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A eletrónica de consumo está em banho-maria

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d.r.

Depois do 3D, das Smart TV, da Ultra Definição e, por exemplo, da Internet das Coisas e da Realidade Virtual… a eletrónica de consumo passa por um período de alguma acalmia. Um marasmo que pode ser benéfico para os utilizadores

Regressei este sábado de mais uma edição da IFA, a maior feira de eletrónica de consumo do mundo. Mais de 180 mil expositores mostraram em Berlim o que de melhor se faz num mercado que este ano vai valer mais de 800 mil milhões de euros – pouco menos do que o ano passado, o que fica a dever-se à desvalorização do euro face ao dólar.

Os números continuam a impressionar. A IFA tem mais de 158 mil metros quadrados. Uma área generosa onde é fácil perdermo-nos devido à forma como o espaço está organizado – há zonas onde os pisos se sobrepõem e onde é muito difícil orientarmo-nos.

Para ter uma ideia, calcorrear os stands da IFA equivale a fazer a pé uma média de 12 km/dia, mínimo. E para ver o quê? Novidades? Poucas. Ao contrário do que testemunhei em anos anteriores (vou à IFA desde a década de 90 do século passado ,quando a feira ainda só se realizava a um ritmo bianual), esta edição da feira não serviu para revelar qualquer nova tendência de mercado.

Estamos, claramente, num período de maturação tecnológica. Nos televisores, os fabricantes juntaram, definitivamente, o HDR (contraste dinâmico – a melhor dispersão de luz tanto nas zonas claras como nas escuras) à Ultra Definição e as tecnologias OLED e o Quantum Dot continuam o seu duelo – nos equipamentos que já testei, os painéis OLED permitem uma experiência visual melhor. A disponibilização de conteúdos em Ultra Definição continua a ser escassa, mas a Netflix, por exemplo, revelou que vai ter mais séries neste formato.

A Realidade Virtual continua o seu caminho de massificação. Pelos corredores da IFA encontrei dezenas de dispositivos, o que prova que a tecnologia já está madura o suficiente para entrar, definitivamente, no quotidiano dos utilizadores. Ou seja, desenganem-se todos os que achavam que a Realidade Virtual era uma questão de “moda”. Aliás, a Sony, que lança os seus Playstation VR em outubro, disse, em Berlim, que está com dificuldades em responder ao elevado volume de encomendas – o que prova a boa receção que o sistema de Realidade Virtual para a Playstation 4 está a ter no mercado.

No entanto, foi o que vi à porta fechada no stand da Qualcomm (fabricante norte-americano que, entre outras coisas, desenha processadores e plataformas para dispositivos móveis) que mais me impressionou. O novo processador Snapdragon VR820, que a empresa mostrou nuns óculos próprios, recorre a quatro câmaras: duas internas que monitorizam o movimento da nossa íris; e duas externas que controlam os movimentos que fazemos em determinado espaço. O que é que isto quer dizer? Que sem recorrer a qualquer outro sensor, este sistema permite que nos aproximemos, realmente, de um objeto virtual e que, ao inclinar a cabeça, por exemplo, o vejamos por baixo. A grande diferença para o que já existe hoje nos sistemas mais evoluídos é a total ausência de cabos, o que vai dar grande liberdade aos utilizadores. Os óculos da Qualcomm (a tecnologia, entenda-se) vão ser disponibilizados a outros fabricantes já no início do próximo ano.

Inteligência que tarda em chegar

Nos eletrodomésticos (uma das principais áreas da IFA), o que vi foi apenas a evolução de conceitos já mostrados em anos anteriores. Ou seja, a chegada da conectividade que permite a estes dispositivos (mudos desde sempre) comunicarem com o mundo que os rodeia. É assim que as máquinas de lavar loiça começaram a ser controladas pelo smartphone ou que os frigoríficos têm a capacidade de tirar fotografias do que está nas suas prateleiras e mostrar se, afinal, é preciso comprar cerveja.

Às ligações sem fios juntam-se os sistemas operativos. Windows, Android ou Tizen (este um sistema próprio da Samsung), por exemplo. A junção da conectividade ao sistema de controlo dá, realmente, inteligência aos eletrodomésticos. É desta forma que o ecrã tátil do frigorífico pode tornar-se num televisor ou na ligação direta ao supermercado. Em Itália, a Samsung já tem uma parceria com um grossista alimentar que entrega em casa os alimentos necessários para concretizar a receita consultada no ecrã que está na porta do frigorífico. Veja o que ESTE FRIGORÍFICO consegue fazer. O problema destes eletrodomésticos é que continuam a ter preços proibitivos o que os torna inacessíveis à grande maioria dos utilizadores.

Aspiradores robóticos e máquinas de lavar silenciosas e que se mantêm imóveis mesmo quando estão no programa mais exigente de centrifugação continuam a mostrar-se como prova de inovação. O mesmo acontece com os wearables que o ano passado tomaram o mundo de rompante. Já não são novidade as pulseiras que contam os passos, controlam a atividade cardíaca e que comunicam com os telefones. Na IFA estavam por todo o lado. Desde o stand das maiores empresas do mundo (a Fitbit, por exemplo) até aos dos chineses que vêm à Europa com as suas “cópias perfeitas” que custam metade do preço (mas que são muito pouco exigentes em termos de qualidade de construção).

A Samsung apresentou dois novos smartwatches em Berlim – os Gear S3 Frontier e Classic - que se parecem mais com um relógio “normal” em termos de design e que trazem algumas novidades, nomeadamente, a ligação 4G (dados móveis para que o telefone possa estar sempre ligado à Internet) que permite fazer e receber chamadas no próprio relógio (sim, sem ser necessário ter o telefone por perto). Quer vê-los em pormenor? Clique AQUI.

Música para os nossos ouvidos

O áudio é um dos grandes componentes da eletrónica de consumo. Nos anos anteriores, a IFA foi inundada de soundbars (as colunas de som para serem usadas junto aos televisores) e por sistemas de áudio sem fios (os que permitem que a música chegue a colunas espalhadas pela casa sem ligar um único cabo para essa transmissão). Este ano, os fabricantes de telefones e tablets apresentaram novos dispositivos onde a componente sonora foi particularmente cuidada. A Huawei, por exemplo, fez uma parceria com a reconhecida Harmon-Kardon para que o som do novo tablet, MediaPad M3, seja mais realista. Outros fabricantes anunciaram que vão integrar auscultadores da JBL com os seus telefones.

O suporte a áudio de Alta Resolução – som mais rico em detalhe, mas só disponível em ficheiros de maior dimensão – continua a chegar a mais fabricantes e era incrível o número de novos auscultadores disponíveis na IFA.

Esta não é, seguramente, uma feira de smartphones (é no Mobile World Congress, em Barcelona, que são apresentadas as grandes novidades do sector), mas isso não impediu a Sony de mostrar dois novos telefones e de a Huawei comprovar que é, hoje, o fabricante com mais vontade de conquistar uma maior fatia de mercado. A empresa chinesa teve uma das conferências de imprensa mais concorridas da IFA, na qual, por não ter quase nada para o ecossistema da eletrónica de consumo, apresentou novos telefones e o já referido tablet.

Do “Império do Meio” vem também a Lenovo. O maior fabricante mundial de computadores revelou na Alemanha nos computadores e telefones (que têm desde que comprou a Motorola à Google). O principal destaque vai para um tablet que tive oportunidade de experimentar, o Yoga Book, que pode usar Android ou Windows e tem dois ecrãs táteis. Parece, mesmo, um livro fino que, ao abrirmos, mostra dois ecrãs táteis. É possível escrever e desenhar em ambos. A surpresa é que podemos usar uma caneta (que tem mesmo tinta) para escrever num papel e ver as letras aparecer no ecrã. O sistema é interessante e é, basicamente, levar o conceito de phablet a um ecrã de maior dimensão. Gostei da experiência, embora ficasse com a ideia de que a caneta poderia ter mais níveis de pressão. Pode vê-lo em funcionamento AQUI.

Finalmente, tenho de falar em drones. Estavam por todo o lado – especialmente no pavilhão chinês. Existem nos mais variados formatos - até um que parece um ovo de dinossáurio. Dê uma vista de olhos AQUI.

Outra coisa, as câmaras utilizadas nos drones estão cada vez melhores e existe mais uma tendência: óculos que permitem ver em tempo real o que a câmara do drone está a “ver”. Veja AQUI (INSERIR LINK https://www.youtube.com/watch?v=m1Fpq4inefg) o que o Disco, da Parrot, consegue fazer. A proliferação de drones já é, e vai continuar a ser, uma dor de cabeça para as autoridades que tentam regular a utilização destes dispositivos.

E depois de muitos quilómetros andados…

Confirma-se que a IFA deste ano serviu para mostrar tecnologias em maturação. Não há uma tendência nova, não existe uma inovação disruptiva. Ou seja, depois do 3D, das Smart TV, da Ultra Definição e, por exemplo, da Internet das Coisas e da Realidade Virtual… a eletrónica de consumo passa por um período de alguma acalmia. Um marasmo que pode ser benéfico para os utilizadores. Normalmente, é nestes momentos que os fabricantes começam a colocar a tecnologia mais evoluída num maior número de dispositivos do portefólio. Consequência imediata? Por menos dinheiro, consegue-se equipamentos que se mantêm atuais por mais tempo. Este ano e o próximo são bons anos para comprar na eletrónica de consumo.