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Quase metade das mulheres com cancro da mama ‘agressivo’ não precisam de quimioterapia

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SOBREVIVÊNCIA. 75% das mulheres com cancro da mama em Portugal têm tumores pouco agressivos e o teste genómico pode predizer se devem ser tratadas com recurso a quimioterapia

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Teste inovador demonstra que 46% dos tumores malignos da mama classificados como sendo de risco elevado estão sobreavaliados e o tratamento químico não compensa os efeitos adversos associados à toxicidade da terapêutica. Oncologistas garantem que a análise é muito útil, mas só está disponível no mercado privado

É das piores notícias que se podem ter na vida: o diagnóstico de um cancro. E piora quando não há muitas certezas sobre o tipo de tratamento mais adequado. Um estudo internacional agora publicado vem demonstrar que um teste inovador, já no mercado, permite conhecer melhor o tipo de tumor maligno, no caso da mama, e dar aos médicos mais certezas sobre a melhor terapêutica. Os resultados dos ensaios clínicos realizados, os primeiros do género, entre 2007 e 2011, revelaram que há erros nos prognósticos.

Aplicado a 6.693 mulheres, dos 18 aos 70 anos, em 112 hospitais de nove países europeus, não incluindo Portugal, o teste revelou incorreções nas classificações de muitos tumores malignos da mama feitas com recurso aos métodos tradicionais. Entre os cancros tidos como agressivos, 46% tinham, na verdade, perigosidade reduzida e a quimioterapia somente um benefício de 1,5% para a sobrevivência das doentes. Ou seja, uma percentagem que a maioria dos oncologistas considera inexpressiva face aos efeitos adversos que a toxicidade dos medicamentos provoca a médio e longo prazo.

70 genes estudados

O teste foi ‘ensaiado’ sob a coordenação de uma médica portuguesa e consiste no estudo de genes do carcinoma. “As novas tecnologias, disponíveis desde 2000, permitem analisar todos os genes dos tumores, num total de 44 mil, e este teste analisa 70 que permitem dividir os tumores entre baixo e alto risco, fazendo uma espécie de impressão digital”, explica a investigadora Fátima Cardoso, diretora da Unidade de Cancro da Mama do Centro Clínico Champalimaud, em Lisboa.

Os resultados, a título individual disponíveis ao fim de uma a duas semanas, permitem “compreender melhor a biologia do tumor — tipo de células, risco de recidiva (reaparecer) ou a possibilidade de metastizar (espalhar-se a outras zonas do corpo) — e decidir, para cada doente, se é necessária quimioterapia”. Segundo a especialista, o teste revelou que no grupo de baixo risco a probabilidade de as doentes estarem vivas ao fim de cinco anos era de 97% e o benefício da quimioterapia de apenas 1,5%, com todos os efeitos adversos conhecidos. A saber: “0,5% de doença cardíaca grave ou 1% de leucemia a longo prazo, ambos mortais”, salienta Fátima Cardoso.

“Os testes clínicos comuns que utilizamos há muitos anos [tamanho do tumor, número de gânglios linfáticos atingidos, agressividade das células cancerígenas ou idade da mulher, por exemplo] nem sempre conseguem identificar os tumores de baixo risco e com este teste conseguimos fazê-lo.” O ensaio clínico demonstrou também que quando os métodos clássicos não são conclusivos, os médicos optam pela sobreavaliação: os cancros são classificados como sendo de risco elevado e prescrita quimioterapia.

Em qualquer caso, com ou sem teste para prognóstico de recidiva do tumor, a decisão final é sempre da mulher. “Já tive algumas doentes que fizeram o teste genómico e as reações variaram muito. Ainda ontem, terça-feira, tive uma doente, com 58 anos, com um resultado de baixo risco e que podia dispensar a quimioterapia e que mesmo assim quer fazê-la”, conta a oncologista.

Teste custa €3000

A nova análise genómica e preditiva, com o nome comercial de “Mammaprint”, é feita na Holanda a partir de amostras do tecido cancerígeno da mulher. Custa atualmente 2800 a 3000 euros e não tem comparticipação das seguradoras nem do Estado, quer nos subsistemas públicos de saúde quer no Serviço Nacional de Saúde (SNS). Para já, só nos EUA e na Holanda há apoio. “Fizemos a análise de custo-benefício, em França e na Holanda, e o teste provou que permite poupar dinheiro”, desde logo nos medicamentos para quimioterapia.

O teste demonstrou, no ensaio clínico semelhante aos que fazem para os medicamentos, que é eficaz. E é apenas um dos que vão surgindo no mercado e ainda sob avaliação. “A oferta de testes genómicos para prognóstico de recidiva para quimioterapia é múltipla mas os testes ainda são incompletos, porque o cancro da mama, por exemplo, pode reaparecer ao fim de 20 anos”, salienta Luís Costa, diretor do Serviço de Oncologia do Centro Hospitalar de Lisboa Norte.

Para o especialista e investigador do Instituto de Medicina Molecular, em Lisboa, “este estudo (publicado nas revistas científicas internacionais) é importante e permite concluir que no futuro poderemos fazer tratamentos mais personalizados”. A oferta nos hospitais públicos deve por isso ser uma realidade, embora “só para alguns doentes e alguns tipos de testes genómicos”.

75% das mulheres com cancro da mama podem beneficiar

A presidente do Colégio de Oncologia Médica da Ordem dos Médicos, Helena Gervásio, partilha a mesma opinião. “Este teste é benéfico, mas não é para aplicação indiscriminada. Há um grupo de cancros da mama em que não é fácil distinguir entre o baixo e o risco elevado e nestes casos intermédios é útil saber se a quimioterapia terá um benefício inexpressivo e se haverá mais benefícios em fazer hormonoterapia”, explica a oncologista. E é neste grupo que estão a maioria das mulheres que anualmente são diagnosticadas com cancro da mama. “75% das mulheres com cancro da mama em Portugal têm recetores hormonais positivos, portanto um tumor com um risco médio ou baixo”, onde o teste permitirá predizer se a quimioterapia compensa, porque continuam a existir tumores que mesmo sendo pouco agressivos carecem de um combate químico.

“Vejo a possibilidade de este teste estar disponível no SNS face aos benefícios para as doentes e aos custos para o Estado, pois permitirá poupar nos gastos com a quimioterapia e com o tratamento dos efeitos secundários que possam surgir”, acrescenta Helena Gervásio. Atualmente “os custos vão desde 261,6 euros a 1.119 euros para o total de seis ciclos de tratamento adjuvante, dependendo dos citostáticos utilizados”, revela a médica, também diretora do Serviço de Oncologia do IPO de Coimbra.