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Amores de verão

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MARIA. “Naquela época o Algarve era uma província resguardada pela serra e um segredo bem guardado. Guardo a memória de um Algarve de beleza indescritível”

tiago miranda

Romances de verão são passageiros e eternos, ritos de passagem entre a adolescência e a idade adulta. Quatro testemunhos, em épocas diferentes que contam, na primeira pessoa, como foram os primeiros amores (e desamores...) dos quatro protagonistas (este trabalho foi publicado originalmente na revista do Expresso de 18 de junho de 2011)

Maria João Bourbon

Maria João Bourbon

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Jornalista

Tiago Miranda

Tiago Miranda

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Fotojornalista

“Havia um leve rumor de amores adolescentes. Era como o rumor da brisa. Pois era o princípio da vida e nada ainda nos tinha acontecido. Ainda nada era grave, trágico nu e sangrento”
Sophia de Mello Breyner (“Contos Exemplares” - 'A Praia')

Maria, 65 anos. Algarve, início dos anos 60

"Do Algarve da minha infância e adolescência guardo memória da terra de um lugar de uma beleza indescritível, ainda intacto nas suas terras antigas e familiares. No fim de junho, as pessoas desciam até à costa para passar os três meses de verão.

A minha praia ficava no centro da costa algarvia. Era um sítio muito simples, com as ruas de areia bordadas de piteiras e campos de vinha moscatel. Havia uma única rua calcetada que ia da igreja à praia, onde ficava o correio, um pouco mais abaixo o velho casino semi-abandonado e o maravilhoso cinema ao ar livre.

Do outro lado da rua era a casa dos pescadores e a farmácia onde íamos comprar o óleo de coco com bergamota para nos fritarmos ao sol. Em frente ao mar só havia uma fiada de chalés de veraneio construídos no anos 30 e 40 - onde a maior parte das minhas amigas passava o verão -, dois cafés de madeira com os seus fiéis que se mantinham de ano para ano e o suprassumo da praia, a esplanada onde nas noites e nas matinés de domingo se dançava o mambo e o chá-chá-chá, ao som da orquestra Pax Júlia, que vinha de Beja para animar o nosso verão.

Eu tinha o meu grupo de rapazes e raparigas e pelas nove da manhã já estávamos na praia. Tomávamos banho, secávamos ao sol e fazíamos mil combinações que não variavam muito. À hora do almoço íamos a casa, e pelas quatro horas vestíamos os nossos vestidinhos de robbia e tobralco, voltávamos à praia, jogávamos ao mata, ao prego e passeávamos. Depois do jantar íamos à esplanada, ao cinema ou, simplesmente, falar.

Foi no verão de 58 que reparámos um no outro. Eu tinha 13 anos, ele 14. Sentíamo-nos como uma espécie de irmãos, uma maneira de ser diferente na proximidade de uma certa inquietação e, sobretudo, com um desejo de ultrapassar as nossas circunstâncias, que ainda não sabíamos exatamente quais eram.

Começámos um namoro muito inocente, que durou até setembro, mês em que eu ia sempre para as vindimas. Em outubro, voltava para o colégio interno. Nos verões de 59, 60 e 61, tudo recomeçava.

Quando terminei o quinto ano saí do colégio e fui para o liceu de Faro. Nesse ano passei a vê-lo quase todos os dias. Tínhamos as festinhas com pick-up em casa de uns e de outros aos sábados à tarde e as idas ao cinema ao domingo e, nesse inverno, em que éramos já adolescentes quase à beira de ser adultos, os sentimentos intensificaram-se. Para conseguirmos estar juntos era preciso muita habilidade.

Para o meu pai aquele namoro era impensável, pertencíamos a mundos diferentes. No verão de 62 a minha mãe levou-me para uma praia no norte do país, mais adequada à ideia que tinham para mim. Acabei aquele namoro, comecei outro diferente. Quando nesse inverno regressei ao liceu já não nos falávamos.

No verão de 1963, num dia de julho, na nossa praia, depois do jantar passei em casa de uma amiga. Quando entrei vi-o, extraordinariamente bonito, muito especial como era. A casa ficava em cima da areia e viemos cá para fora conversar para o poial. Falámos de coisas banais. Quando eu me ia embora pediu-me para ficar mais um pouco, disse-lhe que não.

De manhã, quando acordei foi o meu pai que me explicou que durante a noite tinha havido um acidente. Aquele rapaz, com a inconformidade dos seus 19 anos, tinha rasgado a estrada e riscado para sempre todos os limites. No verão seguinte casei-me. Este amor de verões e de verão ficou nos meus sonhos de mulher como um amor perfeito, inalterado, na nostalgia de tudo o que ficou para trás, nos limites do Guarda Che Luna e dos pirilampos."

Isilda, 51 anos. Sertã, distrito de Castelo Branco, final dos anos 70

ISILDA. “No mundo rural, os namoros estivais tinham o ritmo das colheitas sazonais”

ISILDA. “No mundo rural, os namoros estivais tinham o ritmo das colheitas sazonais”

tiago miranda

(Chega à conversa com risadinhas nervosas que lhe abafam os pensamentos. Antes de nos encontrarmos, escreveu duas folhas A4 nas quais, com uma caligrafia limpa, conta a história daquele primeiro romance. Começa por ler o manuscrito, protegendo-se assim da sua enorme timidez. Recuamos a setembro de 1977. Tem 17 anos, mas no seu pequeno mundo ainda nada se passara.)

"Todos os anos aparecia na Sertã, a minha aldeia, um senhor que ia buscar as pessoas para a apanha da uva. O rancho era quase só formado por pessoas jovens, íamos para uma quinta perto de Torres Vedras, eu era uma rapariguinha alegre e curiosa, estava encantada com a perspetiva de sair dali. Era a primeira vez. Mal chegávamos, arranjávamos um colega de carreira - a uva apanha-se aos pares - e juntos fazíamos toda a vindima. Os homens dormiam num barracão e as mulheres noutro, mas a vindima era feita num ambiente de proximidade e festa. No campo, as mulheres cantavam o tempo todo temas de folclore relacionados com as colheitas e nos fins de semana havia bailaricos.

Dei por ele uns dias depois de ter chegado. Era alto, bem-parecido, muito tímido, mas sentia que reparava em mim e aquilo dava-me grande alegria. As trocas de olhares duraram toda a época da colheita e no último dia, a 25 de setembro, havia sempre um grande baile. Dançámos a noite toda. Esperei que se pronunciasse, mas não o fez. No dia seguinte, cada um partiu para a sua aldeia e, passado algum tempo, chegou a primeira carta. Respondi-lhe. A segunda já vinha com o pedido obrigatório que dava início ao namoro."

(Daquele inverno que decorreu manso e reservado até ao verão seguinte, recorda-se vivamente das terças-feiras, dia em que aparecia o carteiro para na quarta levar a resposta que ela passara a noite a escrever. Certos domingos, a caminho da missa, a cinco quilómetros da aldeia, o namorado distante aparecia-lhe de surpresa de moto, apanhava-a na estrada, e lá ia ela com o coração sintonizado nos solavancos daquela breve intimidade partilhada. Em setembro voltaram à vindima.)

"Ficámos companheiros de carreira e andávamos sempre juntos. Era um namoro inocente que tinha a novidade de ser o primeiro. Quando acabou o verão anunciei que tinha outros planos. Uma tia de Lisboa arranjou uma casa para eu servir na cidade, no Bairro das Colónias. Pelo Natal, o Ricardo foi visitar-me e levei-o a passear a Belém."

(Mostra a fotografia, aos 19 anos, vestido grená com saia de godés abaixo do joelho comprado numa loja da Baixa com o primeiro ordenado. O cabelo, normalmente apanhado, solto pelos ombros. No regresso a casa, andaram perdidos pelo bairro sem atinar com o caminho. Provavelmente estaria perturbada.)

"Ele detestou a cidade, disse que não iria viver em Lisboa. Foi uma grande desilusão. O meu maior sonho era libertar-me da aldeia, tinha imaginado uma vida longe, sonhara até que poderíamos casar. Soube mais tarde que tinha emigrado para França. Demorei dois anos a desvanecer aquele amor."

Emília e Francisco, 70 e 71 anos. Figueira da Foz, final dos anos 50

EMÍLIA E FRANCISCO. “Coimbra era a base dos veraneantes da Figueira da Foz. Também apareciam os de Lisboa e Santarém e, ainda, espanhóis, o que dava àquela praia um certo cosmopolitismo”

EMÍLIA E FRANCISCO. “Coimbra era a base dos veraneantes da Figueira da Foz. Também apareciam os de Lisboa e Santarém e, ainda, espanhóis, o que dava àquela praia um certo cosmopolitismo”

tiago miranda

Francisco: "Naquele tempo um rapaz podia ter toda a soltura, mas não se conhecia uma rapariga de um momento para o outro, o que acabava por ser chato. Se as raparigas fossem 'sérias' os pais metiam-se logo ao barulho e tínhamos ali uma férrea vigilância. O mais fácil para os rapazes era conhecer as amigas das irmãs e, normalmente, tudo acontecia durante o verão.

Em 1959 eu tinha 19 anos e os meus dias de férias passavam-se assim: estava-se a manhã na praia e subia-se para almoçar. À tarde, só as raparigas voltavam à praia. Nós, os rapazes, íamos para as piscinas ou ao ténis. Algumas tardes eram passadas nas matinés. Tinha um grupo local, de malta que durante o ano não se dava mas que no verão coincidia na Figueira.

Todas as noites íamos para o casino, tinha assinatura para o mês inteiro, e aquilo era emocionante. Havia o espaço da dança e a rodeá-lo cinco filas de cadeiras onde se sentavam as meninas acompanhadas pelas respetivas mães.

Dançava-se aos pares. Para convidar alguém atravessávamos aquela sequência emocionante de fiadas de senhoras, uma espécie de via-sacra, e, por vezes, depois daquele trabalho todo, levávamos tampa. A dança era acompanhada pelos olhares avaliadores das 'mães' e tínhamos de nos portar muito bem. Não podíamos convidar uma menina para dançar de cigarro na mão, era mal visto. Havia uns especialistas que dançavam rock, eu não gostava muito de dançar e fumava cigarros.

Certas noites, esgueirávamo-nos até uma boîte onde havia uma espécie de striptease, coisa só para adultos, e sentíamo-nos muito intimidados, pois estávamos longe de nos sentir adultos. Estudava no Técnico, onde era rara a presença feminina, considerava as mulheres uma espécie menor e julgava pertencer a um tipo de escol que se diferenciava.

Nessa altura já me interessava por política, levava para férias um carregamento de livros e passava parte das tardes nos cafés. Nas minhas leituras desse verão marcou-me muito o Bertrand Russel, "Porque Não Sou Cristão", porque como andava com uma crise de fé, aquilo ia ao encontro das minhas preocupações metafísicas.

Nesse tempo as raparigas não andavam sozinhas. Emília era amiga da minha irmã e, uma tarde, apareceram na piscina. Conhecia-a do ano anterior, era vistosa, e eu estava na fase de olhar. Andava já na faculdade em Coimbra e tinha uma abordagem diferente das outras raparigas. Pedi-lhe namoro. Era obrigatório. Mas, também nessa época, era profundamente ridículo dizer 'amo-te', quando ouvíamos no cinema a palavra era a risada geral. Não me lembro exatamente o que lhe disse. Devo ter-me embrulhado todo."

(Sentada ao lado de Francisco a folhear um álbum de fotografias antigas, Emília lembra-se bem daquelas palavras. Nesse dia fazia 19 anos. De memória, repete o diálogo:
- Acho que gosto de ti, e se andássemos? A resposta dela foi direta e sem jogo.
- A tua companhia agrada-me. Acho ótimo enquanto aqui estivermos, mas quando voltar para Coimbra tenho outros planos.)

Emília: "Só queria um amor de verão. Faltavam dez dias para o fim do mês, tinha outros interesses e dava-me jeito aquele romance. De manhã namorávamos, à tarde dançávamos slows no casino e ele apertava muito. Às 8 da noite, impreterivelmente estava em casa para jantar. Em setembro despedimo-nos mais cedo do que era habitual porque tínhamos exames. Chumbámos os dois.

Começou a escrever-me e, num ou outro fim de semana, aparecia em Coimbra. Achava graça àquilo e por altura do Carnaval deu-me um clique. Sem saber porquê, estava apaixonada. Entretanto, houve a Queima das Fitas, o Francisco não estava e houve uma troca de olhares com outro rapaz. Uma coisa inocente, mas naquela época era tudo muito rígido.

A minha mãe fechou-me em casa. Nesse verão ia para a faculdade fazer os exames com ela atrás. Eu tinha 20 anos, já era uma mulher. Foi uma tremenda humilhação."

Francisco: "Nessa época era um rapaz ciumento e ela tinha arranjado interesses laterais. Fui persistente e fiz marcação. Os pais dela gostavam de mim, adiantei-me na conversa e casámo-nos. Tinha 22 anos. Hoje seria considerado um miúdo mas na altura como não se podia fazer rigorosamente nada e havia uma grande pulsão sexual, adiantava-se o casamento, antes dos rapazes irem para a tropa. Casámo-nos em 1962, dois anos depois parti para África, para a guerra colonial."

Vasco Cotovio, 22 anos. Lisboa, século XXI

VASCO. “Para um rapaz do século XXI, do tempo de todas as liberdades, o sonho faz parte do romantismo”

VASCO. “Para um rapaz do século XXI, do tempo de todas as liberdades, o sonho faz parte do romantismo”

tiago miranda

"Estava na Católica, em Comunicação Social, e comecei a reparar numa rapariga que fazia uma das disciplinas comigo. Baixa, morena, olhos castanhos. Gira. Sobretudo inteligente.

No início do verão de 2009, no último dia de aulas arranjei um pretexto e meti conversa. Estávamos em época de exames e a partir dessa tarde começámos a falar no chat do Facebook.

Ela tinha marcado uma viagem para os Estados Unidos e, na véspera de partir, encontrámo-nos no Chiado. Era a primeira vez que estávamos juntos. Ela ia ficar fora durante o mês de agosto. Durante a sua ausência, falávamos ao telefone todos os dias. Conversávamos de coisas simples, algumas confidências, mas raramente dizíamos o que sentíamos. Quando ela regressou eu estava no Algarve, de partida para o Brasil. Passei por Lisboa a correr, o tempo de fazer a mala e seguir para o aeroporto.

Não combinámos nada. Quando percebi que não a ia ver durante todo o verão, senti-me frustrado e fiz um esforço para manter regularmente o contacto. Cada dia que passava ficava mais ligado. Como se estivesse numa prova de superação de obstáculos. Do Brasil continuei a ligar. Estava de férias com a minha família numa praia de Fortaleza e aquilo tornou-se uma 'seca', porque o que queria era estar em Lisboa.

Encontrámo-nos na segunda semana de setembro. Ela convidou-me para aparecer lá em casa, para ver um jogo importante de futebol. Jogava Portugal, mas não me lembro contra quem porque não prestei atenção ao jogo. Estava com amigos dela e não conhecia ninguém. Nesse dia beijámo-nos.

"No dia seguinte fui ter com ela de manhã. Tinha escrito um poema para lhe oferecer e fiz a viagem de comboio até ao Estoril terrivelmente embaraçado com medo que achasse uma palhaçada."

(Cora quando fala do poema, um pedido de namoro à antiga, um gesto simbólico para selar um sentimento que julgava novo. Os amigos consideram-no lamechas mas também corajoso. Ele, que se achava um romântico, nunca tinha ido tão longe.)

"Namorámos quatro meses. Rapidamente percebemos que não fazia sentido, tínhamos pouco em comum. Os nossos planos não coincidam. Eu queria estagiar numa estação de televisão, ela fazer Erasmus em Madrid. Não era a primeira vez que eu tinha vivido 'amores de verão' fugazes, que pouco mais duram do que uma semana. Este foi mágico. Talvez tenha sido o tempo da espera que o tornou especial. Durante um verão inteiro, no ambiente de praia com amigos, tinha conseguido preservar-me e esperar por uma rapariga com quem só tinha estado uma vez. O amor tem um lado em que é uma construção."