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“Não existe uma escola que faça algo que não está escrito que não tenha a inspeção à perna”

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marcos borga

Joaquim Azevedo, coordenador do estudo “As preocupações e motivações dos professores”, lembra que, com o alargamento da escolaridade obrigatória até aos 18 anos, são os professores quem mais tempo passa com as crianças e jovens. Mas que a sociedade e os políticos não têm reconhecido o papel central deste grupo profissional. É preciso impedir que os sinais de desmotivação, cansaço e mal-estar alastrem, defende o investigador da Universidade Católica do Porto e ex-secretário de Estado de Roberto Carneiro. Os resultados deste grande inquérito a 2.910 professores serão discutidos sexta-feira, em Vila Nova de Gaia, dia em que se assinala o arranque oficial de mais um ano letivo

“Com mais de um terço dos professores a querer ir-se embora da atividade letiva, com mais de um em cada três docentes a dizer-se exausto e desiludido, com um em cada três a assinalar que os professores estão desmotivados para ensinar, estamos à espera de quê? Certamente, de pior. A 'nuvem de cansaço' é também uma nuvem negra sobre o futuro da Educação em Portugal”,
Joaquim Azevedo, estudo “As preocupação e as motivações dos professores”

Houve algum dado que o tivesse surpreendido mais nas respostas dadas pelos 2910 professores que ouviram?
O que me surpreendeu mais foi o número tão elevado de respostas que expressam a insatisfação e cansaço dos professores. Um terço dos docentes a dizer que gostaria de deixar de dar aulas e que acha que há desmotivação é um valor muito significativo. Porque não estamos a falar de uma instituição pequena, mas de um universo de 125 mil professores. Um terço são 40 mil profissionais que, por uma razão ou outra, manifestam este mal-estar. E isso é grave. A nossa expectativa quando colocamos um filho na escola é que tenhamos ali profissionais competentes, mas também motivados e disponíveis.

As opiniões e sentimentos mais negativos aumentam com o acumular de anos de serviço. Assim sendo, acha que o Ministério da Educação (ME) devia intervir no problema do envelhecimento da classe docente?
Essa é uma preocupação muito grande e que se vai agravar se nada for feito. Porque a população vai continuar a diminuir, os efeitos da quebra da natalidade ainda se vão fazer sentir mais e o nível de escolarização está a atingir o seu pico máximo, mesmo no ensino secundário. O contexto não é o mais favorável para que entrem professores no sistema.

Mas não há nada que se possa fazer para promover o rejuvenescimento dos quadros?
Têm sido colocadas algumas sugestões no espaço público, como a diminuição do número de alunos por turma ou a redução de horas letivas entre os mais velhos, o que faria aumentar as necessidades de contratação. É uma das frentes em que se poderia intervir, mas que tem de ser colocada com todo o cuidado no contexto financeiro em que vivemos.

No estudo critica o facto de os professores nunca terem sido “alvo preferencial de políticas governamentais, com medidas articuladas e profundas de dignificação e valorização pública da sua atividade profissional”. E que isso revela um “evidente desinteresse, por parte da elite dirigente, com o futuro do país e com a qualidade da sua população”. Porque é que defende essa intervenção?
Com o alargamento da escolaridade obrigatória os nossos filhos e as gerações futuras vão estar obrigatoriamente no ensino durante 12 ou mais anos, se se considerar a universalização do pré-escolar. Este grupo de profissionais, que é quem está mais com os nossos filhos nos primeiros anos da sua vida — até aos 18 —, tem uma função crucial. O sistema escolar ganhou um peso na formação humana das pessoas que não tinha no passado. Por isso é que digo que é preciso uma atenção política sobre este grupo profissional, no sentido de toda a sociedade fazer uma reflexão e definir depois um plano e medidas a médio e longo prazo. Outros países fizeram-no e tiveram resultados importantes. Se não mexermos na questão profissional dos professores dificilmente vamos ter resultados melhores no futuro.

Alguns países o que fizeram foi dar incentivos remuneratórios ou melhores condições de carreira. Devemos ir por aí?
Há países mais desenvolvidos que o nosso onde os professores não ganham mais. A questão passa mais pela valorização social e pela forma como a comunidade olha para os professores. Uma das medidas que tenho proposto é a exigência de uma classificação mínima de entrada nos cursos de formação de professores de, por exemplo, 16 valores. Isto mudava logo muita coisa: a sociedade passava a dizer que queria como professores os alunos com melhores médias. Outra medida era criar um período de indução profissional, em que os novos professores eram acompanhados durante um período de tempo, por alguém mais habilitado. Como acontece com os médicos. Estas são medidas sem custos. Devíamos ver quais era possível adotar agora e quais seriam possíveis depois, quando a situação começar a melhorar. A ideia é ter um plano. Porque não temos nenhum.

Não acha que estes resultados demonstram também uma visão excessivamente negativa por parte dos professores e que há uma tendência desta classe para exacerbar os aspetos negativos?
Os sindicatos esgotaram muito um certo discurso docente ao longo dos últimos 30 anos. E este é um grupo profissional que não pode ficar prisioneiro de uma reivindicação exclusivamente sindical. Deste ponto de vista, os professores têm assumido mais um posicionamento de lamentar o que não existe, a ausência de condições. Mas a sua capacidade para se estruturar, estabelecer redes, acumular conhecimento científico e criar alternativas é muito incipiente.

Falta-lhes autonomia?
Autonomia é algo que os ministros têm proclamado mas que nunca deram verdadeiramente. Não existe uma escola que ultrapasse uma regra ou que faça algo que não está escrito que não tenha a inspeção à perna. Se quiser tomar uma decisão há logo uma entidade que a impede se não estiver de acordo com a norma. E os professores têm em cima milhares de normas. É um grupo profissional que ficou muito amarrado.

Quase dois terços dos professores consideram que a Educação piorou nos últimos 10 anos. É uma avaliação realista?
Quando dizem isso não estão a pensar em indicadores de sucesso ou taxa de escolarização. Essa perceção tem muito a ver com o facto de se terem introduzido no sistema alterações muito grandes e orientações e contra orientações em períodos muitos curtos e que são desmoralizadoras para quem trabalha nas escolas. Por exemplo, no início da década os professores tiveram de mudar a lógica de trabalho para um sistema muito subordinado aos exames nacionais. Mudaram a agulha e quatro anos depois foi-lhes dito que ia deixar de ser assim outra vez. Isso aplica-se a uma série de domínios, desde os programas às ofertas formativas. Para quem está nas escolas a trabalhar estas alterações mudam muito o quotidiano e são desgastantes.

O estudo também revela que é entre os professores do ensino público que o desgaste e as visões negativas mais se fazem sentir. Porquê?
A diferença tem justificação na medida em que as escolas privadas são instituições com um corpo profissional muito estável, que foi contratado pelo estabelecimento de ensino e que foi escolhido em função do projeto educativo que se quer desenvolver. Há uma vinculação ao ideário e um compromisso maiores. Já em relação às escolas profissionais em particular, que têm natureza privada mas prosseguem fins públicos, o que acontece é que sempre tiveram muito mais autonomia e são também elas que contratam os seus professores. E têm também um grande envolvimento com a comunidade, que reconhece naquelas instituições uma gratificação imediata quando formam jovens que se integram depois no mercado de trabalho. O que devíamos pensar era se não seria viável um cenário em que também as escolas públicas teriam um funcionamento cada vez mais contratualizado, com determinados objetivos e que pudessem cada vez mais assumir o seu figurino e modelo de desenvolvimento.

Diz que o facto de as escolas escolherem os seus próprios professores traz vantagens. Mas o que continuamos a ter é um sistema de colocação absolutamente centralizado. Devia ser mudado?
Acho que é possível conciliar um sistema nacional de ordenamento e seriação dos professores com um sistema que permitisse fazer afetações locais às escolas. Mas teria de ser um sistema melhor do que o das bolsas de contratação de escola (extinto este ano pelos atrasos que provocou no passado e pelas dúvidas nos critérios de seleção dos candidatos), mais imune a um certo tipo de exageros que pudessem ocorrer. Sendo certo que certos exageros não podem ser pretexto para regressar ao centralismo. Quando perguntámos a diretores de mais de 30 agrupamentos o que mais queriam ter, para cima de 90% responderam a possibilidade de contratar os seus professores. Dizem que se pudessem escolher os recursos com os quais trabalham, mais poderiam responder pelo que fazem.

A indisciplina dos alunos na sala de aula é apontada pelos professores como a maior dificuldade que sentem. A escola tem capacidade para intervir aqui ou os problemas estão a montante?
A escola não pode dizer que existe um problema e cruzar os braços. A indisciplina é muitas vezes um sinal de outras coisas que correm mal, não é necessariamente um sinal de pré-deliquência. Quando falamos com os alunos, nomeadamente indisciplinados, o que dizem é que não aguentam aulas de 90 minutos e professores que se limitam a ditar a matéria. Dizem que a escola é uma seca e eu até admito que a sua análise possa estar correta. A escola pode e deve adaptar-se. A questão é quem sem autonomia não consegue fazê-lo.

  • Um em cada três professores gostava de deixar de dar aulas

    Inquérito a quase três mil docentes de todo o país revela elevado grau de desmotivação, com um terço dos profissionais a dizer-se “exausto” e “desiludido”. Quase todos consideram que o prestígio da sua profissão diminuiu, mas é no ensino público que o desencanto se faz sentir mais