Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Maria João Bastos: “Com os brasileiros ganhei leveza”

  • 333

A atriz, que vive entre Lisboa e o Rio de Janeiro, fala do filme da sua vida, “Mistérios de Lisboa”, de Raúl Ruiz, que seis anos depois de se ter estreado volta às salas de cinema

Bernardo Mendonça

Bernardo Mendonça

Texto

Jornalista

Luís Barra

Luís Barra

Foto

Fotojornalista

luís barra

Um filme pode ter duas vidas. Ou melhor, ser eterno. “Mistérios de Lisboa” (2010), do chileno Raúl Ruiz, adaptado de um romance de Camilo Castelo Branco, foi o mais aclamado filme português dos últimos anos e acaba de regressar às salas de cinema numa versão remasterizada. Nele, Maria João Bastos é a condessa Ângela de Lima, uma mulher consumida pelo medo e a dor. Aqui recorda os bastidores do filme que mais a marcou.

Soube que usa a imagem de animais e aromas de perfume no processo de composição das suas personagens, para as tornar mais reais e verosímeis. Aconteceu o mesmo quando interpretou a condessa Ângela de Lima?
É verdade. Recorro a vários instrumentos. É uma questão de experimentar as diferentes portas para entrar nas minhas personagens. Para a Ângela de Lima, pensei numa gazela. Por algum porte [elegante] e medo que a vida lhe impôs, lembrou-me esse animal. Fiz exercícios a pensar nele e cheguei a respostas que achei úteis. Em relação ao perfume, usei a alfazema, porque é um aroma que me remete para a época. E, todas as manhãs, quando começava a caracterização da personagem e colocava o perfume de alfazema, já sentia todas as emoções de que precisava.

Foi difícil chegar a essa mulher sofrida criada por Camilo?
Não foi fácil. É um papel extremamente complicado, em que precisava passar muita emoção e sofrimento através de pouco. Comecei por ler atentamente os textos, porque o universo camiliano oferece-nos muita informação. Li e reli “Mistérios de Lisboa” um sem-número de vezes. Construí a personagem dentro de uma sensação de prisão. Porque na verdade era disso que tratava a vida dela. Não só quando estava ‘presa’ mas mesmo quando estava em liberdade e com a possibilidade de procurar o filho, continuava presa a uma dor, a um passado e a convenções de época que a condicionavam. Mas logo no início do processo eu e o Adriano Luz, com quem contracenei muito, nos apercebemos de que o Raúl Ruiz era um génio. Era fácil confiar nele.

Como foi o processo de rodagem?
Sentia que estava a voar nas asas de um génio. Todos os dias ele chegava ao plateau com uma energia inacreditável. De manhã, quando parecia que estava tudo preparado para filmar, começava a andar às voltas pelo jardim, com as mãos atrás das costas, e nós sabíamos que aquilo podia demorar meia hora, uma hora. A equipa ficava toda à espera dele, com admiração e respeito, porque sabíamos que dali sairia algo genial. E nós simplesmente deixávamo-nos ir. Ou seja, a nossa personagem estava criada, mas não podíamos ir para o plateau a pensar: “Vou fazer esta cena desta maneira.” Todos os dias o Raúl Ruiz nos surpreendia com uma proposta que, muitas vezes, contrariava o que estava no guião. E ficávamos a pensar o quão grande é o universo deste homem a criar estas coisas absolutamente geniais.

Foi o seu papel mais relevante até agora?
Posso dizer que este projeto é o filme da minha vida. Quer a nível profissional quer pessoal. A nível profissional porque foi uma grande aprendizagem. E a nível pessoal porque criámos uma amizade. Humanamente, [o Raúl Ruiz] cuidou muito de mim. Ensinou-me imenso. Tivemos muitas conversas, trocámos ideias, livros... Eu ofereci-lhe no último dia de rodagem uma primeira edição original de Camilo Castelo Branco. Ele ofereceu-me um livro do [também chileno] Roberto Bolaño.

Entretanto, adoeceu...
Quando ele adoeceu e eu o ia visitar ao hospital levava-lhe livros e flores. Ele gostava dos livros, mas não gostava nada das flores. E eu continuava a levar-lhe flores. Mais tarde, numa altura em que estava em Nova Iorque a estudar, ligaram-me a dizer que ele não estava bem. Tinha piorado muito. Quis logo comprar uma passagem de avião para me despedir dele, mas soube depois que as coisas tinham acalmado e que, afinal, tinha reagido bem à operação. Disseram-me para não voltar, porque ele não quereria que eu deixasse o curso [de representação] para o ver. Então decidi enviar-lhe novamente flores. Tinha a certeza de que se ia rir disso. Mandei entregar-lhe girassóis no quarto. Soube depois que tinha sorrido ao receber os girassóis e que os tinha colocado em cima da cabeceira. Contaram-me que os girassóis duraram muitos dias e que ele chegara a comentar com a mulher, Valeria [Sarmiento]: “Não é desta que vou morrer, porque até os girassóis continuam vivos.” E não morreu nessa altura. Faleceu mais tarde, por outras complicações.

Com este papel recebeu, em 2011, um Globo de Ouro, e nos últimos 15 anos tem feito muita televisão e cinema no Brasil. Sente-se vingada de todos aqueles que viam em si apenas mais um rosto bonito vindo da moda?
Não me sinto nada vingada. Sinto-me realizada. Penso em mim como uma menina que tinha um sonho, muita vontade e determinação, e que fez o seu caminho e continua a fazê-lo. Estou orgulhosa de tudo aquilo que tenho conseguido. Mas ainda tenho tanto para aprender e crescer como atriz.

A última telenovela brasileira em que entrou foi “Boogie Oogie”, uma produção de época [recriava os anos 70], exibida na Globo no ano passado. As pessoas abordavam-na na rua?
Imenso. Eles são mais efusivos. Falavam muito com a [minha] personagem. “Não deixe ele enganá-la. Olhe que ele anda a enganá-la com outra.” São muito engraçados. Vivem a novela. E têm muito carinho pelos atores. Ainda agora recebo inúmeras mensagens no meu Instagram dizendo: “Está na hora de voltar. Quando regressa ao Brasil?”

O que mais gosta e mais detesta no Brasil?
O que mais gosto é a energia positiva deles. Eles sabem viver. Tenho uma amiga brasileira que utiliza uma expressão que adoro: “[Nós brasileiros] não arrastamos corrente.” Eu imagino essa corrente agarrada ao tornozelo. E nós [portugueses] arrastamos muitas correntes dessas. Culturalmente, damos muito mais peso às coisas, somos dramáticos. Eles não, é mais: “Hoje quero é ser feliz e amanhã logo vejo.” Com os brasileiros ganhei leveza. Como eles dizem: “Vai dar tudo certo.” Por outro lado, não gosto da violência que está em todo o lado.

Nos anos passados no Brasil apanhou algum susto?
Já fui vítima de um assalto com uma arma de fogo, em Porto Alegre, onde estava para gravar uma série. Um segurança ficou ferido, e os assaltantes chegaram a disparar sobre mim porque cometi o erro de ir atrás deles e de agredir um deles quando foi apanhado. Foi complicado. Mas não me criou uma aversão ao país. Claro que no início fiquei traumatizada. Via em cada pessoa na rua alguém a retirar uma arma do bolso. Até que decidi ter aulas de boxe e de defesa pessoal, que funcionaram como uma terapia. Não se instalou nenhum medo dentro de mim.

Fora do trabalho, que prazeres vai encontrando?
Organizo regularmente jantares em casa com amigos. Porque na vida o que fica são as memórias desses momentos bons. Nesses jantares não sou eu que cozinho, é um amigo meu que faz sempre o mesmo prato: feijoada de choco. E eu sou uma ótima organizadora do evento: decoro o espaço, faço as entradas, sirvo champanhe, coloco um guardanapo a condizer com o prato, abro o Trivial [Pursuit] para jogarmos e, como gosto muito de cantar, monto um karaoke. E assim ficamos horas a desfrutar uns dos outros.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 2 setembro 2016