Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Mr. Papparazzi

  • 333

Dirige um exército de 800 “paparazzi” espalhados por todo o mundo e a maior decisão da sua vida foi não publicar as últimas imagens da princesa Diana em Paris. Darryn Lyons, o Mr. Paparazzi, deu uma entrevista ao Expresso que publicámos na revista de 27 de setembro de 2008 e que agora republicamos

Paulo Anunciação

Paulo Anunciação

mr.

Correspondente em Londres

d.r.

As inúmeras fotografias da princesa Diana captadas pelas objetivas do australiano Darryn Lyons valeram-lhe o cognome de “Mr. Paparazzi”. Hoje, Lyons é o patrão da BIG Pictures, a maior agência de fotos de celebridades no mundo, com escritórios no Reino Unido, Estados Unidos e Austrália. A BIG tem 150 funcionários e mais de 800 paparazzi em todos os cantos do globo, além de interesses na área da televisão (BIG Pictures Productions), da Internet (MrPaparazzi.com) e das relações públicas.

Em 1988, Darryn Lyons aterrou no aeroporto de Gatwick com 22 anos e 500 dólares no bolso. Duas décadas mais tarde, o negócio das fotografias de celebridades transformou-o num milionário que viaja em jato privado e coleciona casas em Londres, Barbados, Saint-Tropez, Dubai e Austrália. Com a roupa extravagante e o cabelo caleidoscópico que são a sua imagem de marca, Darryn Lyons recebeu o Expresso na sede da BIG Pictures, em Londres - um gabinete coberto de primeiras páginas de jornais e de revistas, uma pele de leão e um trono de cabedal com a insígnia real. Excertos da entrevista:

Que talentos são necessários para se ser paparazzo?
Acho que todos os bons paparazzi têm um talento único, natural. Nasce connosco. Ou se tem ou não se tem. Tem de se ser obstinado e saber ter paciência. Mas para mim o ponto essencial é a capacidade de previsão. O ato de tirar a foto é apenas dez por cento desta arte. Os outros 90 por cento são esta capacidade de prever o que vai acontecer.

É preciso sorte, também?
Não sou um grande adepto da sorte. Nós construímos a nossa própria sorte - esse é um atributo de um bom paparazzo. Temos de ser eficazes no planeamento do trabalho e saber «cheirar» uma boa história. Quando me lancei como paparazzo tentava sempre estar um passo à frente dos outros.

Quanto tempo é que ainda dedica à atividade de paparazzo?
Agora muito pouco. A gestão da nossa agência e dos outros negócios que temos um pouco por todo o mundo deixam-me muito pouco tempo livre. Só fotografo as grandes celebridades ou os famosos que são amigos da agência. Por vezes sou forçado a abandonar a reforma risos. No outro dia, estava em Saint-Tropez quando senti alguém tocar no meu ombro. Era a Kelly Brook. «Olha, 'Dazza'. O Billy Zane, actor de Titanic e eu estamos separados. Achas que dá para fazermos umas fotos?» Como é que eu poderia recusar uma coisa destas? Já não fotografava há tanto tempo.

Já esteve em Portugal?
Fui a Portugal uma vez em trabalho, como fotógrafo, e algumas vezes de férias. É um país lindo. Dois amigos meus têm casas em Portugal.

Que celebridades portuguesas conhece?
Em termos internacionais, as únicas celebridades portuguesas são personalidades ligadas ao futebol: Cristiano Ronaldo, Mourinho, Luís Figo. Acho que os portugueses são únicos, muito originais. Têm qualquer coisa, não sei se é por serem todos do signo Leão ou algo relacionado com a forma como são educados. Gostam de dar espetáculo e por isso gosto deles. Figo, Ronaldo, Mourinho - todos eles adoram a atenção que os paparazzi lhes dedicam.

O facto de Mourinho ter deixado o Chelsea foi uma má notícia, portanto, para a sua agência.
Quando vivia em Londres, Mourinho era uma grande fonte para nós. Tal como Cristiano Ronaldo continua a ser, todos os dias. Eles «fazem» fotos muito boas.

Existe alguma celebridade que você tenha pena de nunca ter conseguido fotografar?
Quando andava na rua, como paparazzo, sonhava sempre encontrar Marlon Brando. Ele era um homem muito privado e odiava tudo o que fosse relacionado com a notoriedade. Ele gostava de esmurrar os paparazzi. Um colega meu conseguiu uma grande foto dele em Londres - esta figura enorme a sair do táxi e a entrar num restaurante em Kensington. Lembro-me sempre desta foto - como eu gostaria de a ter tirado!

Acha que as estrelas americanas são mais complicadas do que as britânicas?
Pelo contrário, nos Estados Unidos existe uma ótima relação entre as celebridades e os paparazzi. As estrelas americanas têm mais facilidade em aceitar os paparazzi como parte integrante da cultura e do «showbiz» e como instrumento importante de relações públicas. No Reino Unido, algumas estrelas colocam barreiras. Celebridades como Kate Moss ou, até certo ponto, Amy Winehouse, lidam bem com os paparazzi. Não têm problemas com eles. Outras, como Sienna Miller, por exemplo, têm uma relação de ódio. Sabe que mais? Acho que isso poderá de certo modo afetar a carreira dela no futuro.

Como é o relacionamento de Victoria Beckham com os paparazzi?
Teve altos e baixos, mas agora tem um relacionamento muito bom porque ela percebe como tudo funciona. Ela usa, manipula, os paparazzi. Ela trabalhava com um paparazzo numa base regular, fazia dinheiro com isso. Os Beckham combinavam diretamente com os fotógrafos, arranjavam as coisas da melhor maneira. E ela é a grande arquiteta por trás desse sistema.

Você recebe muitos telefonemas de estrelas a pedir para serem fotografadas?
Todos os dias. Ainda agora acabei de receber uma chamada de uma celebridade: queria que a fotografássemos num parque com o novo namorado.

Quem era?
Não posso dizer porque temos vários acordos de não divulgação. Ela telefonou-me agora. Durante os meses de verão, em particular, recebemos imensas chamadas com «dicas» sobre celebridades em férias. Por vezes são as próprias estrelas, outras vezes são os maridos, familiares, pessoas ligadas ao «management» ou às relações públicas. Querem dinheiro. Não me importo. Prefiro ser o paparazzo amigo do que o paparazzo horrível, importuno e intrusivo.

Mas isso é uma enorme mistificação. Uma burla.
Chame-lhe o que quiser. Algumas celebridades vêm ter connosco porque querem ter o tipo certo de publicidade. Ou querem retirar determinadas fotos do circuito comercial. Os paparazzi podem ser um dos melhores instrumentos de relações públicas do mundo. Tornam as pessoas mais famosas do que aquilo que são na realidade.

Como funciona o «ranking» das celebridades? Umas estão em alta, outras em baixa, como na bolsa de valores?
Funciona exatamente como uma bolsa de valores. Sem dúvida. Por vezes, as celebridades mudam após uma semana, um mês ou um ano. Por exemplo: há quatro ou cinco anos, Elle Macpherson estava certamente no Top 20. Agora ela está no Top 100 das celebridades. Kylie Minogue está no Top 10, Victoria Beckham provavelmente no Top 10 ou Top 15. Kate Moss, Sienna Miller, Amy Winehouse estão definitivamente no Top 5 actual.

E as estrelas masculinas? Brad Pitt, George Clooney?
As femininas vendem muito melhor do que as masculinas. Brad Pitt, claro. Mas melhor ainda seria uma fotografia de Brad ao lado de uma mulher. Isso é sempre uma coisa enorme, que fascina meio mundo.

As primeiras fotos dos filhos gémeos de Angelina Jolie e Brad Pitt aparentemente foram vendidas por 11 milhões de dólares (7 milhões e 600 mil euros). Não é um montante absurdo?
Eles são o casal de celebridades número um no mundo. E o mundo queria ver aquelas fotografias. Mas acho que Hollywood está a manipular os bebés. Como é que se pode gritar e exigir direito à privacidade quando se coloca um recém-nascido de frente para as câmaras?

Não concorda que os famosos por vezes podem ter motivos para recear os paparazzi?
Não. As celebridades usam os media quando precisam porque querem vender um CD ou um livro ou um filme. Mas depois gostam de apelar ao direito à privacidade quando lhes dá jeito. Os famosos não têm qualquer motivo para ter medo dos paparazzi. A não ser que estejam a fazer qualquer coisa de errado. Nós somos apenas o registo para a História. Na verdade, acho que as grandes celebridades ficariam aterrorizadas se os paparazzi deixassem de existir. Acha que Brad continuaria a ser o actor mais importante de Hollywood se todos os fotógrafos do mundo deixassem de o fotografar a partir de amanhã? Pode ter a certeza que não.

Acha mesmo?
Não tenha dúvida. No fundo, nós tornamos estas pessoas famosas. Damos-lhes o oxigénio para que se tornem ainda mais famosas. A fama deles depende de mim. Sem mim, muitos deles seriam ninguém. De certa forma, acho que sou temido, mas por outro lado sou reconhecido e adotado por eles.

Qual foi a celebridade mais rentável, a que lhe deu mais dinheiro?
A princesa Diana, sem dúvida. Ela adorava fazer a corte à imprensa. Era a melhor operadora de relações públicas do mundo e encorajava muito o contacto connosco. Quando comecei a trabalhar como jovem fotógrafo, na Inglaterra, ela transformara-se na primeira grande celebridade dos tempos modernos: uma princesa «pop star», uma superestrela, «glamour girl», estrela de cinema. Tudo isto. Ela era um fenómeno em termos de atenção dos media.

As suas fotos constroem a fama, mas também a podem destruir: arrasam carreiras, prestígio, casamentos. Alguma vez sentiu remorsos?
Nunca. Se tenho alguma culpa no cartório é simplesmente pelo facto de ter protegido algumas celebridades ao longo dos tempos. Tornei muita, muita gente famosa. Com a idade, no entanto, talvez tenha ficado mais sábio e menos liberal no que diz respeito à decisão de publicar ou não publicar determinadas coisas.

As últimas fotos da princesa Diana em Paris, por exemplo?
Por exemplo. Se quisesse vender essas fotos hoje poderia ganhar talvez mil milhões de dólares (700 milhões de euros). Mas há fotos que o mundo não deve ver. Depois da morte de Diana passei a estar no centro do mundo, diziam que era a pior pessoa no planeta. Mas a verdade é que tomei a decisão certa - não divulgar essas fotos. Foi, provavelmente, a maior decisão da minha vida.

Onde estão essas fotos?
Estão guardadas, escondidas num local seguro.

Não concorda que devem existir limites à atividade dos paparazzi?
Acho que não se deve fotografar alguém dentro de casa. Mesmo que estejam a consumir drogas, ter relações sexuais, o que quer que seja. Na casa deles ninguém deve meter o nariz. Mas quando determinada pessoa entra no domínio público, exibindo a pessoa, a personalidade, o estilo de vida, ela passa também a estar sujeita, infelizmente, ao exame minucioso por parte do público. Esse é o preço da fama. As celebridades não têm direito a escapar a este exame. Elas não podem ligar ou desligar o «jogo da fama» quando lhes apetecer.

Alguns países europeus têm normas rígidas relativamente à publicação de determinadas fotos de famosos. O que acha disso?
Algumas celebridades britânicas estão a tentar importar essas leis restritivas. Acho que isso poderá colocar em risco a liberdade de imprensa - uma tradição construída ao longo de séculos neste país. Mas os paparazzi nunca desaparecerão. A relação entre celebridades e paparazzi é muito interessante, algo cínica. Ambos necessitam uns dos outros.

No início da década de 90, você trocou o fotojornalismo e a reportagem de guerra pelo mundo das celebridades e dos paparazzi. Porquê?
Nessa altura tinha acabado de ganhar todos os prémios de fotografia que podia ganhar. Estive na revolução na Roménia, na guerra da Bósnia. Passei por coisas medonhas. Fui raptado na Bósnia, brincaram à roleta-russa com uma arma apontada à minha cabeça. Tive tantos, tantos momentos horríveis em que estive à beira da morte. Hoje em dia, penso assim: prefiro acordar e olhar para a Britney Spears de cabeça rapada a entrar numa clínica de reabilitação do que olhar para uma vala comum na Bósnia cheia de cadáveres. Vivi as duas situações.

Prefere as celebridades.
Nos anos 90 desenvolveu-se este culto crescente, uma obsessão pela fama e pelos famosos. A «cultura da celebridade» tinha tomado conta dos jovens. Acho que estes últimos 20 anos vão ser recordados como a era da celebridade, tal como os anos 60 foram a era do «rock and roll». Quando decidi apostar neste ramo, existia apenas uma revista do género no Reino Unido. Agora existem 20 ou 30 diferentes nas prateleiras, mais programas de rádio e de televisão. Os media estão apinhados de fotos de celebridades. As pessoas vivem obcecadas com as estrelas, querem saber o que vestem, o que fazem, onde vão.

Não vê nada de errado neste culto das celebridades? Não tem problemas, por exemplo, em ajudar a promover gente sem qualquer tipo de talento, gente que é famosa pelo simples facto de ser famosa?
Não acho que seja tão mau assim. Este culto das celebridades oferece um modelo de vida melhor a que muitos jovens podem aspirar. Os jornais publicaram recentemente uma sondagem interessante feita no Reino Unido. Perguntaram a uma amostragem de jovens com menos de 15 anos: o que queres ser quando fores mais velho? Cerca de 60 por cento responderam: «quero ser rico e famoso». Há 20 anos as respostas seriam «quero ser advogado», «arquiteto», «jornalista», «médico-cirurgião».

E isso é bom?
Não necessariamente. O que quero dizer é que ao menos os jovens podem concentrar-se em alguma coisa que não seja pertencer a um «gangue» ou esfaquear pessoas nas ruas. Há imensa gente por aí sem qualquer ponta de talento - como Paris Hilton ou Victoria Beckham, por exemplo - e que fez fortuna pelo simples facto de ser famosa. As miúdas e os miúdos olham para as estrelas à procura de inspiração. E isso pode ser importante.

As miúdas, como diz, podem querer ser como a Paris Hilton. Mas o problema é que nunca o conseguirão ser.
Porque não? Podem vir a ser! E que mal tem um jovem acordar de manhã com um sonho desses? Quando era criança, eu dizia que um dia queria ter um carro cujas portas abrissem para cima. Hoje tenho um. Isso chama-se aspiração, sonhar com um futuro melhor. Não é uma coisa má para a sociedade. Foi essa aspiração que transformou o Reino Unido no país que é hoje.