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O mistério das ondas de levante

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TIAGO MIRANDA

Ondulação e água quente têm sido constantes no Algarve. A culpa é das inversões térmicas sobre Gibraltar

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

Têm varrido a costa do Algarve desde julho com poucas interrupções, ao contrário do habitual, o que é bom para os surfistas e mau para os amantes do mar calmo. Mas mesmo para estes, a agitação marítima de sudeste conhecida por ondas de levante, com uma altura significativamente superior a um metro, tem sido acompanhada por uma boa surpresa: a invasão de massas de água quente à superfície do mar junto às praias, puxando as temperaturas para níveis recorde.

O Instituto Hidrográfico (IH) já fez as contas e chegou à conclusão de que durante os meses de julho e agosto “a temperatura da água do mar à superfície, ao longo da orla costeira do Algarve e da Costa Vicentina, alcançou valores máximos relativamente aos últimos 16 anos”, isto é, desde o início do século XXI (ver gráficos). O valor máximo registado pelas boias do IH foi de 26,5 graus no dia 28 de julho, “muito próximo do máximo histórico registado em 2010 (26,6 graus)”.

Como destaca o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), “a subida da temperatura da água do mar da costa sul do Algarve ocorre após episódios de vento de levante no Estreito de Gibraltar, ao qual está associado o transporte de águas mais quentes do Mediterrâneo para o Atlântico”. E estas “atingem a costa sul da Península Ibérica, em particular o Sotavento Algarvio”.

Regime persistente

Na segunda quinzena de julho e na primeira quinzena de agosto, o regime de levante no estreito de Gibraltar “ocorreu com persistência e com interrupções pouco duradouras, favorecendo assim a manutenção de temperaturas superficiais elevadas na costa sul do Algarve”, esclarece o IPMA. Mas porquê esta persistência?

“A resposta a esta questão é complexa”, reconhece Nuno Moreira, chefe da Divisão de Previsão Meteorológica, Vigilância e Serviços Espaciais do IPMA. E é de natureza mais global. Na realidade, o período quente que se tem verificado em julho, agosto e início de setembro na Península Ibérica “tem sido caracterizado pela permanência de regiões de altas pressões nesta zona, em particular de uma região de crista anticiclónica”. Esta situação “é designada por configuração de bloqueio, visto que fica ‘bloqueada’ durante vários dias”, sublinha Nuno Moreira.

Nas regiões de altas pressões — anticiclones (como nos Açores) ou cristas anticiclónicas — ocorre aquecimento do ar por compressão associada a movimentos descendentes de larga escala. “Este aquecimento origina inversões de temperatura, que serão tão frequentes quanto mais persistentes forem as situações de bloqueio.” Uma inversão térmica corresponde a uma situação em que a temperatura aumenta com a altitude em vez de diminuir, situação mais habitual na troposfera (camada da atmosfera mais próxima da superfície).

Deste modo, o especialista do IPMA conclui que “um elevado número de episódios de levante neste verão é compatível com uma elevada frequência de situações de inversão térmica nas camadas baixas da atmosfera sobre o Estreito de Gibraltar”, ou seja, com a persistência de regiões anticiclónicas durante episódios de bloqueio que se verificaram no mesmo período de tempo.

Dois tipos de vento

O vento de levante no estreito de Gibraltar pode formar-se em duas situações meteorológicas particulares. Por isso existe o levante de escala sinótica e o levante de mesoscala. O primeiro resulta de um movimento associado à posição das zonas de altas e baixas pressões na Península Ibérica, que favorece um fluxo de leste para oeste no Estreito de Gibraltar, com o aumento da intensidade do vento em toda a região.

O levante de mesoscala ocorre apenas junto ao Estreito de Gibraltar, resulta de um escoamento de ar combinado com a topografia montanhosa envolvente e é típico do verão, ocorrendo em situações em que a atmosfera apresenta inversões de temperatura em níveis próximos da superfície terrestre.

O aquecimento local a oeste do estreito favorece a criação de uma zona de baixas pressões que promove a aceleração do ar para oeste, correspondendo assim ao forte vento junto à superfície do mar que todos conhecem como levante. Os ventos mais fortes ocorrem, por isso, do lado Atlântico do Estreito de Gibraltar, incluindo a costa do Algarve.

Carlos da Câmara, climatologista da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, explica que “em Portugal a situação mais comum no verão é o regime de nortada (ventos de norte e noroeste), relacionado com a posição do anticiclone dos Açores”. Mas desta vez “houve um enfraquecimento da nortada que tornou as águas mais quentes”. E nos dias em que isso acontece “há mais fogos, devido aos ventos quentes de leste”. O investigador admite que “as alterações climáticas poderão tornar mais frequentes estas situações extremas”.

O dia mais quente do ano

Entretanto, o IPMA revelou esta semana que 6 de setembro foi o dia mais quente do ano, com uma temperatura média de 29,2 graus. Os valores médios da temperatura máxima — 38,6° C — e mínima — 19,8° C — também foram os mais altos de 2016 e foram ultrapassados os anteriores valores mais elevados da temperatura máxima para o mês de setembro em 56% das estações meteorológicas (num total de 82 estações). Destaca-se ainda a ocorrência de uma onda de calor, com início no final de agosto ou 1 de setembro em grande parte das regiões do Norte e Centro e do interior do Alentejo.

A localização de um anticiclone sobre a Península Ibérica e o Norte de África, estendendo-se na vertical aos vários níveis da troposfera e orientado no sentido sul-norte, originou o transporte de ar muito quente do interior da Península e do Magrebe. Este fenómeno originou a intensificação do aquecimento do ar junto ao solo, registando-se valores da temperatura do ar extremamente elevados, em especial na região sudoeste da Península Ibérica.