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Violência gera violência?

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getty images

Especialistas acreditam que, cada vez mais, os miúdos fazem aquilo que veem na televisão

Quem tem filhos ou crianças a cargo depara-se, diariamente, com a eterna questão: até que ponto devem ver as imagens de violência que nos entram em casa pela televisão? Devemos protegê-los, alheando-os da realidade ou não? Acontecimentos como a multiplicação de atentados relançaram a questão para a ordem do dia.

Nos EUA, a Academia Americana de Pediatria divulgou a sua posição na matéria: “A violência nos ecrãs, principalmente aquela que é real, mas também a virtual, é muito traumática para as crianças, independentemente da sua idade”, afirmou Dimitri Christakis, diretor do Centro para a Saúde, Comportamento e Desenvolvimento Infantil do Instituto de Investigação Infantil de Seattle. “Não é raro assistir-se a um aumento dos pesadelos, distúrbios do sono e a um aumento geral da ansiedade na sequência destes eventos”, continua. “Os pais devem estar atentos à dieta mediática dos filhos e reduzir a violência virtual, sobretudo se as crianças derem mostras de tendências agressivas.”

O papel dos pais é tranquilizar os mais novos, explicando que a maioria das pessoas é boa e tentando não lhes incutir medo. O pediatra Mário Cordeiro não tem dúvidas de que “a banalização da violência ou do seu uso para dirimir conflitos está comprovadamente associada à ‘dose’ que a criança vê nos ecrãs, seja na televisão, nos computadores ou em jogos de consola”.

“Há uns anos, fizemos um estudo num agrupamento escolar de Lisboa, em crianças do 1º ciclo, e concluímos que havia uma relação significativa entre a violência vista em ecrãs e a facilidade com que afirmavam poder recorrer ao uso de violência. Sabe-se, pelos estudos sobre brinquedos-arma, que brincar com pistolas ou outras armas semelhantes às reais leva a que mais facilmente se perca a repulsa em pegar numa arma a sério, facilitando o seu uso”, concretiza o médico.

“A violência é atualmente representada de um modo desproporcionado relativamente à vida real.” Cordeiro defende que se deve ser implacável com quem vende certos tipos de jogos ou consolas a menores. E lembra a existência de videojogos “terríveis” em questão de valores humanos — mas que representaram sucessos comerciais estrondosos, como o “GTA” (“Grand Theft Auto”), em que o objetivo é roubar carros (carjacking) e no qual o jogador assume a pele de um criminoso, que lida com tráfico de droga ou prostituição, havendo até uma versão (o “GTA: San Andreas”) “em que o jogador pode ter relações sexuais com a namorada e ganhar pontos se chegar ao orgasmo”.

O pediatra insiste na ideia de que pequenos gestos podem levar a grandes mudanças. “A cultura da paz e a sua promoção não pode ser vista como coisa de totós ou momento zen. É a única forma digna de crescer, educar, ensinar e aprender, para que as guerras, as ditaduras, as Sírias, os Daeshs e tantas coisas parecidas não continuem eternamente a repetir-se”, explica.