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O mundo de chinelo no pé

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Getty Images-

Nasceram no antigo Egito, mas foi a civilização nipónica que os fez chegar aos dias de hoje, influenciando todo o mundo ocidental. Os brasileiros deram a maior das ajudas e agora ninguém vai a lado nenhum sem eles

Há 30 anos, quem andasse de chinelos à noite ou os combinasse com um guarda-roupa um pouco mais sofisticado passaria por maltrapilha. Quem tentasse ir trabalhar com eles calçados levaria uma descompostura do chefe — e há mesmo sérias dúvidas que ousasse sequer fazê-lo. E quem os calçasse dia e noite poderia ser considerado um pobre diabo. Sim. Os chinelos serviam para levar para a praia, a piscina e pouco mais. Talvez para andar por casa, também. Hoje tudo mudou. Quem não tiver um bom par de chinelos não vai a lado nenhum. E há-os para todos os gostos.

Birkenstock, Reef, AsPortuguesas, Havaianas... é só citar a marca preferida, enfiar o pé e enfrentar o verão. Já ninguém passa sem eles. Verdadeira história de sucesso, a dos chinelos que agora usamos tem início na década de 50 do século passado, apesar do verdadeiro boom na procura deste tipo de calçado ter acontecido apenas na última década.

Nessa altura, já os americanos mais abastados que passavam férias nas quentes praias do Havai os tinham importado do Oriente, mas o uso era ainda restrito. Foi preciso que dois visionários brasileiros resolvessem fabricá-los em massa no início da década de 60. Feitas em borracha branca e com tiras azuis, o modelo original chegou ao mercado em junho de 1962. Sem grande efeitos visuais, as primeiras Havaianas (nome inspirado precisamente no local onde os ocidentais primeiro usaram os chinelos) foram produzidas a um ritmo de mais de mil pares por dia logo no primeiro ano de vida. O preço, muito baixo, foi o principal fator do sucesso inicial. Mas os chinelos brasileiros mais conhecidos do mundo eram tidos como calçado de pobre. De tal forma eram populares entre as classes mais baixas que, em 1980, ano em que já eram vendidos mais de 80 milhões de pares, os chinelos foram considerados no Brasil um dos produtos de primeira necessidade, a par do feijão ou do arroz.

A democratização das Havaianas, contudo, só viria a acontecer em meados dos anos 90. Numa estratégia de marketing forte, a marca lança novos modelos com cores fortes dirigidos às classes mais altas. Os preços aumentam e as campanhas publicitárias reforçam a qualidade e o estilo dos chinelos. O primeiro anúncio foi protagonizado por Chico Anysio, mas o humorista não foi o único “garoto-propaganda” — o apresentador Jô Soares e a modelo Daniella Cicarelli também deram a cara, e o pé, pela marca. O resultado foi a venda de 300 mil pares das novas Havaianas.

As cores, os padrões e a variedade de modelos salta além-fronteiras no início do século XXI, altura em que a competição no mercado dos chinelos já é acesa. Todas as grandes marcas de desporto criaram os seus chinelos, sobretudo aquelas que se dedicam aos chamados desportos de praia, como o surf, que assume novo protagonismo a nível mundial. As Havaianas continuam a explorar os mercados internacionais e atingem números de venda exorbitantes, mais de 200 milhões de pares por ano, sendo 15% deles vendidos fora do Brasil, em 90 modelos, em mais de 65 cores e 500 combinações. Porém, o sucesso do calçado de “pé descalço” é dividido por muitas linhas diferentes de chinelos.

Uma das mais fortes é a gama de alta qualidade produzida pela Reef, uma empresa que nasce em 1984 da vontade e da paixão de dois irmãos argentinos, Fernando e Santiago Aguerre. Nos anos 70, os dois surfistas abriram no seu país natal uma loja dedicada ao seu desporto de eleição, onde vendiam desde fatos de surf a revistas. Ao conversarem com os clientes perceberam a sua necessidade premente de chinelos que atendessem às exigências específicas dos surfistas. Prontos para os fabricar, os irmãos partiram para o Brasil para se familiarizarem com o mercado dos chinelos. Depois de várias estadias no país irmão, lançaram mãos à obra mas na Califórnia, sediando-se em San Diego. E, com quatro mil dólares nas mãos criaram a Reef Brazil, decididos a fabricar os melhores chinelos do mundo para aqueles que de alguma forma estivessem ligados ao surf ou ao seu estilo de vida. Brasil, escrito à inglesa, remetia para as suas experiências de aprendizagem naquele país mas também para um clima tropical e belas praias, tal como os brasileiros tinham feito com as Havaianas.

Não tiveram o sucesso imediato dos primeiros chinelos mas ainda assim venderam três mil pares só num ano. Com a popularidade a aumentar ao longo dos anos, os dois argentinos resolveram consolidá-la através de um marketing inovador. Exemplo disso é a chamada Miss Reef, uma estratégia que tem por objetivo a diferenciação da marca face às suas concorrentes e que assenta na divulgação de peças de publicidade protagonizadas por mulheres de corpos esculturais, invariavelmente de biquíni bem cavado e fotografadas de costas. A forma do biquíni, dizem, é exatamente a mesma da tira do chinelo Reef. Mas a marca, consumida maioritariamente por homens, só lançou o seu primeiro modelo feminino na viragem do século.

De âmbito muito diferente mas também com um índice de popularidade enorme, a marca alemã Birkenstock trabalha arduamente para criar o maior conforto possível ao andar, criando chinelos ortopédicos que chamaram a atenção do mundo. A história remonta ao final do século XIX, quando o mestre sapateiro Konrad Birkenstock começa a produzir palmilhas flexíveis nas duas lojas que tem em Frankfurt. A I Guerra Mundial faz com que seja contratado para produzir calçado para os soldados feridos. A maleabilidade e flexibilidade dos seus produtos são excelentes e, em 1925, nasce a primeira fábrica. Sempre apoiado pela Medicina, é em 1963, já com outro Birkenstock à frente da produção, desta vez um Karl, que surge no mercado o modelo “Madrid”. É o primeiro chinelo da marca. Mas é em 1984 que a fábrica dá o grande salto. São produzidos seis novos modelos de chinelos e as encomendas das lojas especializadas aumentam exponencialmente. Porém, é já no século XXI que a Birkenstock chega à moda. Em 2004, a prestigiada revista de moda inglesa “Drappers” atribui-lhe o prémio para melhor marca de calçado, reconhecendo a intemporalidade do design e a alta qualidade de fabrico.

Exemplos como estes multiplicam-se no mundo do calçado de verão. E todos eles têm o mesmo denominador comum: o Japão. De facto, foi a civilização nipónica que criou o chinelo que influenciou os cinco continentes. Chama-se zori e era sobretudo usado nas cerimónias mais formais, onde o quimono era o traje obrigatório. Hoje também passou a ser calçado no dia a dia e é já fabricado em vários materiais. Na sua origem, contudo, era feito de palha de arroz ou de madeira lascada. Muito úteis e ideais para o clima húmido do Japão, os zori facilitavam a transpiração e fizeram as delícias dos soldados americanos, que os levaram na mala quando regressaram ao país depois da II Guerra Mundial.

O círculo fecha-se aqui. Mas convém lembrar que se reclama a origem do chinelo à civilização egípcia. Por volta de 4000 a.C. surgem os primeiros indícios de que o papiro e as folhas de palmeira passaram a cobrir a sola dos pés no antigo Egito. O mais antigo chinelo egípcio está em exposição no British Museum e data de 1500 a.C. Entre as suas funções destaca-se a proteção dos pés da terra escaldante, mas também o bronzear dos mesmos e, no caso das mulheres, a aplicação de joias e adereços. O que volta a não ser raro hoje. De África e do povo Masai em particular chegam os chinelos feitos em couro cru e da Índia aqueles trabalhados em madeira. Em suma, tudo a que chamamos em todas as variantes chinelos, sandálias, tamancos ou socas.

Artigo publicado na edição de 27 agosto 2016