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Muito e bem, haja quem

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Os alemães e os suecos trabalham pouco e produzem muito. Os japoneses estão em burnout. Nós, por cá, nem por isso. Mas batemos recordes no consumo de antidepressivos e vivemos cada vez mais centrados à volta do trabalho. O resultado pode ser mau

Luciana Leiderfarb

Luciana Leiderfarb

Texto

Jornalista

Olavo Cruz

Olavo Cruz

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Para saber o que é a produtividade, uma possibilidade é procurar o termo no dicionário. Mas a definição aí encontrada pode levar a um beco sem saída: o que passamos a perceber do assunto quando a dita é considerada a “relação entre uma dada quantidade produzida e um ou vários fatores necessários para a obter”? Pois é, as definições não são perfeitas — apenas definem o que outros terão de explicar. E qualquer explicação que inclua, relacionando-os, elementos como a quantidade produzida e os fatores indispensáveis para a obter tem de ter pessoas lá dentro. Havendo pessoas, e pessoas que trabalham, o que era uma equação simples passa a complicar-se. A definição transforma-se no mero invólucro de uma questão cujo enchimento é que conta. Afinal, entre investimento e resultados há um sem-fim de variáveis não mensuráveis que ultrapassam a execução de um algoritmo. E, realizado o esforço, nada nos garante que o resultado venha a ser o que esperamos — ou o que esperam de nós.

O que não falta são conselhos, e basta escrever ‘produtividade’ no Google para ser invadido pelas mais mirabolantes receitas capazes de a triplicar. O tema lembra outro tópico também altamente procurado, como o das dietas, sobre o qual todos, ou quase, têm opinião. Lemos que, segundo a Universidade de Warwick (Reino Unido), os trabalhadores mais satisfeitos com as suas condições de trabalho são 12% mais produtivos do que os restantes, em que a produtividade decresce em 10%. Que a “produtividade perfeita” se atinge a trabalhar 52 minutos com intervalos de 17, nem mais nem menos — e quem o diz é a DeskTime, uma app que mede o ritmo de trabalho dos funcionários numa empresa, alertando sobre as perdas de tempo, as paragens, quem chegou atrasado e quem produziu mais.

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No outro extremo estão os alertas de um país como o Japão, onde há pessoas a morrerem por excesso de horas de trabalho, o que deu origem ao termo karoshi. De março de 2015 a março deste ano, eram 2310 as queixas por karoshi e 189 os casos confirmados de trabalhadores que acabaram com a vida ou tiveram ataques cardíacos literalmente por não pararem de trabalhar. No Japão, onde o horário de trabalho é de 40 horas semanais mas a maioria da população trabalha entre 10 e 20 horas acima do que lhe é exigido, o governo está a tentar reduzir estas jornadas impondo tempo de descanso. Porém, como referiu Hiroshi Kawahito, representante do Conselho Nacional de Defesa das Vítimas de Karoshi, ao “The Washington Post”, nada irá mudar se as empresas não forem penalizadas.

O Japão é apenas um dos países onde a maioria dos adultos entre 20 e 34 anos — os chamados millennials — nem sequer espera reformar-se, seguido pela China, a Grécia e a Índia. E um dos muitos nos quais se está a provar que a velha máxima “mais horas de trabalho/maior produtividade” não passa de uma crença sem qualquer fundamento. “Não existe nenhum estudo nacional ou internacional que prove que o aumento de horas de trabalho tem influência direta sobre a produtividade”, afiança João Paulo Pereira, presidente da Associação Portuguesa de Psicologia da Saúde Ocupacional, dando o exemplo da Suécia, que está neste momento a testar, com sucesso, uma semana de trabalho de apenas seis horas. O cruzamento dos últimos dados da OCDE e da Pordata mostra que a mais quantidade de horas trabalhadas não corresponde maior riqueza produzida: a Alemanha, o país da União Europeia (UE) onde se trabalha menos (1300 horas por ano/trabalhador), é o que ostenta o maior índice de produtividade (126,9, sendo 100 a média da UE), enquanto na Grécia, onde se trabalha mais (2026 horas por ano/trabalhador), o mesmo índice se fixa nos 68,2.

Portugal não está melhor: cada pessoa trabalha 1865 horas anuais para um índice de produtividade de 68,8, muito próximo do grego. E, ressalvando a diferença de custos de vida, enquanto na Grécia e em Portugal cada trabalhador produz 21 euros por hora, na Suécia e na Alemanha esse valor situa-se nos 57,3 euros e 51,3 euros respetivamente. Porquê? Para Maria João Valente Rosa, socióloga e diretora da Pordata, parte da resposta está num outro sector, o da educação. “Na era do trabalho industrial, fazia sentido falar da quantidade de porcas que era possível apertar num certo número de horas. Neste momento, o que faz a diferença do ponto de vista económico é o conhecimento e a criatividade. Uma sociedade debilitada nestes domínios está menos preparada para enfrentar os tempos modernos”, explica. Em causa estão indicadores educativos como, por exemplo, aquele que diz respeito ao nível de escolaridade dos trabalhadores por conta própria. Na Alemanha, 46,3% destes acabaram o secundário e 46,9% o ensino superior e apenas 6,7% se ficaram pelo ensino básico (9º ano). Na Suécia, 52,6% finalizaram o secundário e só 16% se contentaram com o ensino básico. Em Portugal, 61% entram no mercado de trabalho tendo completado o ensino básico — e só 19% o fazem com o ensino secundário ou com um curso superior.

“Em Portugal, trabalha-se demasiadas horas para aquilo que se produz, e isso quer dizer que há uma inadequação dos processos em relação aos resultados. E ainda continua a ser premiado o esforço em vez da capacidade de cumprir objetivos”, analisa Maria João Valente Rosa. No mesmo sentido opina João Paulo Pereira, para quem Portugal partilha os modelos da Europa do Sul: “Enquanto nos países do Norte e do Centro da Europa existe uma adequação do trabalho ao homem, no Sul há uma adequação do homem ao trabalho.” Esta inversão é não só disfuncional como perigosa, pois na corrida para se atingir objetivos muitas vezes não se leva em conta que o trabalhador terá de continuar a trabalhar. Em 2015, este doutorado em psicologia e professor foi coautor do “Barómetro de Gestão de Pessoas e Competências”, segundo o qual 82% dos cinco mil inquiridos apresentavam risco elevado de burnout (esgotamento), estando 37% já diagnosticados. A esta realidade não é alheia “uma produtividade baseada na eficácia, que apenas considera os resultados em termos de produção, e não na eficiência, que contempla o volume de energia gasto”.

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Não é por acaso, diz João Paulo Pereira, que em Portugal se verificou um aumento de 76% no consumo de antidepressivos, de 69% no de ansiolíticos e de 85% no de analgésicos entre 2008 e 2015. E que “a esmagadora maioria da despesa com recursos humanos se concentra na área da saúde e no absentismo”. Porque, em grande medida, “a disfunção entre o trabalho e os trabalhadores se tornou uma pandemia”. Para este professor doutorado em psicologia, muitas são as organizações que colocam nas pessoas a responsabilidade pelo seu insucesso, sem atender ao que o origina: “A produtividade tem de ser avaliada num rácio entre a produção e a energia gasta no processo, procurando um equilíbrio entre a exigência, as competências de cada um e a forma como as põe em prática.” Se assim não for, abre-se espaço para o aparecimento de toda a classe de sintomas — sensação de incapacidade na realização das tarefas, sensação de sobrecarga, compulsão, cinismo, ansiedade, doenças músculo-esqueléticas — que podem culminar no burnout.

É na medida em que o trabalho passou a ocupar o centro das nossas vidas que os graus de produtividade se ressentem — ressentindo-se os níveis de bem-estar. Para Maria João Valente Rosa, “se as outras vertentes forem descuradas, se uma pessoa deixa de poder desfrutar da sua família ou de melhorar as suas capacidades por meio da formação contínua, ou de parar simplesmente para ter ideias novas, o trabalho sofrerá certamente com isso”. “Ainda é menos mal visto passar 12 horas à secretária para conseguir um determinado objetivo do que passar só três e ter tempo para outras coisas”, remata a socióloga.

João Paulo Pereira, por sua parte, desafia as organizações a que utilizem o tempo consagrado por lei à formação dos funcionários não tanto para o aperfeiçoamento das áreas técnicas como para prevenir os quadros de esgotamento e travar “a cultura do limite” usualmente praticada. “Está provado que a intervenção surte efeito, é só as empresas quererem fazê-lo”, comenta, confirmando que os chamados ‘riscos psicossociais’ podem diminuir de 86% para menos de metade com o recurso a ajuda especializada.