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Três meses de bebé-milagre. E está tudo bem

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5,5 kg e 48 cm de esperança

José Carlos Carvalho

Durante 15 semanas, Lourenço resistiu à morte da mãe. Dentro dela. Há 90 dias nasceu, descobriu o pai e juntos aprendem a ser família

Christiana Martins

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Texto

Jornalista

José Carlos Carvalho

José Carlos Carvalho

Fotos

Fotojornalista

Ninguém sabe o que vai na cabeça de um bebé. E ninguém, mesmo ninguém, sabe o que vai na cabeça de um bebé que cresceu no útero de uma mãe que morreu antes de ele nascer. Não se sabe, mas pode ver-se. E é assim, por sinais, pequenas pistas que Lourenço Salvador mostra à família e aos médicos como está a adaptar-se a um mundo que o recebeu de forma diferente dos demais bebés. Ele nasceu no lugar onde muitos morrem, no Serviço de Neurocríticos do Hospital de São José em Lisboa. Agora, quase a completar três meses prova como viver é um ato de resistência.

Às 13 horas em ponto, Lourenço dá um grande sinal de vida. Chora a plenos pulmões e anuncia que quer comer. O pai, Miguel Ângelo Faria, levanta-se e vai buscar o bebé, que chega de olhos escuros muito abertos. São os da mãe. À espera, na sala do apartamento arejado nos arredores de Lisboa, um casal de meia idade. Joaquim e Elisabete Candeias. Ela é irmã da avó paterna — já falecida — de Lourenço. Ele, o marido dela. Foram eles que acolheram Miguel Ângelo e o filho, quando chegou a hora de a criança abandonar o ninho em que se transformara a Maternidade Alfredo da Costa (MAC).

josé carlos lourenço

Lourenço Salvador tem muita força, tanta que faz fisioterapia para relaxar os músculos. Tudo na criança é observado. Miguel Ângelo Faria mudou-se com o filho para casa dos tios, Joaquim e Elisabete, enquanto goza a licença de maternidade e paternidade. Só regressa ao trabalho em dezembro. Ainda está a aprender a ser pai

Lourenço Salvador tem muita força, tanta que faz fisioterapia para relaxar os músculos. Tudo na criança é observado. Miguel Ângelo Faria mudou-se com o filho para casa dos tios, Joaquim e Elisabete, enquanto goza a licença de maternidade e paternidade. Só regressa ao trabalho em dezembro. Ainda está a aprender a ser pai

josé carlos lourenço

Até agora resguardado da pressão mediática que cercou o nascimento da primeira criança que em Portugal cresceu durante 15 semanas na barriga de uma mãe em morte cerebral, esta é a primeira vez que Lourenço se dá a ver à vontade. É o “bebé-milagre” que Portugal conhece das notícias. Visto de perto, é apenas mais um bebé. Carinha redonda, cabelo penteado, pijama amarelo com galinhas. Uma criança, bem tratada, acostumada a ser atendida, não fosse o choro exigente sinónimo de quem está habituado a receber o que pede. “Ele está mimado, é a prioridade da casa, assim que ele chegou, deixámos de ser nós”, confessa Elisabete Candeias, a tia-avó que desdobra-se em cuidados com Lourenço.

É no quarto dela e do marido que Lourenço dorme, numa alcofa branca, com um móbil de ursinhos castanhos. Foi aos tios que Miguel Ângelo recorreu quando se descobriu pai e sozinho. Mudou-se para a casa deles com o filho, onde foi recebido de braços abertos. É lá que, lentamente, com apoio de quem já tem duas filhas de 22 e 27 anos, vai descobrindo como tratar de uma criança em que todos os detalhes do comportamento são alvo de especial atenção.

Um caso de estudo

Lourenço é um bebé único. São todos, diremos nós. Não, ele é mesmo mais único do que os únicos. Mas sendo tão ímpar é em tudo igual aos demais. Chora, faz cocó, bolça, arrota, pede atenção. Aos três meses, tem 48 centímetros e 5,5 quilos. Dorme e acorda a cada três, no máximo quatro horas. Mas Lourenço também é diferente. Duas vezes por semana faz fisioterapia no Hospital de São Francisco Xavier, há uma semana fez mais uma ressonância magnética ao cérebro, daqui a alguns dias fará um exame genético para saber se herdará a doença renal que esteve na origem da alta de tensão que vitimou a mãe, Sandra Pedro. Vai ao Hospital de Santa Marta fazer exames ao coração. Já lhe observaram a visão e a audição e voltarão a fazê-lo. Até aos seis anos tem acompanhamento garantido na MAC e no Hospital Dona Estefânia. É um caso de estudo.

“Esta criança é uma vitória da medicina portuguesa, mas só o será realmente se conseguir desenvolver-se bem e nós estamos cá para ajudar”, garante Joaquim Candeias. Mas a singularidade de Lourenço tem custos: a criança e o pai são facilmente reconhecidos. “Quando fomos tirar o cartão do cidadão, o funcionário que preenchia os dados, quando ouviu Lourenço Salvador, levantou a cabeça à procura do pai, de quem já saíram fotografias nos jornais, como que para confirmar que era a criança das notícias”, conta o tio-avô.

Há alguns dias, o bebé habitualmente resguardado no apartamento dos tios, saiu de casa para uma importante visita. Foi conhecer alguns dos principais responsáveis pelo seu nascimento. No serviço de Neurocríticos do São José andou no colo de Susana Afonso, a médica que recebeu Sandra Pedro, derreteu o coração da equipa de enfermagem que durante meses massajou a barriga dela e colocou música ambiente para que o bebé, sem possibilidade de interagir com a mãe, recebesse algum sinal do local onde crescia. A festa foi grande, houve lágrimas e a promessa de regresso está feita. Até porque, explica Elisabete Candeias, sempre que o bebé volta aos hospitais onde foi tratado, ela faz questão que visite os médicos que o ajudaram a chegar até aqui.

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Mas o caminho de Lourenço até à sua nova casa não foi curto e não apenas devido às questões médicas. Antes de a criança chegar, o apartamento dos Candeias foi visitado por duas técnicas da Segurança Social, que verificaram que tinha as condições necessárias para receber o bebé. E, antes da alta e durante duas semanas, Elisabete foi à MAC aprender como se trata de um prematuro. “No último dia ainda levei comigo uma lista enorme de dúvidas para esclarecer antes de o trazer”, conta a tia-avó.

Miguel Ângelo acompanha a conversa sobre os detalhes que envolveram a chegada de Lourenço com o bebé no colo. Está distraído com o menino, diverte-se a tentar fazê-lo rir, embora seja cedo para pedir este tipo de reações à criança. É o pai que lhe dá o biberão, que o faz arrotar. Atrapalha-se um pouco quando o bebé fica inquieto: “O que se passa? ‘Tás a rir-te de mim? És um quadrilheiro!”

Sabe que a história dele com o filho foi contada de muitas formas nos jornais e quer esclarecer o que diz estar errado. Como o nome da criança. “Quando soubemos que a Sandra estava grávida, ela disse que se fosse rapariga quem escolhia o nome era ela e seria Mara, se fosse rapaz, escolhia eu e seria Salvador. Ela preferia Lourenço e, depois do que aconteceu, eu quis deixar Lourenço Salvador”, explica, contrariando a ideia de que Salvador seja consequência da forma como o bebé nasceu. Uma alusão ao “milagre” que quase se tornou uma alcunha. A família da mãe queria que a criança se chamasse Lourenço José, em homenagem ao hospital onde nasceu. Miguel Ângelo recusou e esta é apenas a mais pequena das divergências entre eles.

Embora discorde das explicações divulgadas, o pai de Lourenço retrai-se quando o tema é a batalha jurídica que o separa dos familiares de Sandra sobre quem terá o direito de ficar com a criança. Miguel Ângelo sabe que o tema é espinhoso mas acaba por contar a sua versão. Diz que na última reunião que o reuniu perante o juiz, a Comissão de Proteção de Menores, os advogados de ambas as partes e o representante da Segurança Social, não foram estabelecidos dias de visita para os avós maternos, mas que estes “podem visitar a criança sempre que desejarem”. “Mas há um mês que não vêm”, lamenta Elisabete Candeias. Quem já apareceu foi Diogo, o filho de 12 anos que Sandra teve numa primeira relação. E tudo correu bem, com o mais velho a segurar o mais pequeno no colo.

No próximo dia sete, Lourenço Salvador completa três meses de vida. Mas feitas as contas é como se tivesse um mês, afinal, nasceu de 32 semanas, ou seja, dois meses antes do habitual. Aliás, nada naquela criança é usual, mas, visto de perto, parece igual a qualquer outro bebé da mesma idade. “A cada dia que passa, os sinais são mais positivos”, anima-se o pai. E ainda bem.

BOLETIM CLÍNICO

Até agora, nada de nada foi encontrado

“A situação é tranquilizadora, o bebé parece bastante bem e não tem nenhum diagnóstico de patologia”. É assim, muito tranquila, que Teresa Tomé, diretora de Neonatologia da Maternidade Alfredo da Costa, responde às perguntas sobre o estado de saúde de Lourenço Salvador. A última vez que o viu foi há quase um mês e em breve e deverá voltar ao hospital para nova consulta. Depois de todos os exames a que tem sido submetido, nada de anormal foi encontrado e por isso muitas das medidas adotadas “são mais preventivas do que terapêuticas, devido às condições específicas do pré-natal”. Antes de nascer tinha sido submetido a mais de uma ressonância magnética, exame que teve de repetir há oito dias. Duas vezes por semana faz fisioterapia, apenas porque “muitos bebés prematuros têm tendência para um aumento do tónus muscular e a fisioterapia visa contrariar esta situação”, explica Teresa Tomé. Colocado sob a lupa das equipas médicas, Lourenço Salvador já fez exames à visão, à audição e ao coração e será novamente avaliado. Até o seu código genético será analisado para se tentar perceber se o bebé terá herdado a condição renal que acabou por levar a sua mãe à morte. Exame idêntico a que o filho mais velho de Sandra já foi submetido. Com toda a sua experiência, Teresa Tomé alerta que “o diagnóstico de algumas sequelas dos prematuros só pode ser feito após seis meses de vida” e que, por isso, Lourenço tem de continuar a ser atentamente acompanhando. Mas a médica repete que até agora nada de nada foi encontrado.

CRONOLOGIA

20 de fevereiro
Sandra Pedro, grávida de 17 semanas e com uma doença renal, tem um pico de tensão e é levada de urgência para o Hospital de Vila Franca de Xira e depois transferida para o São José, em Lisboa, onde lhe é declarada morte cerebral

15 semanas
Durante quase quatro meses, a mãe é mantida em suporte artificial de vida para permitir a viabilidade da gravidez

7 de junho
Lourenço Salvador nasce com 2,350 kg às 32 semanas de gestação. No dia a seguir, a equipa médica do São José e da Maternidade Alfredo da Costa dá uma conferência de imprensa para anunciar o feito ao país

5 de julho
Depois de um mês a preparar-se para enfrentar o mundo exterior, Lourenço vai para casa

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 3 de setembro de 2016