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Morreu Maria Isabel Barreno, voz singular da igualdade

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A Investigadora e escritora — acérrima defensora dos direitos das mulheres — protagonizou, em 1972, o célebre “Caso das Três Marias”, um julgamento acompanhado por toda a imprensa internacional. Será cremada este domingo, pelas 17 horas, no cemitério dos Olivais, em Lisboa

Investigadora e escritora — e juntamente com Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta uma das mulheres julgada no processo conhecido por “Caso das Três Marias” em 1972 —, Maria Isabel Barreno morreu na tarde deste sábado, aos 77 anos. Quando estas publicaram a obra "Novas Cartas Portuguesas", o livro foi proibido pelo regime. Acusadas pelo Estado Novo de terem escrito um livro pornográfico e atentatório da moral pública e dos bons costumes, o seu julgamento foi acompanhado por toda a imprensa internacional.

Prolongou-se por dois anos, entre 1972 e 1974, e conheceu vários advogados, de Francisco Sousa Tavares a Salgado Zenha e Duarte Vidal. Conheceu o desfecho a 7 de Maio de 1974, já após a Revolução dos Cravos. As rés foram absolvidas. E na fundamentação da decisão do juíz, podia ler-se: “O livro 'Novas Cartas Portuguesas' não é pornográfico nem imoral. Pelo contrário: é obra de arte, de elevado nível, na sequência de outras obras de arte que as autoras já produziram”.

Em Portugal, esta ficou para a História como a primeira causa feminista — e para Maria Isabel Barreno todo o tumulto gerado em torno da obra contribuiu para que a Constituição da República de 1976 tivesse consagrado a “igualdade absoluta de direitos para homens e mulheres”. Maria Isabel dizia que a revolução do 25 de Abril de 1974 tinha sido o acontecimento mais importante da sua vida. Nascida em Lisboa, em 1939, numa sociedade repressora e aprisionada pela ditadura, cedo descobriu o prazer das letras. Aos seis anos, por culpa de uma doença, mergulhou na leitura.

OBRA VASTA

Depois, começou a escrever poesia — embora nunca a tenha mostrado ou publicado. Em adulta, escreveu romances, num estilo transgressor e diferente, marcado pela defesa dos direitos femininos. Publicou ainda trabalhos de investigação sociológica e contos na imprensa. Ao todo, gerou mais de 20 títulos, alguns dos quais premiados.

A escritora recebeu diversas distinções, entre as quais o Prémio Fernando Namora (pelo romance “Crónica do Tempo”, em1991), e os prémios Camilo Castelo Branco e Pen Club Português de Ficção, pelo livro de contos "Os Sensos Incomuns" (1993). Em 2004 foi feita Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.

“Vozes do Vento” (2009), sobre a história dos antepassados do seu pai em Cabo Verde, foi o seu último romance, publicado após uma pausa de 15 anos na escrita. No ano seguinte chegou o livro de contos “Corredores Secretos seguido de Motes e Glosas”. No tempo em que não se dedicou à escrita, Maria Isabel Barreno desenvolveu atividades noutros campos artísticos, nomeadamente as artes plásticas, com várias exposições de desenho e tapeçaria.

MINISTRO DA CULTURA DESTACA “A RIQUEZA DO SEU PENSAMENTO”

Luís Filipe Castro Mendes, ministro da cultura, destacou este sábado a “voz ativa” de Maria Isabel Barreno, escritora hoje falecida, aos 77 anos, na defesa dos direitos das mulheres. Numa nota de pesar divulgada pelo gabinete do ministro da Cultura, pela morte de Maria Isabel Barreno, o responsável recordou que a escritora nasceu em 1939, “num regime opressor”.

“A riqueza do seu pensamento e o rigor dos seus princípios em muito contribuíram para termos hoje uma sociedade mais justa, livre e igualitária”, salienta Luís Filipe Castro Mendes na nota de pesar.

Maria Isabel Barreno foi casada com Pedro Valente Pereira, de quem teve dois filhos, Cristóvão e Marcos. O corpo será cremada este domingo, pelas 17 horas, no cemitério dos Olivais, em Lisboa.