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A freira que sobreviveu ao sismo em Itália. “Eu tinha dito adieu e afinal não era um adieu”

Uma irmã coberta de poeira e com a batina ensanguentada, sentada no chão em frente a um cadáver coberto, a enviar mensagens de telemóvel. Eis uma das fotografias de Amatrice, uma das localidades mais afetadas pelo terramoto, que está a marcar a semana

Marjana Lleshi estava a dormir no seu quarto no convento de Don Minozzi, ao lado da Igreja do Santo Crucifixo em Amatrice, quando o chão tremeu. Eram 3h36 (4h36 em Lisboa) de quarta-feira e Marjana estava a dormir nesse local, com seis outras irmãs, para cuidar de cinco idosas. Quando acordou, coberta de pó e a sangrar, apercebeu-se imediatamente da gravidade da situação. Escondeu-se debaixo da cama, chamou por ajuda, por alguém que estivesse fora do quarto. Não veio resposta.

Quando começou a perder a esperança de ser salva, a freira albanesa de 35 anos resignou-se e pegou no telemóvel. “Comecei a enviar mensagens aos meus amigos, para que rezassem por mim e pela minha alma, e despedi-me deles para sempre”, conta em declarações à Associated Press.“Não consegui enviar mensagens à minha família porque receei que o meu pai tivesse um colapso emocional e morresse ao ouvir isto.”

Mas, ao contrário do que aconteceria com três freiras e quatro idosas da Ordem a que pertence (que perderiam a vida no terramoto), a sua sorte acabaria por mudar. Lleshi foi salva por um jovem que ajudou a tirar várias pessoas do local. “Nesse momento, ouvi uma voz que dizia: 'Irmã Marjana, Irmã Marjana'.”

Tirou-a do quarto e disse-lhe para se sentar numa cadeira. “Eu não queria porque ainda estava a sentir as réplicas. Queria sentar-me no chão. Fi-lo e fiquei mais calma. E, quando percebi que estava a salvo, comecei a enviar mensagens às minhas irmãs e amigos, dos quais me tinha despedido para sempre.”

O momento, captado pelo fotógrafo Massimo Percossi da agência ANSA esta quarta-feira, está a tornar-se num dos símbolos do sismo de Amatrice: uma freira, coberta de poeira e com sangue na batina, a enviar mensagens através do telemóvel aos amigos a quem dissera que ia morrer. “Eu tinha dito adieu e afinal não era um adieu.”