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Turistas surdos vão descobrir o Porto com as mãos

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Rui Duarte Silva

O turismo no Porto abre-se a partir de setembro a novas linguagens. A plataforma Hands to Discover pretende dar a conhecer a cidade a turistas surdos

André Manuel Correia

Conhecer uma cidade não se cinge ao que pode ser visto. É preciso entendê-la e conhecer-lhe a história. Atualmente, o Porto é um dos destinos europeus mais apetecíveis e faz do turismo umas das principais apostas. A pensar nisso mesmo e para atrair um novo público, muitas vezes esquecido, o projeto “Hands to Discover” está a desenvolver uma plataforma ‘online’ que permite à comunidade surda conhecer a cidade de uma forma mais completa e enriquecedora.

Num gesto singular a nível nacional e europeu, pretende-se mostrar o que o Grande Porto tem para oferecer, como hotéis, restaurantes, museus, espaços de diversão noturna, passeios pedestres, entre outras possibilidades.

A ideia foi “amadurecida ao longo do tempo”, explicou Ana Bela Baltazar, uma das mentoras, em entrevista ao Expresso. “Quem quiser ser nosso parceiro, poderá constar na plataforma e, numa primeira fase, será completamente gratuito”, contou a especialista em linguagem gestual.

Paralelamente a esta publicidade dos espaços – e é aí que está a grande diferença do ‘Hands to Discover’ – existe o objetivo de sensibilizar os parceiros para questões que dizem respeito à comunidade surda e às dificuldades que esta diariamente encontra. “Poderemos fazer uma breve introdução à língua gestual a uma equipa hoteleira, por exemplo. Aquelas frases de cortesia e de boas-vindas, pelo menos”, explicou a intérprete oficial da RTP e autora do Dicionário de Língua Gestual Portuguesa

Combater o desconhecimento e derrubar barreiras comunicacionais

Licenciada em Psicologia Clínica, mas com mais de vinte anos de experiência como intérprete de linguagem gestual, Ana Bela Baltazar frisou que, quando se trata de surdez, “há um grande desconhecimento” por parte da população em relação a esta comunidade.

“A ideia de que algo escrito resolve o problema está sempre presente e não se considera a comunicação uma barreira”, lamentou Ana Bela. “Quem está na área sabe perfeitamente que não é assim. Caso contrário, não faria sentido ter intérpretes de língua gestual nos programas televisivos. Bastava pôr legendas, mas não se resolve dessa forma”, afirmou a especialista de 43 anos.

Para fazer face a isso, criou em 2005, juntamente com Fernando Baltazar, a empresa CTILG – Serviços de Tradução e Interpretação de Língua Gestual. Esta é a base para o projeto ‘Hands to Discover’, com lançamento anunciado para 23 de setembro, numa cerimónia de apresentação que decorrerá na Biblioteca Municipal Almeida Garrett.

A equipa é multidisciplinar e é constituída por intérpretes, pessoas que estejam relacionadas com a comunidade surda, familiares e até mesmo pessoas com incapacidade auditiva que podem ajudar na comunicação. “Importa-nos dar resposta aos turistas nacionais, mas essencialmente aos turistas internacionais que queiram vir a Portugal. Queremos que se sintam integrados e percebam que temos condições para os receber”, destacou a intérprete. “Muitas vezes os visitantes surdos acham a cidade bonita ou feia, mas acabam por não conseguir perceber o que está por trás. É isso que queremos mudar”, prosseguiu na explicação.

“Fazer do Porto uma cidade mais inclusiva”

A experiência obtida por Ana Bela Baltazar e a colaboração da empresa com a Associação de Surdos do Porto (ASP), instituição onde pela primeira vez tomou contacto com a comunidade surda, espoletou a necessidade de desenvolver um projeto que possa tornar o turismo numa atividade mais integradora e democrática.

“A ASP recebe frequentemente pedidos de pessoas que vêm do estrangeiro e pretendem saber se há algum tipo de apoio. A resposta acabava sempre por ser a mesma, que não havia nada, só a boa vontade e pouco mais do que isso”, explicou a tradutora. “Como intérpretes que somos, lutamos pela inclusão da comunidade surda”, reforçou Ana Baltazar que através desta plataforma pretende “fazer do Porto uma cidade mais inclusiva”.

O projeto tem início na Invicta, mas pretende alastrar-se a outras cidades. “Já temos alguns contactos na zona mais a Sul e pretendemos que a expansão seja a segunda fase do projeto”, adiantou a responsável.

Aos 43 anos, este será um novo desafio para Ana Bela Baltazar e uma forma de aliar duas paixões: a linguagem gestual e o turismo. “Até conhecer a Língua Gestual Portuguesa nunca imaginei enveredar por esta profissão, porque não conhecia uma única pessoa surda. Nessa altura, coincidência ou não, o turismo era um setor que me fascinava”, confessou. “Juntar estas duas áreas passados tantos anos é muito bom e, acima de tudo, dá a sensação de que estamos a abrir portas”, concluiu.