulmana, numa homenagem à religião que chegou a ser maioritária em Portugal.