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Nice: O luxo das coisas simples

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Porto de Nice

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Não são precisos iates nem descapotáveis reluzentes para se ser feliz na Riviera francesa

Ahhhh, a Côte d’Azur... Se a vida fosse como nos sonhos, tê-la ia descoberto com as mãos agrafadas ao volante de um descapotável, uma flamejante loira ao lado e uma prodigalidade de sexo despudorado com vista para aquele mar azul-turquesa. No mundo real, porém, cheguei a Nice num voo low cost, temendo que o passageiro à minha frente me esmagasse as rótulas sempre que ajeitava o assento. Vale que a viagem é curta e aguentam-se bem duas horas com os joelhos colados ao queixo.

Alojei-me no Villa Rivoli, um boutique hotel numa casa da Belle Époque, a dois minutos a pé da Promenade des Anglais. A avenida marginal estende-se por cinco quilómetros, pontuada por palacetes e hotéis de luxo, e, do lado do mar, por palmeiras, barraquinhas coloridas, espreguiçadeiras e guarda-sóis alinhados de forma geométrica. Ao percorrer aquela passerelle, vendo como o Mediterrâneo beijava os seixos da praia, senti-me por momentos como se estivesse dentro de um quadro de Matisse, que viveu na cidade durante três décadas.

Promenade de Anglais

Promenade de Anglais

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Apaixonei-me de imediato por Nice. Não precisei de iates nem de descapotáveis reluzentes, bastou-me aquele perfume a maresia para me aprisionar como o canto de uma sereia. Perdido nestes pensamentos demorei meia hora a chegar à Rue Bonaparte, que de um emaranhado de armazéns industriais se transformou numa das zonas mais cool da cidade. Jantei no Jan, um restaurante sofisticado mas não pretensioso, com pratos inspirados na cozinha sul-africana, como o bobotie, uma iguaria com carne moída assada e cobertura de ovos batidos com leite.

Foi a minha única concessão à cozinha internacional, porque não faltam em Nice razões para nos rendermos aos sabores da região. Um bom lugar para os descobrir é o La Merenda, um encantador bistrô onde cabem menos de 30 pessoas e que não tem telefone nem e-mail e não aceita cartões bancários. Na minúscula cozinha aberta para a sala está Dominique Le Stanc, um chefe de cabelo grisalho apanhado em coque que trocou duas estrelas Michelin conquistadas no restaurante do hotel mais famoso de Nice, o Negresco, pelo regresso aos pratos mais simples, como o ratatouille ou o estocafic.

Depois de lá almoçar, deambulei por Vieux Nice, com os seus odores a pão acabado de cozer, sabões de lavanda e queijos de mil origens, até chegar à Praça Massena, rodeada de cafés e restaurantes debaixo de arcadas e apinhada de gente. A zona mais vibrante do centro histórico está, porém, já a caminho da Colina do Castelo: é em Cours Saleya que, de terça a domingo, se realiza um dos mais pitorescos mercados de flores, frutas e vegetais de França. Ao fundo da rua é possível ver a fachada amarelada da casa onde Matisse viveu. “Quando percebi que todas as manhãs veria esta luz, não pude acreditar quão afortunado era”, escreveu em 1917.

Praça Massena

Praça Massena

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Esperei até ao final da tarde para subir à Colina do Castelo, que separa a cidade velha do porto de Nice. A fortaleza desapareceu há três séculos, mas persistiu o deleite que é a vista dos miradouros espalhados pela colina. Cansado de tanto caminhar com o sol a crepitar na pele, deixei-me cair junto a uma árvore e fiquei a observar os miúdos que jogavam à bola, casais de namorados a fazerem juras de amor eterno e homens a passearem cães enquanto faziam olhinhos a beldades sem sutiã. Um lugar assim não precisa dos flashes de Cannes, nem dos banhos de champanhe de Saint-Tropez ou da aristocracia do Mónaco. Em Nice, o luxo é feito de coisas simples. Como um quarto de lua pendurada num céu azul cobalto salpicado de estrelas.