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Produtores de leite e carne em protesto no distrito de Aveiro

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Uma marcha lenta de tratores acontece entre Ovar e Estarreja, no mesmo dia em que o Governo anuncia novas medidas de apoio ao sector. Os agricultores exigirem melhores preços e a reposição do regime de quotas leiteiras

Os produtores de leite e carne marcaram para esta terça-feira uma marcha lenta de tratores entre Ovar e Estarreja, no distrito de Aveiro, para exigirem melhores preços e a reposição do regime de quotas leiteiras.

Organizada pela Confederação Nacional da Agricultura (CNA) e pela Associação Portuguesa de Produtores de Leite e Carne (APPLC), esta ação inclui uma concentração junto a três hipermercados em Estarreja e acontece numa altura em que Governo vai avançar com um novos apoios para o setor do leite. As medidas vão ser discutidas em Conselho de Ministros, também esta terça-feira, e têm por objetivo reforçar as ajudas já em vigor.

Os agricultores queixam-se da "ditadura comercial que as grandes superfícies exercem", conforme disse à Lusa João Dinis, da Direção da CNA, que acusa os hipermercados de "esmagarem" os preços do leite e da carne.

O dirigente diz mesmo que os produtores de leite "estão a ter prejuízo para continuar a produzir", referindo que este sector está a atravessar uma "grande crise", desde o fim das quotas leiteiras na União Europeia, em 2015.

Por isso, João Dinis defende a retoma do mecanismo público do controlo da produção, vincando que o Governo deve bater-se por "um debate forte" sobre esta matéria ao nível da Comissão Europeia.

Segundo a organização do protesto, os tratores vão sair de Válega (Ovar) e de Estarreja, pelas 10h30, estando a primeira concentração conjunta marcada para as 11h30 em frente aos hipermercados, ao lado da EN 109, em Estarreja.

Os manifestantes vão dirigir-se depois para a Câmara de Estarreja, onde esperam ser recebidos pelo presidente da autarquia.

Prémio suplementar a todos os produtores de leite do Continente

O ministro da Agricultura, Luís Capoulas Santos, reconheceu, em declarações à agência Lusa, que "o sector do leite é um dos que tem vindo a sofrer há mais tempo uma severa crise de abaixamento de preço"

"Era uma situação que já persistia há longos meses quando chegámos ao Governo e é uma situação que se tem mantido, disse.

Segundo o governante, "a persistência da situação obriga a que haja agora um novo pacote de medidas, algumas obtidas em negociações na União Europeia e decididas no Conselho de Ministros da Agricultura no último mês de julho".

Entre as novas medidas anunciadas pelo Ministério da Agricultura destacam-se o pagamento de um prémio suplementar de 45 euros por vaca a todos os produtores de leite do Continente, num montante global de 7 milhões de euros, valor que será pago em duas fases: 70% em outubro e 30% em dezembro. A este montante junta-se o prémio anual, cujo valor médio é de 82.00 euros por vaca.

Depois, há lugar ao pagamento de um prémio extraordinário de mais 45 euros por vaca, acumulável com o anterior, atribuído às primeiras 20 vacas de cada exploração, aplicável a todos os produtores do território nacional, num montante global de cerca de 4 milhões de euros.

Esta medida visa "discriminar positivamente os pequenos produtores", vincou Capoulas Santos.

Também vai ser atribuído um apoio especial de 14 cêntimos por litro de leite voluntariamente reduzido à produção face ao período de referência (trimestre do ano anterior escolhido pelo próprio produtor).

Valorizar a produção nacional

Paralelamente, vai ser implementada, a nível nacional, a obrigatoriedade de indicação da origem no rótulo do leite e produtos lácteos, com o objetivo de informar os consumidores e promover a valorização da produção nacional, algo que está em negociação com a União Europeia, segundo o Ministério da Agricultura.

O executivo anunciou ainda o reforço dos apoios no âmbito do Programa de Desenvolvimento Rural (PDR 2020), dando prioridade ao investimento no sector do leite e produtos lácteos, incluindo no seu rejuvenescimento.

Vai ser também promovido o reforço dos níveis de apoio ao investimento, a aplicar em concursos específicos para o sector do leite e produtos lácteos, bem como a salvaguarda de uma dotação específica no valor de 10 milhões de euros, para o apoio ao investimento e ao rejuvenescimento do sector.

Finalmente, o ministério tutelado por Capoulas Santos apontou para a salvaguarda de uma dotação específica para o apoio ao investimento na reconversão da atividade, com redução voluntária da produção de leite de vaca.

Estas medidas juntam-se a outras iniciativas já adotadas pelo Governo para fazer face à situação em que se encontram os produtores de leite, tendo o Ministério da Agricultura destacado que, neste momento, "Portugal é o Estado-membro que colocou em prática o maior pacote de ajudas ao sector".

Desde logo, o executivo apontou para a criação do Gabinete de Crise dos Sectores do Leite e Carne de Suíno, formalizado em meados de janeiro), a simplificação do acesso ao pagamento do 'Greening', que representa 30% das ajudas diretas da Política Agrícola Comum (PAC), através do Regime de Certificação Ambiental.

Soma-se-lhes a isenção do pagamento de 50% do valor das contribuições para a Segurança Social, referentes ao período de abril a dezembro de 2016, aplicável aos produtores de leite em atividade e aos seus trabalhadores.

Novas linhas de crédito

Foi também criada uma Linha de Crédito para Encargos de Tesouraria, num montante até 10 milhões de euros, pelo prazo máximo de três anos, com um ano de carência, a par de uma Linha de Crédito para Reestruturação de Dívida, num montante até 10 milhões de euros, pelo prazo máximo de seis anos, com um ano de carência.

Houve ainda um aumento dos 'plafonds' para compra de manteiga e leite em pó, no âmbito da Intervenção Pública: Leite em pó (de 218.000 toneladas para 350.000 toneladas) e manteiga (de 50.000 toneladas para 100.000 toneladas).

O Governo acordou também a prorrogação do período para entregas de manteiga e leite em pó, ao abrigo da ajuda à Armazenagem Privada, de 29 de fevereiro para 30 de setembro, promovendo simultaneamente a alocação de um apoio de dois milhões de euros para ajuda ao consumo de leite escolar.

"Esperamos que com as novas medidas e as outras que já foram adotadas, o sector possa - tal como aconteceu com a suinicultura - ultrapassar a crise e restabelecer preços remuneradores, de forma a que os agricultores possam viver com dignidade", rematou Capoulas Santos.