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O futuro baço do Edifício Transparente

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Rui Duarte Silva

Colocado em hasta pública desde julho, o Edifício Transparente, no Porto, espera pelo aparecimento de potenciais compradores que possam dar um novo rumo ao espaço comercial

André Manuel Correia

O Edifício Transparente, junto ao Parque da Cidade do Porto, situado na Via do Castelo do Queijo, enfrenta atualmente uma situação bastante baça. Colocado à venda desde julho, a autarquia pede quase oito milhões de euros pelo imóvel edificado em 2001 com uma área superior a sete mil metros quadrados. O Expresso visitou este espaço onde o tempo parece ter sido desligado – não fossem os sinais de deterioração – e falou com os poucos lojistas que ainda resistem às elevadas rendas e às parcas condições. Ali, aguarda-se por melhores dias mas duvida-se que algum interessado esteja disponível para pagar o valor pedido.

Na reunião de Câmara de 19 de julho, sessão em que foi votada e aprovada a alienação deste imóvel camarário, Rui Moreira justificou a decisão com a “degradação do edifício” e com a “situação insustentável” do mesmo. Na opinião do presidente da autarquia, a venda pode permitir “animar o espaço”

Os sinais de falta de manutenção estão bem patentes. A ferrugem abunda e a fachada envidraçada tem muito pouco de transparente. No interior, as infiltrações no inverno são uma preocupação constante, assim como o frio que se faz sentir nas instalações deste edifício com quatro pisos.

Rui Duarte Silva

Construído no ano em que o Porto foi Capital Europeia da Cultura, com projeto do arquiteto espanhol Solà-Morales, o Edifício Transparente ficou votado ao esquecimento. Em 2003, o espaço é concessionado à empresa Hot Trade que, quatro anos mais tarde, o transformou numa zona comercial. O contrato com a concessionária vigora até 2024.

Um edifício que “de transparente tem pouco”

No entanto, a relação entre os lojistas e a empresa nunca foi pacífica e a manutenção do edifício, dizem, nunca terá sido efetuada de forma eficaz. Ao caminhar pelos corredores é inevitável a sensação de se estar a percorrer um local obsoleto, onde a azáfama comum de um espaço comercial dá lugar a um silêncio quase absoluto. “Este edifício era bonito quando tinha os vidros todos limpos, mas agora de transparente tem pouco”, brinca José Araújo, de 64 anos, a trabalhar no restaurante Cufra Grill desde 2008.

Este espaço de restauração é um dos que ainda consegue atrair mais gente e, dessa forma, fintar a escassez de condições. Ao Expresso, José Araújo confessa que “já se chegou a pensar em arranjar um outro local e depois abandonar este, mas a afluência de público ainda justifica a nossa presença aqui”, explica. “Somos quase uma âncora do edifício”, considera.

“Este edifício não tem manutenção há muitos anos, a não ser aquela manutenção ‘à la carte’”, classifica José Araújo. “Avaria o elevador e chama-se um técnico. As infiltrações de água são uma coisa abismal. Há sítios aqui em que chove como se estivéssemos no exterior e até no quadro da luz há diversos problemas. Já houve aqui falhas gravíssimas de segurança”, acrescenta.

Rui Duarte Silva

Atualmente, ainda não se sabe qual será o futuro do Edifício Transparente e espera-se que surjam interessados. Relembre-se que esta é a segunda vez que o imóvel é colocado em hasta pública, depois de em 2011 o executivo camarário, à época liderado por Rui Rio, ter tentado a alienação deste bem patrimonial pelo valor de 4,068 milhões de euros. Ou seja, metade do que agora está a ser pedido.

“Não estou a ver forma de se conseguir vender o imóvel por esse preço. No passado já se tentou e não se conseguiu por um valor muito mais baixo. Não acho que vá ser um processo muito fácil”, considera Carlos Oliveira, gerente da loja Bike Zone, que explica que o negócio “corre em função das limitações” do próprio espaço.

As elevadas rendas é outro dos fatores apontado pelo comerciante para a desertificação do Edifício Transparente. “Vários comerciantes optaram por deslocar-se para as redondezas”, conta.

“As autarquias não nasceram para dar prejuízo, mas também não servem para dar lucro”

A decisão de alienar o imóvel, aprovada por maioria em reunião camarária, contou com a abstenção do vereador Ricardo Almeida, da coligação ‘Porto Forte’ (PSD-MPT-PPM), e com o voto contra da CDU, representada pelo vereador Pedro Carvalho.

Em conversa telefónica com o Expresso, Pedro Carvalho destaca a localização do imóvel na “zona nobre” da cidade e diz que se está a vender um espaço público que “pode ter uma utilização diversa, independentemente da opinião sobre o contrato de concessão com a Hot Trade”.

Para o vereador, “aquilo que falta à cidade é ter espaço público” e é esse o motivo que leva a CDU a adotar uma “posição contrária à estratégia de alienamento de património municipal”. “Se nós [autarquia] queremos ter uma estratégia de intervenção na próxima revisão do PDM, até do ponto de vista de consolidação ou reabilitação de determinadas zonas da cidade, é muito importante termos as zonas de espaço público para que possamos intervir sobre elas”, defende Pedro Carvalho.

Rui Duarte Silva

O vereador enaltece igualmente que as contas camarárias estão de “boa saúde”, num ano em que a autarquia obteve um excedente orçamental de 49,2 milhões de euros. Para 2016, a CMP prevê arrecadar 18,6 milhões de euros com a venda de vários imóveis, algo que para Pedro Carvalho não é entendível.

“Não estamos numa situação, do ponto de vista camarário, que nos diga que é preciso vender alguma coisa para fazer algum investimento estratégico”, sustenta. “Com um excedente que atinge quase os 50 milhões de euros e, mesmo com as revisões orçamentais, aquilo que vai para investimento anda à volta dos 19 milhões”, denota o responsável comunista.

“As autarquias não nasceram para dar prejuízo, têm de estar equilibradas financeiramente, mas também não servem para dar lucro. Dinheiro para estar parado, até com taxas de juro tão baixas, não consigo realmente compreender”, acrescenta o vereador, que acha “difícil surgirem interessados” na compra do Edifício Transparente pelo valor pedido.

Rui Duarte Silva