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“Perante Itália, Portugal tem um risco sísmico moderado”

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Luís Barra

Fernando Carrilho, sismólogo do IPMA, afirma em entrevista ao Expresso que o risco sísmico em Portugal é menor do que em Itália. No entanto, temos mais de 1000 sismos por ano. Entre cinco a 15 são sentidos pela população

Virgílio Azevedo

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Luís Barra

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Um sismo de magnitude 6,2 atingiu na quarta-feira quatro cidades italianas, matando 291 pessoas e destruindo milhares de edifícios. Fernando Carrilho, sismólogo do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), afirma em entrevista ao Expresso que o risco sísmico em Portugal é menor do que em Itália. Mas temos mais de 1000 sismos por ano, embora apenas cinco a 15 sejam sentidos pela população.

A Itália tem elevado risco sísmico mas é um país desenvolvido. Como se explica então que o sismo que atingiu a região de Perugia tenha causado tantos mortos e edifícios destruídos?
A extensão de danos que temos visto na TV corresponde a construções muito antigas, de uma época em que o conhecimento do fenómeno sísmico era muitíssimo reduzido e não existia construção antissísmica. Por isso, apesar de haver hoje em Itália conhecimento do risco sísmico, que é extremamente elevado, a verdade é que não é possível fazer o reforço de todo o edificado.

Os edifícios antigos são periodicamente reabilitados em Itália. Neste processo não foram adotados códigos de construção antissísmica que pudessem minimizar os efeitos de uma catástrofe como esta?
Há técnicas que permitem aumentar a resistência ao fenómeno sísmico quando os edifícios antigos são reabilitados, mas tudo isso tem custos e infelizmente o fator económico acaba por pesar nas decisões.

Em Portugal, a propósito do que se passou em Itália, as Ordens dos Arquitetos e dos Engenheiros alertaram para omissões no risco sísmico na reabilitação de edifícios, porque não existe boa legislação como na construção nova.
É um alerta pertinente, porque os obras de reabilitação urbana deveriam ser oportunidades para melhorar a resistência dos edifícios antigos, mas mais uma vez o fator económico é aquele que é tomado em consideração numa primeira etapa, o que provavelmente está a impedir que sejam adotadas medidas antissísmicas.

Qual é o nível de risco sísmico em Portugal?
Falando da primeira componente do risco que é o perigo, em termos de estudos comparativos com o que se passa no resto da Europa e no norte de África, Portugal tem um perigo sísmico moderado a moderado baixo, sendo que Lisboa e Vale do Tejo e o Algarve são as regiões onde esse perigo é mais elevado. Ainda assim está a um nível que podemos considerar moderado, quando comparado com a Itália, Grécia ou Turquia.

E os Açores?
Têm uma perigosidade superior, o fenómeno é mais frequente e, portanto, a probabilidade de ocorrer um movimento forte é maior do que no Continente, embora as magnitudes não atinjam valores tão elevados. Magnitudes de oito ou mais na escala de Richter em regiões próximas do Continente já ocorreram no passado e irão certamente ocorrer no futuro, mas isso não é expectável nos Açores, porque as condições tectónicas são diferentes.

A ciência pode prever sismos para efeitos de proteção civil?
A convicção da maioria dos especialistas internacionais é que não será possível no futuro prever as ocorrências sísmicas. Mas há uma garantia: num local onde no passado já ocorreu um sismo com um determinada magnitude sabemos que certamente no futuro ele vai repetir-se, porque as condições tectónicas mantêm-se idênticas durante milhões de anos. Só que não sabemos quando.

Sendo assim, onde pode a ciência avançar?
Na mitigação dos efeitos dos sismos, apostando na preparação da população para o fenómeno e na construção antissísmica, onde se tem feito um investimento muito grande. E também no alerta sísmico precoce, que já está desenvolvido há alguns anos em países como o Japão e os EUA com relativo sucesso. No sismo de 2011 de magnitude nove na escala de Richter no Japão foi possível fazer chegar um alarme a Tóquio com praticamente 30 segundos de antecedência. Claro que não é suficiente para evacuar um edifício grande antes de ele ser atingido, mas poderá ser suficiente para as pessoas tomarem algumas medidas de autoproteção e importante para atividades industriais mais sensíveis e para a travagem de comboios de alta velocidade.