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Se acha que o Português é dificílimo, ilógico e caidaço, você está errado

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Língua é o que roça, agride ou seduz. Idioma é como se expressa uma pessoa ou uma nação. Definem identidades, podem gerar amor ou repulsa. Sérgio Rodrigues, escritor brasileiro vencedor do Prémio Portugal Telecom de Literatura em 2014, ama a língua portuguesa, derrete-se com ela. Lançou segunda-feira no Rio de Janeiro um livro que nos ajuda a entender como a utilizamos e defende uma atitude de correção sem subserviência às regras (“se uma regrinha qualquer é sancionada pelos sábios mas não bate bem no ouvido, na alma, então não serve”). E, em entrevista ao Expresso Diário, conta como a utilização lusitana do Português é vista do lado de lá

É a falar que a gente se entende. Ou não. Com os pronomes no lugar errado, com uma coloquialidade que pode roçar o desrespeito, com uma criatividade e uma capacidade de absorção de estrangeirismos que tanto atraem como afligem, o uso brasileiro da língua portuguesa é um mundo. Vasto e imperfeito. O escritor brasileiro Sérgio Rodrigues abriu segunda-feira a porta do prazer ao lançar no Rio de Janeiro mais um livro dedicado ao sexto idioma mais falado no planeta - chamou-lhe “Viva a Língua Brasileira”. Uma provocação, sem dúvida, mas com respeito.

Vencedor do Prémio Portugal Telecom de Literatura em 2014, conquistou as categorias de romance e o grande prémio com “O Drible”, um livro em que o futebol é a personagem fundamental. Recebido com entusiasmo pela crítica e pelo público, o livro já foi traduzido em vários idiomas, disponível em seis países, entre os quais Portugal.

Mas antes deste novo trabalho, Sérgio Rodrigues já havia lançado “What língua is esta?” e alimentou colunas de esclarecimento de dúvidas de leitores sobre a utilização da língua portuguesa em revistas como a “Veja”. Informado mas nada dogmático, vai desconstruindo mitos e tabus linguísticos. Como agora em “Viva a língua brasileira!”, onde dedica capítulos a oferecer sugestões, tira dúvidas gramaticais, expõe erros comuns e discute polémicas.

Na sua “declaração de amor à língua portuguesa brasileira” determina perfis de utilizadores — “os sabichões, os politizados, os enrolões, os anti-intelectuais e os anglocêntricos” —, explica “como é que se escreve”, desconstrói a rigidez das regras e investiga vários mitos, como, por exemplo, porque nós, falantes, colocamos um “n” depois de algumas vogais. Como em “muito”, que quer cá quer lá se diz “muinto”.

Acabamos por descobrir que “o ‘assi’ do português antigo virou assim, o mai virou mãe e o mia minha”. E que “Camões rimou muito com fruito e enxuito”. “Uma explicação provável para a pronúncia ‘muinto’ é que o ‘m’, embora vindo antes e não depois das vogais, tenha ainda assim exercido uma influência de nasalização, como ocorreu também em mãe e minha”. E por aí vai em mais de 380 páginas.

O aviso quanto ao tom e às intenções desta obra fica feito logo na apresentação do autor: “Se você acha nosso idioma dificílimo, ilógico, caidaço, ou acredita que conversar amorosamente sobre ele é perda de tempo — lamento, você está errado”.

Autor de ficção, crítico literário e jornalista, Sérgio tem 54 anos e nasceu em Minas Gerais, estado brasileiro sem vista para o mar. Mudou-se para o Rio de Janeiro há mais de três décadas. Como ele próprio diz, “ganha a vida com palavras”. Usa-as e abusa delas. E no novo livro começa por onde se pode acabar, citando Murilo Mendes, um autor brasileiro: “Toda palavra é adâmica: nomeia o homem que nomeia a palavra”.

PAIXÃO. Sérgio Rodrigues lançou no Rio de Janeiro novo livro sobre a língua portuguesa

PAIXÃO. Sérgio Rodrigues lançou no Rio de Janeiro novo livro sobre a língua portuguesa

FOTO BEL PEDROSA

Como é que a sua “declaração de amor à língua” pode aproximar Portugal e Brasil, países com usos tão distintos do idioma? Uns abertos à novidade e outros receosos em modificar o que está estabelecido.
As diferenças entre nossos usos da língua não são tão simples de resumir, mas acredito que este possa ser um dos eixos do debate. Minha “declaração de amor à língua” é voltada apenas para o Brasil. Não me parece que falte estima ao idioma em Portugal — o problema aí talvez seja mesmo um excesso de zelo. Aqui, para uma grande fatia da população, falta carinho, cuidado, conhecimento, orgulho. O problema tem dois polos bem marcados: o do conservadorismo subserviente ao jeito lusitano de falar, que torna o indivíduo incapaz de reconhecer as riquezas propriamente brasileiras da língua, e o do desprezo ao português como um todo, retratado como um idioma enrolado, difícil e menor. A primeira postura se faz presente em livros didáticos, salas de aula. A segunda, nas conversas do dia a dia, nas redes sociais. As duas me parecem francamente idiotas. A boa notícia é que a língua em si não toma conhecimento dessas coisas, segue em frente com a vitalidade de sempre. No fim das contas, trata-se de um problema mais psicossocial do que linguístico.

Porque é que não foi mais longe na abordagem sobre a forma como Portugal lida com o seu idioma?
Porque não era meu objetivo e porque não creio que caiba a um brasileiro fazê-lo.

No livro diz que, mesmo no Brasil, há fações mais rígidas e outras mais liberais. Como caracterizaria as diferenças entre a utilização brasileira e portuguesa do idioma? O que é que realmente, na sua opinião, os distingue?
São países e culturas distintas, é natural que haja formas distintas de usar a língua, com variações sobretudo vocabulares, mas também gramaticais em alguma medida. Certamente o português brasileiro tende a ser mais plástico e irreverente e o lusitano mais respeitador da tradição, embora tais estereótipos possam ser redutores quando aplicados a estilos individuais.

Como está a ser aplicado o Acordo Ortográfico no Brasil? Em Portugal foi alvo de grande polémica. Há quase duas décadas que o assunto se arrasta. É possível aproximar as duas utilizações da língua portuguesa?
Sou favorável ao Acordo, que no Brasil já está implantado. Considero seu texto mal costurado em diversos aspetos, e é claro que também me incomodou que viessem mexer em meu modo de escrever. Paciência: foi o Acordo a que pudemos chegar, e me parece inegável que é melhor, para todos os países lusófonos, caminhar no sentido de uma ortografia única. Trata-se de uma aposta, uma tentativa de, a longo prazo, encurtar a distância que vai se alargando entre nós. O cisma ortográfico nasceu da vaidade de académicos dos dois lados do Atlântico, nunca deveria ter ocorrido. No século XIX, nossos modos de usar a língua eram mais próximos do que são hoje. Eça soa muito mais familiar para nós do que um escritor português contemporâneo. Se nada fizermos, em mais algumas gerações já não falaremos o mesmo idioma, uma ideia que me desagrada bastante.

Sublinha logo à partida que a sua visão da língua é a de um escritor. Significa que é mais aberto à criatividade?
A ideia não é tanto enfatizar a criatividade, mas o fato de que não sou linguista nem professor de português. Minha formação universitária se deu em jornalismo, e além disso sou escritor profissional. Ou seja: antes de ser meu campo de estudo, a língua é meu instrumento de trabalho. Isso significa que existe uma inversão na abordagem dos problemas. Diante de uma dificuldade, como as dúvidas que os leitores me enviavam nos “consultórios gramaticais” que mantive na imprensa, o meio era a pesquisa, a consulta a dicionários e gramáticas, mas no fim sempre estava a língua, o uso, o ouvido, o pacto entre quem escreve e quem lê. Se uma regrinha qualquer é sancionada pelos sábios mas não bate bem no ouvido, na alma, então não serve.

Porque diz que falta amor à língua portuguesa no Brasil?
Porque falta. Sobretudo numa certa classe média urbana menos culta, reverencia-se o inglês de forma tonta e é comum ouvir o seguinte: “Ah, por que não fomos colonizados pelos holandeses!”. Isso tem a ver em parte com a qualidade de nossa educação, que precisa urgentemente passar por uma revolução se quisermos fazer frente aos desafios do século XXI. Mas acredito que seja também reflexo de uma falta maior, quem sabe de uma briga com nossa imagem no espelho. Sociedades filhas do colonialismo têm alguma dificuldade em saber o que são, o que querem, o que podem. A baixa estima à língua é uma forma de baixa autoestima.

Na primeira epígrafe do seu livro cita Murilo Mendes e pode-se depreender que defende que as identidades luso-brasileiras decorrem da essência da língua portuguesa. Como?
O que Murilo diz é um tanto óbvio, mesmo sendo muito bonito: toda língua cria e ao mesmo tempo é criada por quem a fala, dialeticamente. Mas para empreender uma análise das relações entre o português e nossas identidades nacionais seria preciso escrever outro livro, e bem mais grosso do que este!