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Juntos, mas cada vez mais separados do casamento

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Católico, civil ou união de facto? Com que idade se pensa juntar os trapos? O que nos dizem os números sobre o que representa para os jovens de hoje uma das instituições mais antigas da humanidade

Ana Soromenho

Ana Soromenho

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Jornalista

Ana Serra

Ana Serra

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GettyImages

Sabia que a rainha Vitória foi a primeira mulher a casar de vestido branco, véu e flor de laranjeira na cabeça coroada? Consta que casou por amor, em meados do século XIX, com o seu primo direito, o príncipe Alberto, e que foi a partir de então que todas as mulheres do mundo ocidental começaram a imitá-la para ver se tinham a mesma sorte... Crendices e superstições à parte, uma das poucas verdades que ainda sabemos no que diz respeito ao matrimónio é que a tradição já não é o que era.

Que o digam Margarida e Eduardo. Acabaram de ter o primeiro filho no início deste verão, ela com 32 anos, ele com 34, depois de terem iniciado há cinco anos a sua vida conjugal, sem celebrações formais nem trocas de discursos amorosos perante familiares e amigos. Nessa noite, cada um fez a sua refeição com a respetiva família e depois de jantar encontraram-se na nova casa onde iriam passar a viver. Não quer isto dizer que não sejam românticos ou que não acreditem que o amor possa durar para sempre. Simplesmente, casar ou viver juntos significa a mesmíssima coisa. Como nos dizia Margarida, só ponderaria formalizar a relação por uma razão meramente prática. “Como, por exemplo, se houver alguma vantagem financeira para comprar um imóvel ou adquirir outro bem conjunto”, confessa. Já Francisco, de 28 anos, acabado de chegar de Paris, onde trabalhava num ateliê de arquitetura, celebrou ao fim de alguns anos o casamento civil com a namorada com quem vivia. “Apesar de vivermos juntos, não nos sentíamos como sendo um casal”, explica o arquiteto.

Independentemente das razões que levam alguns a celebrar o contrato de casamento e outros não, tanto as histórias de Margarida e Eduardo como a de Francisco fazem com que sejam incluídos no número das estatísticas que nos informam de como é que as gerações mais novas vivem o matrimónio, anunciando uma mudança de paradigma.

Segundo dados recolhidos em 2015, o nascimento de filhos no contexto da união de facto (ou noutros contextos) já representa 51% entre o total de nascimentos, ultrapassando os de filhos de pais casados. “É um dado relevante, porque em termos históricos é a primeira vez que acontece”, esclarece Maria João Valente Rosa, diretora da Pordata, a maior base de dados nacional, sobre Portugal contemporâneo. Outro dado também relevante a assinalar é que a maior percentagem de casamentos entre 2014 e 2015 foram celebrados depois de já existir uma história de vida comum, com era o caso de Francisco.

“Muitas vezes pensamos em Portugal como um país conservador, e quando nos comparamos com outros países da União Europeia estes valores não nos deixam de surpreender”, sublinha a demógrafa. “É curioso observar que, dentro da percentagem de filhos fora do casamento (ou noutros contextos), estamos mais próximos dos números dos países nórdicos do que dos países do Sul, de raiz católica, com os quais seria suposto termos maior proximidade. Neste sentido, também é importante observar a evolução do casamento católico, num gráfico claramente decrescente, em relação ao casamento civil, que proporcionalmente aumentou os seus valores”, acrescenta.

Seguindo as pistas que nos transmitem os dados estatísticos, uma das primeiras conclusões que podemos tirar é que o casamento institucional já não é o pilar fundamental para um projeto de parentalidade. Outra é que, se num passado recente existia uma forte ligação entre casamento e conjugalidade, esta dinâmica também se alterou. Nos últimos dois anos, 52% dos primeiros casamentos registados aconteceram entre pessoas que já partilhavam residência. Este dado, naturalmente, altera a idade média do primeiro casamento, que começa a acontecer cada vez mais tarde — 32 anos para os homens e 31 para as mulheres —, embora continue a realizar-se mais cedo em comparação com outros países da União Europeia. Todos estes números estarão decerto relacionados com outros fatores, que fazem adiar a entrada na vida adulta, como o prolongamento dos estudos ou a entrada no mercado de trabalho.

E o que significam todas estas mudanças? “Que, cada vez mais, a vontade individual sobrepõe-se aos comportamentos impostos pelas instituições. Isto não quer dizer que as pessoas se tenham tornado mais individualistas. O que passou para primeiro plano foi o projeto amoroso, e o casamento, enquanto instituição, perdeu a função de representação social que tinha”, explica Maria João Valente Rosa. É uma trajetória não totalmente linear mas que corre ao compasso da evolução dentro da sociedade portuguesa. E, neste sentido, o matrimónio é um bom barómetro para percebermos a história dessa evolução.